Câncer de mama em jovens exige atenção à fertilidade e ao risco genético
Em 2025, o Brasil registrou cerca de 2,8 mil casos em mulheres de até 34 anos; o tratamento pode afetar a fertilidade e os planos de vida.
Resumo em 30 segundos
O câncer de mama é raro antes dos 35 anos, mas pode ser diagnosticado em uma fase de decisões sobre trabalho, estudos e filhos. Especialistas destacam a importância de avaliar fertilidade e risco genético desde o início do tratamento. Em 2025, foram registrados cerca de 2,8 mil casos nessa faixa etária no Brasil.
O câncer de mama em mulheres com menos de 35 anos é raro, mas pode ser diagnosticado em uma fase marcada por decisões sobre estudo, trabalho, relacionamentos e planos de ter filhos. Adriana Coelho, hoje com 29 anos, descobriu a doença em 2026, em Porto Alegre, e teve de adiar projetos pessoais durante o tratamento; especialistas destacam que, entre pacientes jovens, o cuidado pode envolver também a preservação da fertilidade e a avaliação de risco genético.
Dados do Portal da Oncologia, do Ministério da Saúde, registraram cerca de 2,8 mil casos em mulheres de até 34 anos no Brasil em 2025. No total, considerando todas as idades, foram 50,3 mil diagnósticos. Os registros entre as mais jovens chegaram a 3,2 mil em 2024 e 3,3 mil em 2023, números que, apesar da oscilação, se mantiveram relativamente estáveis no período.
A mastologista Betina Vollbrecht, líder da área no Hospital Nora Teixeira, descreve a ocorrência antes dos 35 anos como uma “entidade rara”, expressão usada na oncologia para doenças de baixa incidência. Ela afirma que, em pacientes jovens, os tumores podem crescer mais rapidamente e, por isso, o diagnóstico frequentemente ocorre em estágio mais avançado.
A médica cita o estudo brasileiro Amazona III, que considerou pacientes com menos de 40 anos e estimou que elas representariam cerca de 7% dos casos diagnosticados no país. Abaixo dos 35 ou dos 30 anos, a proporção ficaria em torno de 5%, segundo Betina.
No caso de Adriana, a suspeita surgiu em outubro de 2025, quando uma colega que trabalhava como massoterapeuta notou um nódulo durante uma massagem. Adriana procurou um posto de saúde e pediu uma mamografia, embora o exame não seja indicado antes dos 40 anos para mulheres sem histórico familiar. O resultado não foi conclusivo, e ela recebeu recomendação para fazer uma ecografia das mamas e consultar um mastologista.
A consulta não foi marcada de imediato. Em março de 2026, depois de desenvolver uma infecção na mama, Adriana fez uma biópsia, exame que analisa uma amostra de tecido para verificar se há células cancerígenas, e recebeu o diagnóstico. Ela não tinha histórico familiar da doença.
Adriana foi diagnosticada com câncer de mama triplo-negativo, subtipo que não apresenta receptores de estrogênio e progesterona nem a proteína HER2. Como esses elementos são alvos de algumas terapias, sua ausência limita opções de tratamento direcionadas a eles. A quimioterapia começou poucos dias após o diagnóstico.
“Eu aceitei que o meu tempo de vida não vai ser aquele que eu planejei. Agora busco ter o maior número de anos de vida que conseguir”, disse Adriana. Ela adiou planos de morar sozinha com a filha de 11 anos e de voltar a estudar. Após mais de seis meses afastada, retornou ao trabalho em outubro, mas ainda relata efeitos do tratamento e limitações físicas.
Outra paciente, Juliana Kreling, recebeu o diagnóstico de câncer triplo-negativo aos 27 anos, após uma ecografia de rotina identificar um nódulo. Uma biópsia confirmou a doença. Hoje com 40 anos, ela conta que, durante o tratamento, entre 2013 e 2014, sentia-se afastada de atividades cotidianas por causa das restrições e dos efeitos da quimioterapia.
O tratamento pode afetar a fertilidade, a sexualidade, a autoestima, a vida social e a continuidade dos estudos ou da carreira. A mastologista Maira Caleffi, chefe do Serviço de Mastologia e coordenadora do Núcleo Mama do Hospital Moinhos de Vento, recomenda que a equipe avalie desde o início se a paciente deseja preservar óvulos. Alguns quimioterápicos podem causar falha hormonal permanente nos ovários e antecipar a menopausa.
A avaliação genética também pode influenciar as decisões terapêuticas. Conforme Maira, identificar uma mutação associada a novos tumores pode levar, em determinados casos, à recomendação de retirar as duas mamas, em vez de fazer uma cirurgia conservadora, que remove apenas parte da mama afetada. O plano deve considerar as características do tumor e as necessidades de cada paciente.
O acompanhamento pode reunir mastologistas, oncologistas, psicólogos, nutricionistas e especialistas em fertilidade. Entre os efeitos físicos citados estão fadiga, dores, rigidez nas articulações e dificuldade de movimento; a imunidade baixa durante o tratamento também pode exigir cuidados para evitar infecções. Adriana interrompeu a prática de muay thai, academia e trilhas, além de deixar o trabalho com adestramento de cães após a retirada de um linfonodo na axila, procedimento que, segundo ela, reduziu a força do braço.