Aliados de Flávio Bolsonaro propõem unir Meio Ambiente e Infraestrutura
A ideia está em discussão na campanha e poderia seguir o modelo paulista, que reúne as áreas em uma secretaria chefiada por Natália Resende.
Resumo em 30 segundos
Aliados de Flávio Bolsonaro defendem incorporar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima a uma pasta de Infraestrutura, caso ele vença a eleição. A proposta integra um plano de redução de ministérios e ainda não foi apresentada oficialmente. Apoiadores veem ganhos para obras e licenciamento; críticos alertam para riscos à política ambiental.
Aliados de Flávio Bolsonaro defendem que, se ele vencer a eleição presidencial, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima seja incorporado à pasta de Infraestrutura. A proposta está em discussão entre integrantes da campanha e busca reduzir o número de ministérios, mas ainda não foi apresentada oficialmente pelo senador.
A ideia é aproximar a estrutura federal do modelo adotado em São Paulo, onde Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística estão reunidos em uma secretaria. A pasta paulista é comandada pela procuradora federal Natália Resende, nome técnico citado por aliados como possível responsável por uma eventual estrutura federal ampliada. O ex-ministro Marcelo Sampaio, que chefiou a área de Infraestrutura no fim do governo de Jair Bolsonaro, também é considerado para o cargo.
Além da possível incorporação da área ambiental, aliados defendem reunir os atuais ministérios dos Transportes e de Portos e Aeroportos em uma pasta de Infraestrutura, como ocorreu entre 2019 e 2022. Também há propostas de incluir nessa estrutura os ministérios das Cidades, da Integração e do Desenvolvimento Regional e das Comunicações. Uma ala, porém, sugere vincular o Meio Ambiente ao Desenvolvimento Regional; outra considera transformá-lo em secretaria ligada à Presidência da República.
A eventual reorganização faria parte de um plano mais amplo para diminuir o número de ministérios. A campanha não detalha as mudanças em estudo, em parte para evitar que propostas ainda não definidas sejam entendidas como decisões oficiais. Aliados também afirmam que a eleição não está decidida e que qualquer reforma dependeria de uma vitória de Flávio Bolsonaro.
Os defensores da fusão dizem que a integração poderia reduzir entraves e acelerar o licenciamento ambiental de obras. O licenciamento é o procedimento pelo qual órgãos competentes avaliam os impactos de empreendimentos e estabelecem condições para sua instalação e operação. Para esse grupo, concentrar as áreas facilitaria a comunicação entre técnicos e reduziria regras que, na avaliação dos aliados, podem se sobrepor ou entrar em conflito.
Representantes do setor de infraestrutura também veem potencial para destravar projetos que consideram estratégicos, como a concessão de serviços em canais de acesso a portos, a Ferrogrão — ferrovia planejada para ligar Mato Grosso ao Pará — e iniciativas de ampliação da navegação em hidrovias. Parte do setor avalia que a união não necessariamente seria vista no exterior como enfraquecimento ambiental, sobretudo porque muitos ativos de infraestrutura já estão construídos e em operação.
Há, contudo, divergências entre os próprios apoiadores da proposta. Uma parte do setor considera que a fusão poderia reduzir o peso de cada área nas decisões e levar à adoção de soluções generalizadas para atividades com necessidades distintas, como rodovias, ferrovias, portos, aeroportos, hidrovias e comunicações. Também há quem defenda que os responsáveis pela pasta e por suas secretarias tenham autonomia para evitar interferência política nas decisões técnicas.
Críticos afirmam que a mudança poderia enfraquecer a política ambiental e comprometer a capacidade de fiscalização. Rodrigo Agostinho, ex-presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), disse que a fusão seria “totalmente esdrúxula”. Para ele, a emissão de licenças depende de projetos e estudos adequados, além de orçamento, equipamentos e equipes para análise; a reorganização, por si só, não resolveria esses fatores.
Agostinho afirmou que o Ibama registrou produção elevada de licenças após receber recursos, equipamentos e reforço de pessoal por concurso público. Ele também relacionou a redução do desmatamento à abertura de mercados para produtos brasileiros e declarou que mais de 700 mercados novos foram conquistados nesse contexto. Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, classificou a incorporação como um “retrocesso” e disse que ela poderia afetar políticas públicas, orçamento, capacidade de atuação e articulação da área ambiental.
O debate ocorre após a experiência do governo Jair Bolsonaro, que chegou a considerar a fusão dos ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura em 2018, mas não a formalizou. A proposta recebeu críticas internacionais por possíveis conflitos entre produção rural e fiscalização ambiental. Integrantes da campanha atual descartam juntar Meio Ambiente e Agricultura, diante do risco de questionamentos sobre a responsabilidade ambiental e de reação de mercados compradores, especialmente na Europa.
Nesta semana, Flávio Bolsonaro afirmou, em um comício em Marabá, no Pará, que pretende promover regularização fundiária e flexibilizar regras de licenciamento caso seja eleito. A declaração provocou reação de entidades ambientalistas. Na semana passada, o governo federal divulgou dados de monitoramento referentes a 2026: a Amazônia registrou 3.335 km² desmatados entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 41,8% ante o período anterior; no Cerrado, foram 5.516,69 km², redução de 23,8%.