Áudio sem comprovação atribui cortes no Bolsa Família a Flávio
ACM Neto nega que a reunião citada tenha ocorrido, e declarações públicas do candidato contradizem as alegações sobre benefícios sociais.
Resumo em 30 segundos
Uma gravação que circula nas redes atribui a Flávio Bolsonaro planos de cortar o Bolsa Família e aposentadorias, privatizar estatais e negociar minerais com os Estados Unidos. ACM Neto, citado como participante de uma suposta reunião, diz que o encontro nunca aconteceu. O áudio mistura alegações sem comprovação com declarações reais do candidato.
Um áudio que circula nas redes sociais atribui a Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, planos de cortar o Bolsa Família e metade das aposentadorias, privatizar empresas estatais e negociar a exploração de minerais brasileiros com os Estados Unidos. Não há indícios de que a gravação relate uma reunião real: ACM Neto (União Brasil), citado como participante, afirmou que o encontro nunca aconteceu e que o conteúdo é falso.
A gravação não identifica quem a produziu nem apresenta provas para as alegações. O homem que fala diz ser coordenador da campanha de Flávio e menciona uma suposta reunião com ACM Neto. O dirigente do União Brasil declarou que não reconhece a voz e nunca participou de um encontro com Flávio no qual o candidato tenha feito aquelas afirmações.
Em declarações públicas, Flávio negou que pretenda acabar com o Bolsa Família ou reduzir aposentadorias. Em 14 de outubro, durante um evento no Rio de Janeiro, afirmou: “Não existe isso de acabar com o Bolsa Família. Eu vou garantir o Bolsa Família para quem precisa. Vou garantir que o Estado chegue até você com capacitação e com qualificação. Vou fazer o maior programa de mobilidade social que este Brasil já viu”.
Sobre os aposentados, o candidato disse, em 8 de outubro, que pretende reajustar os benefícios acima da inflação: “Vocês (aposentados) vão ter reajuste, sim, acima da inflação das suas aposentadorias, que é uma coisa sagrada”. Na ocasião, ele respondia a declarações de integrantes de sua equipe sobre um corte de R$ 200 bilhões nas contas públicas, descrito como um “tesouraço” que não atingiria benefícios sociais.
Os gastos com Previdência, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) correspondem, juntos, a 53% das despesas primárias da União. O BPC é um benefício assistencial pago a idosos e pessoas com deficiência que atendem aos critérios previstos em lei. Despesas primárias são os gastos do governo com serviços, políticas públicas e transferências, antes do pagamento de juros da dívida.
A gravação também mistura a alegação falsa sobre benefícios com declarações reais de Flávio a respeito de privatizações. Em fevereiro, durante uma conferência do banco BTG Pactual, ele defendeu vender empresas estatais onde fosse possível: “Onde puder privatizar, nós vamos privatizar. Não dá para ser tudo, mas vamos privatizar 95%”. A fala, porém, não especificou Petrobras, Banco do Brasil ou Caixa como empresas que seriam vendidas.
Em 8 de outubro, Adolfo Sachsida, coordenador econômico da campanha, negou a intenção de privatizar Petrobras, Banco do Brasil e Caixa. Flávio, por outro lado, defendeu expressamente a venda dos Correios. “Os Correios são uma estatal que precisa ser privatizada”, disse em entrevista publicada em 9 de maio.
Também não há comprovação de contratos da equipe de Flávio com os Estados Unidos para explorar terras raras ou nióbio no Brasil. O candidato, contudo, já manifestou apoio à cooperação com os norte-americanos sobre minerais estratégicos. Em março, durante a Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, disse que o Brasil poderia ajudar o país a reduzir a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras.
Terras raras são um grupo de elementos usados em produtos como equipamentos eletrônicos e tecnologias de energia. O nióbio é outro mineral estratégico. A defesa de cooperação no setor não comprova a existência de acordos para entregar recursos brasileiros nem de contratos de exploração, como afirma o áudio.
A postagem que divulgou a gravação foi publicada em 19 de outubro e alcançou grande circulação no Instagram. Até a tarde de quinta-feira, 22 de outubro, acumulava 298 mil curtidas, mais de 60 mil comentários, 123 mil compartilhamentos e cerca de 400 mil encaminhamentos. A legenda dizia que a autenticidade do áudio e o envolvimento das pessoas citadas ainda precisavam ser apurados.
A publicação combina informações verdadeiras, como a defesa de Flávio pela privatização dos Correios e seu alinhamento aos Estados Unidos no debate sobre minerais, com alegações sem comprovação ou contrariadas por declarações públicas. A presença de elementos reais não confirma que a reunião descrita tenha ocorrido nem que o candidato tenha anunciado cortes no Bolsa Família ou nas aposentadorias.