Califórnia caminha para rejeitar imposto sobre grandes fortunas
Mais de 55% dos votos apurados até quarta-feira foram contra a Proposição 40, mas a contagem pelo correio continua e o resultado ainda não foi certificado.
Resumo em 30 segundos
A Proposição 40, que cobraria 5% do patrimônio de residentes da Califórnia com mais de US$ 1 bilhão, caminha para a rejeição. A campanha contrária recebeu mais de US$ 300 milhões de grandes doadores. Apesar da provável derrota, a taxação de grandes fortunas ganhou espaço em disputas eleitorais nos Estados Unidos.
A Califórnia caminha para rejeitar a Proposição 40, que criaria um imposto de 5% sobre o patrimônio de moradores com mais de US$ 1 bilhão, mas o debate sobre a taxação de grandes fortunas nos Estados Unidos ganhou força nas eleições de terça-feira (3). Na apuração divulgada até quarta-feira (4), mais de 55% dos eleitores votaram contra a medida, ainda sem resultado oficial certificado.
A proposta seria o primeiro imposto sobre grandes fortunas do país. Como a contagem continua, a vantagem contrária à cobrança ainda pode diminuir: o estado depende bastante de votos enviados pelo correio, e a certificação dos resultados pode levar semanas. A Associated Press ainda não havia declarado um vencedor para a votação.
A disputa também incluiu uma medida paralela destinada a anular a taxa sobre bilionários, que igualmente avançava para a aprovação. O imposto atingiria apenas residentes da Califórnia com patrimônio superior a US$ 1 bilhão e previa uma alíquota de 5% sobre essa riqueza.
A campanha contra a proposta recebeu mais de US$ 300 milhões de bilionários e outros grandes doadores. Entre eles estavam Sergey Brin, cofundador do Google, Eric Schmidt, ex-presidente-executivo da empresa, o investidor de capital de risco Vinod Khosla e o investidor Michael Moritz. Cada um doou milhões de dólares para tentar barrar a cobrança.
Os eleitores foram expostos a mensagens, telefonemas e anúncios em redes sociais e no YouTube antes da votação. O governador Gavin Newsom e Xavier Becerra, democrata que venceu a disputa para sucedê-lo, também fizeram campanha contra o imposto. Newsom argumentou que a cobrança poderia levar inovação e capital para fora do estado, que abriga o Vale do Silício.
A proposta foi patrocinada pelo sindicato de trabalhadores da saúde SEIU-UHW, que defendia destinar toda a arrecadação a gastos com saúde. Essa vinculação contribuiu para a oposição de outros grupos, incluindo o maior sindicato de professores da Califórnia. O professor David Crane, da Universidade Stanford, apontou a estratégia como um dos problemas da campanha favorável ao imposto.
Crane prevê que propostas semelhantes apareçam em outros estados, apesar da provável derrota californiana. O economista Joseph Stiglitz também afirmou que é “apenas uma questão de tempo” até que uma iniciativa desse tipo ganhe força. Ele comparou o debate atual às mudanças na tributação federal: a Suprema Corte derrubou o imposto de renda em 1895, mas ele foi incorporado à Constituição 18 anos depois.
A discussão sobre impostos para bilionários apareceu em outras disputas eleitorais. Em Michigan, Abdul El-Sayed venceu a eleição para o Senado depois de incluir a taxação de fortunas entre as principais propostas de campanha. Em seu discurso de vitória, ele disse que políticos precisam enfrentar “as corporações, os bilionários e os grupos de interesse que manipularam o sistema contra nós por tempo demais”.
No Texas, James Talarico venceu a disputa para o Senado, em uma vitória democrata inédita em uma geração. Ele afirmou que o resultado enviava um recado aos grandes financiadores bilionários. Elon Musk havia desembolsado mais de US$ 150 milhões para apoiar o rival republicano de Talarico.
A força eleitoral dos democratas em diferentes estados foi interpretada por estrategistas e especialistas como um sinal de que a taxação de grandes fortunas continuará em discussão. A aproximação de bilionários com Donald Trump durante seu segundo mandato também se tornou um ponto de tensão para os republicanos, em meio à insatisfação de eleitores com o custo de vida e a distância entre os mais ricos e as famílias comuns.
Na Califórnia, parte da oposição à Proposição 40 se concentrou no risco de a cobrança abrir caminho para impostos sobre parcelas maiores da população. Darran Matthews, eleitor de Glendale que votou contra a proposta, disse que a campanha contrária convenceu pessoas de que a taxação “não pararia por aí”. Já apoiadores defenderam que a arrecadação poderia financiar serviços de saúde, enquanto críticos da medida apontaram possíveis efeitos sobre investimentos e a permanência de empresas no estado.