Argentina reduz inflação com reformas de Milei, mas população sente custos
As reformas econômicas na Argentina atraíram investidores, mas pequenos negócios enfrentam custos maiores e famílias ainda sentem a perda de poder de compra.
Resumo em 30 segundos
Desde que Javier Milei assumiu a presidência, a inflação argentina caiu de quase 300% para cerca de 33%, e as reformas atraíram investidores. Mas pequenos negócios relatam custos maiores e clientes com menos dinheiro. O descompasso entre a melhora dos indicadores e o cotidiano também aparece no Marrocos e no Sri Lanka.
As reformas econômicas adotadas pelo presidente da Argentina, Javier Milei, reduziram a inflação e atraíram investidores, mas elevaram custos para pequenos negócios e deixaram parte da população com menos poder de compra. O contraste aparece no cotidiano de Gustavo Raul Perez, dono de uma loja de ferragens nos arredores de Buenos Aires, que diz que o plano beneficia poucos.
Milei assumiu a presidência em 2023. Desde então, seu governo reduziu subsídios, liberalizou importações e promoveu mudanças econômicas que receberam elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de investidores. A inflação, que se aproximava de 300%, caiu para cerca de 33%, segundo os dados citados no relato sobre a situação argentina.
Perez afirma, porém, que os custos para reabastecer a loja triplicaram e que seus clientes têm menos dinheiro para gastar. “Esse plano econômico é para poucos”, disse. Ele também afirmou que a classe média que existia três anos antes já não está presente como antes.
A experiência argentina reflete um dilema observado em diferentes economias emergentes: medidas que estabilizam as contas públicas e recuperam a confiança dos investidores não se traduzem necessariamente em melhora imediata do padrão de vida. Cortes de subsídios podem elevar o preço de bens e serviços, enquanto a redução de gastos públicos afeta a renda e o acesso a serviços.
Vários países adotaram reformas depois de choques recentes. A pandemia e a alta dos preços de alimentos e combustíveis após a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia pressionaram governos a cortar despesas, flexibilizar taxas de câmbio e elevar juros. O FMI e investidores vinham defendendo a redução de subsídios e de controles cambiais.
As medidas ajudaram a atrair capital de volta às economias emergentes, que crescem atualmente cerca de 4%, aproximadamente o dobro do ritmo das economias avançadas. Ainda assim, a insatisfação pode ameaçar a continuidade das reformas. Um retrocesso, por sua vez, pode reduzir investimentos e a criação de empregos, necessários para aproximar esses países das nações mais ricas.
O efeito do custo de vida tende a pesar mais nos países em desenvolvimento, onde os alimentos representam de 30% a 50% da cesta usada para medir os preços ao consumidor. Nos Estados Unidos, essa parcela fica entre 13% e 14%. Quando alimentos, combustíveis e energia ficam mais caros, as famílias sentem o impacto diretamente, afirmou Torbjorn Soltvedt, da consultoria Verisk Maplecroft.
A empresa calcula que o risco médio global de agitação social chegou neste ano ao nível mais alto em quase uma década. Soltvedt alertou que a insatisfação pode persistir. O ministro das Finanças da Nigéria também associou o risco de instabilidade à desigualdade e disse que ignorá-la é como “sentar-se sobre pólvora”.
O descompasso entre indicadores econômicos e a vida cotidiana também aparece no Marrocos e no Sri Lanka. No Marrocos, o investimento estrangeiro direto quase dobrou no ano passado, mas protestos liderados por jovens abalaram o país. O banco central atribui ao desemprego persistente parte da distância entre o desempenho da economia e a percepção dos cidadãos.
O governo marroquino elevou, no orçamento de 2026, os gastos com educação e saúde. Anass Sayad, engenheiro civil, afirmou que essas áreas precisam de mais atenção diante dos investimentos em estádios e edifícios. Os efeitos das despesas adicionais, porém, podem demorar a chegar à população.
No Sri Lanka, a crise econômica e o calote da dívida diminuíram, mas a pobreza continua acima dos níveis anteriores à crise. Em Colombo, a vendedora de alimentos Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi mantém seus pacotes de almoço perto de US$ 2, equivalentes a R$ 10,06, apesar dos custos mais altos. Ela diz que tenta manter os preços acessíveis e se preocupa com as mensalidades escolares do filho e as aulas de dança da filha.
O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas nos países em desenvolvimento chegarão à idade ativa na próxima década. O volume reforça a questão de saber se os investimentos serão suficientes para gerar empregos. A diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, também alertou que alimentos e combustíveis mais caros e a redução da ajuda ao desenvolvimento aumentam a pressão sobre países de baixa renda.