Banco Central aponta maior nível de crédito problemático desde 2012
Relatório de Estabilidade Financeira do BC mostra que 9,2% dos empréstimos às famílias tinham problemas em junho de 2026, com alta em todas as modalidades.
Resumo em 30 segundos
Os ativos problemáticos chegaram a 9,2% da carteira de crédito às famílias em junho de 2026, o maior nível desde 2012, segundo o Banco Central. A alta ocorreu em todas as modalidades. O BC também aponta aumento do comprometimento da renda familiar e estuda medidas para reduzir o superendividamento, sem prazo definido.
A parcela dos empréstimos às famílias com atraso superior a 90 dias ou sinais de que não serão pagos integralmente chegou a 9,2% em junho de 2026, o maior nível desde 2012. O dado consta no Relatório de Estabilidade Financeira (REF) do Banco Central (BC), divulgado nesta terça-feira, 27 de outubro.
Esses créditos, classificados pelo BC como ativos problemáticos, haviam alcançado 9,3% pouco antes, o pico da série. Em 2021, no ponto mais baixo, correspondiam a 6,3% da carteira de pessoas físicas. A piora ocorreu no primeiro semestre em todas as modalidades de crédito para famílias.
Cartão de crédito, crédito rural, financiamento de veículos e empréstimo consignado atingiram seus maiores patamares da série. No cartão, o indicador chegou a 13,2% e terminou junho em 12,7%; no crédito rural, marcou 10,3%, nos veículos, 8,5%, e no consignado, 5%. O crédito pessoal sem consignação teve a taxa mais alta, de 14,9%, ainda abaixo do recorde de 16,5% registrado em 2016.
O BC atribui a maior parte do avanço à inadimplência. Desde janeiro de 2025, uma regra do Conselho Monetário Nacional (CMN) deixou a critério dos bancos o momento de reconhecer uma dívida como perda. Com isso, empréstimos em atraso podem permanecer por mais tempo nos balanços e influenciar os indicadores. A autoridade monetária calcula que, mantidas as regras anteriores, a inadimplência em junho seria 0,78 ponto percentual menor, cerca de 45% da alta observada desde dezembro de 2024. Ainda assim, o BC avalia que o indicador teria aumentado mesmo sem a mudança regulatória.
O relatório também aponta desaceleração do crédito bancário às pessoas físicas no primeiro semestre, em meio a condições financeiras mais restritivas e à moderação da atividade econômica. O comprometimento da renda familiar com dívidas chegou ao maior nível em 21 anos. Cartão e crédito pessoal sem garantia têm peso importante entre os tomadores mais pressionados, sobretudo os de menor renda.
Em junho, 20,3 milhões de pessoas estavam na categoria de “endividados de risco” usada pelo BC. O grupo representava 17% dos devedores do sistema financeiro, aumento de 75% em relação a junho de 2021. As estimativas da instituição apontam que os ativos problemáticos devem continuar elevados na maioria das modalidades durante 2026, e os bancos sinalizam restrição maior na oferta de crédito às famílias no segundo semestre.
O BC estuda medidas macroprudenciais para reduzir o superendividamento, como exigências mais rigorosas para operações de maior risco e acompanhamento da capacidade de pagamento dos clientes. O relatório não estabelece prazo para essas iniciativas. Apesar da piora, a instituição afirma que não vê risco relevante à estabilidade financeira: os bancos ampliaram as provisões para perdas e mantêm níveis confortáveis de capital e liquidez.
Para entender
- Ativos problemáticos
- Classificação do Banco Central para créditos com atraso superior a 90 dias ou com sinais de que não serão pagos integralmente. O indicador reúne tanto a inadimplência quanto operações que apresentam risco de perda.
- Relatório de Estabilidade Financeira
- Publicação periódica do Banco Central que avalia as condições do sistema financeiro, incluindo riscos, crédito, capital e liquidez das instituições. O relatório reúne análises e dados usados para acompanhar a estabilidade financeira.