Arqueólogos encontram indícios de uso ritual de Cannabis na Sibéria
Mais de mil sementes e cabelos humanos com canabinol foram achados em sepulturas de cerca de 2.800 anos, em um sítio funerário no sul da Sibéria.
Resumo em 30 segundos
No sítio funerário Tunnug 1, no sul da Sibéria, arqueólogos encontraram mais de mil sementes de Cannabis e cabelos humanos com canabinol, molécula ligada à degradação do THC. Os vestígios, datados de cerca de 2.800 anos, são considerados a evidência direta mais antiga de possível uso psicoativo da planta. A função da Cannabis nos rituais permanece incerta.
Uma equipe de arqueólogos identificou evidências de que a Cannabis sativa era usada há cerca de 2.800 anos por grupos nômades das estepes da Ásia Central. Os vestígios foram encontrados no sítio funerário Tunnug 1, no sul da Sibéria, em sepulturas associadas a pessoas de posição elevada e a cavalos.
O conjunto reúne mais de mil sementes da planta e cabelos humanos com canabinol (CBN), molécula que pode se formar quando o tetrahidrocanabinol (THC), principal composto psicoativo da Cannabis, se degrada no organismo. A análise química dos fios indica que pessoas enterradas no local provavelmente tiveram contato com a substância. O estudo foi liderado por Gino Caspari, do Instituto Max Planck de Geoantropologia, na Alemanha, e publicado na revista científica Science.
Os pesquisadores consideram o achado a evidência direta mais antiga de uso da planta com possível efeito psicoativo. A importância, segundo eles, está também na combinação de restos vegetais e sinais biomoleculares no cabelo humano dentro do mesmo contexto arqueológico. As sementes foram datadas, provavelmente, da primeira década do século 8º antes de Cristo, aproximadamente 2.800 anos atrás.
Tunnug 1 é um túmulo artificial, ou teso, construído para abrigar sepultamentos de membros da aristocracia nômade. A câmara funerária central continha os cabelos, enquanto as sementes estavam no complexo. Os bens depositados junto aos mortos são semelhantes aos encontrados em contextos associados aos antigos citas, povos cavaleiros das estepes entre a Ásia e a Europa.
A equipe levanta a hipótese de que a Cannabis tenha sido queimada como incenso em cerimônias funerárias. Outra possibilidade é que a fumaça tenha sido usada para acalmar pessoas submetidas a sacrifícios em honra dos mortos. Essas interpretações são possibilidades, não conclusões definitivas sobre a função da planta no ritual.
O CBN é um produto relacionado à degradação do THC e também pode ser detectado nos cabelos de consumidores atuais de Cannabis. Por isso, a identificação da molécula nos fios antigos é compatível com a hipótese de que as pessoas tenham absorvido compostos da planta. As sementes, por si só, não demonstrariam que a Cannabis foi inalada ou consumida; a associação com o cabelo dá outro tipo de evidência.
A relação entre a planta e os povos das estepes já era sugerida por registros históricos e achados anteriores, mas a data e a natureza de seu uso ainda tinham lacunas. O historiador grego Heródoto, que viveu no século 5º antes de Cristo, descreveu práticas dos citas envolvendo sementes de cânhamo queimadas sobre pedras aquecidas em tendas de feltro. Segundo o relato, a fumaça era inalada e produzia um vapor intenso. Os vestígios de Tunnug 1 sugerem que práticas desse tipo podem ser anteriores à descrição em vários séculos.
O nome científico Cannabis está ligado ao termo “kánnabis”, usado por Heródoto. Os citas eram povos nômades que falavam idiomas aparentados aos de populações do Irã e do Afeganistão atuais e que também são descritos em confrontos com comunidades agrícolas. A domesticação da planta na Ásia, porém, provavelmente começou antes, para usos práticos como a produção de cordas de cânhamo e óleo.
Variedades selvagens aparentadas à maconha domesticada ocorrem de áreas do Cáucaso até o oeste da China. A planta se desenvolve em solos perturbados por grandes herbívoros, ambiente que pode ter favorecido sua expansão junto a comunidades pastoris. O estudo de Tunnug 1 acrescenta evidências materiais à investigação sobre como a Cannabis passou de usos utilitários a possíveis práticas rituais ou recreativas.
Para entender
- Canabinol (CBN)
- O canabinol é um composto relacionado à degradação do THC, principal substância psicoativa da Cannabis. Sua presença em cabelos antigos é compatível com a hipótese de exposição à planta, mas não determina, por si só, como ela foi absorvida ou usada.
- Citas
- Os citas eram povos nômades das estepes entre a Ásia e a Europa, associados à criação de cavalos. O historiador grego Heródoto descreveu o uso de sementes de cânhamo queimadas por eles, relato que ajuda a contextualizar as hipóteses sobre os vestígios encontrados na Sibéria.