Avenida Paulista transforma antigos bancos em cafés e atrações
A Tartarugas Ninja Pizzaria é um dos novos pontos; livraria, restaurantes e cafés também ocupam térreos e saguões de edifícios da região.
Resumo em 30 segundos
Antigas agências bancárias e áreas pouco usadas na avenida Paulista ganharam pizzaria temática, cafés, restaurante, livraria e espaços de convivência. A ocupação dos térreos acompanha a redução do atendimento presencial dos bancos, mas contrasta com a vacância de fachadas ativas em outras áreas de São Paulo, onde a demanda é menor.
A avenida Paulista, em São Paulo, ganhou novos pontos de encontro em antigos espaços bancários e áreas antes pouco usadas. Entre eles estão a Tartarugas Ninja Pizzaria, aberta em agosto em uma antiga agência, cafés, restaurante, livraria e um pátio com mesas que recebe eventos e frequentadores ao longo da semana.
As mudanças levam atividades para o nível da calçada e transformam entradas e saguões em parte da experiência de quem visita a região. Além de atrair clientes, alguns espaços se tornaram locais procurados para fotos e vídeos, ampliando o movimento em edifícios corporativos à noite e nos fins de semana.
A pizzaria ocupa o número 967 da avenida e tem decoração inspirada nos personagens da série animada dos anos 1980. O projeto foi desenvolvido por uma empresa brasileira em parceria com a Paramount. A casa funciona de domingo a quinta-feira, das 12h às 22h, e às sextas-feiras e aos sábados, das 12h à meia-noite.
O fundador e CEO da Fan&Food, Fernando Saad, afirmou que a intenção era fazer da Paulista o endereço paulistano da pizzaria licenciada. Segundo ele, o local atrai tanto quem vai especificamente ao restaurante quanto pessoas que passeiam pela avenida ou visitam a cidade. Saad também disse que a empresa prepara outra atração licenciada em um imóvel com passado bancário, com inauguração prevista para 2027, mas não revelou o tema.
Nas proximidades, o edifício de número 1.063 reúne o Le Jazz Café e a Livraria da Vila em um pátio com mesas. Desde que abriu, em dezembro, o espaço recebeu mais de 140 eventos, segundo a empresa. A programação inclui lançamentos e batalhas de rima, além de oferecer uma área para quem quer ler, tomar café ou fazer uma pausa durante o passeio.
A CEO da livraria, Eliana Menegucci, disse que o pátio atende públicos diferentes, desde visitantes que procuram os eventos até pessoas que se sentam para apreciar a avenida. Para ela, o espaço complementa a experiência da loja e permite que os frequentadores permaneçam sem pressa.
Outro café funciona no número 1.079, atrás do saguão de uma torre de escritórios. O Mug ocupa uma área que não era voltada ao público em geral. Já a We Coffee abriu em 2023 no prédio do antigo Citibank, no número 1.111, onde há também mesas em uma praça do condomínio. A cafeteria ficou conhecida nas redes sociais por sobremesas de apresentação elaborada.
Ricardo Avancini, responsável pela gestão de serviços imobiliários do Citi, afirmou que a modernização do edifício buscou recuperar uma vocação de convivência. O prédio foi inaugurado nos anos 1980 e tinha um restaurante anexo, o Pennsylvania, que fechou no começo da década seguinte. Depois, a área foi convertida para uso bancário e ficou vazia.
O restaurante Jardan ocupa o térreo do antigo prédio do banco Panamericano, no número 2.240. O imóvel passou por uma reforma completa há dois anos, e os pavimentos superiores receberam um hotel. Parte da marquise foi modificada para criar uma varanda com vista para a avenida, inclusive para eventos como o Réveillon.
Há também espaços que combinam comércio e serviços financeiros. Na esquina com a rua Augusta, a Casa Bauducco divide o térreo com uma agência do Banco do Brasil desde 2021. A instituição descreveu a mudança como uma evolução da unidade e disse que a parceria permite compartilhar despesas e ampliar a interação com a cidade.
A ocupação dos térreos ocorre em um contexto de redução do uso presencial de agências, à medida que serviços bancários passaram a ser oferecidos pela internet. A urbanista Heliana Comin Vargas, pesquisadora de comércio e cidade e professora aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), avalia que essa transformação libera áreas que podem receber outros usos, enquanto os bancos permanecem nos andares superiores.
A Paulista, porém, é uma exceção diante da ociosidade de muitas fachadas ativas em outras partes da cidade. Esses espaços no nível da rua foram incentivados pelo Plano Diretor de 2014 para aproximar edifícios e calçadas, mas a ocupação depende de demanda e de estruturas adaptáveis a atividades diferentes. Um levantamento feito em 2025 na avenida Rebouças e em trechos da Vila Mariana apontou vacância de 63% e 80%, respectivamente.
Ricardo Palmaka, CEO da Lidra e professor na Fundação Instituto de Administração (FIA), atribui o interesse pela Paulista ao fluxo de pessoas em diferentes horários e dias. Para ele, a avenida funciona como um showroom, o que ajuda a explicar a disputa por endereços e a chegada de novas atrações. A transformação também acompanha o fechamento de agências bancárias: dados recentes citados no levantamento indicam que 37% delas desapareceram no país ao longo de uma década.
Para entender
- Fachada ativa
- É a parte térrea de um edifício voltada para a rua, geralmente com entradas, vitrines ou atividades abertas ao público. A ideia é aproximar o prédio da calçada e estimular a circulação de pedestres, em vez de deixar o nível da rua fechado ou ocupado apenas por acessos internos.
- Plano Diretor de São Paulo
- É a lei municipal que orienta o desenvolvimento urbano da cidade, incluindo regras sobre uso e ocupação do solo. A revisão aprovada em 2014 incentivou fachadas ativas em determinados empreendimentos para favorecer a relação entre edifícios e espaços públicos.