Baixada Fluminense impulsiona a direita e Zona Sul consolida apoio à esquerda
No primeiro turno de 4 de outubro, Douglas Ruas e Flávio Bolsonaro tiveram forte desempenho na Baixada, enquanto Lula venceu em todos os bairros da Zona Sul carioca.
Resumo em 30 segundos
O resultado do primeiro turno mostrou diferenças entre a capital fluminense e a Baixada. Lula venceu em todos os bairros da Zona Sul, enquanto Douglas Ruas e Flávio Bolsonaro obtiveram quase 60% dos votos na Baixada. A região ajudou Ruas a superar Eduardo Paes no estado, apesar de ficar atrás dele na capital.
O resultado do primeiro turno no Rio de Janeiro expôs diferenças entre a capital e a Baixada Fluminense: Lula teve vantagem nos bairros mais valorizados da cidade, enquanto candidatos do Partido Liberal (PL) concentraram votos nos municípios da região metropolitana. A votação também consolidou a Zona Sul carioca como reduto progressista e contribuiu para a vitória de Douglas Ruas ao governo estadual e a eleição de Carlos Jordy e Portinho ao Senado.
No Leblon, que integra a 17ª zona eleitoral com Ipanema e Copacabana, Lula obteve 49,81% dos votos, ante 39,49% de Flávio Bolsonaro. Já em Paciência, bairro da capital com o menor valor de moradia, o candidato do PL superou 56%, e o atual presidente ficou com 35%. Lula venceu em todos os bairros da Zona Sul, que inclui áreas como Flamengo, Gávea, Copacabana e Ipanema.
O padrão se repetiu na disputa pelo governo estadual, embora com candidatos diferentes. No Leblon e em Ipanema, Ruas recebeu 29,92% dos votos, enquanto Eduardo Paes, do Partido Social Democrático (PSD), alcançou 63,77%. Em São Conrado, Gávea e Jardim Botânico, Paes chegou a quase 70%.
A vitória de Ruas em primeiro turno foi sustentada sobretudo pelo desempenho fora da capital, com destaque para a Baixada Fluminense. O estado tem 92 municípios, e a cidade do Rio reúne quase 40% do eleitorado fluminense. A Baixada, composta por 13 municípios, entre eles Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Nilópolis, concentra outro contingente importante de eleitores.
No pleito do último dia 4, os municípios da Baixada, que somam cerca de 22% do eleitorado estadual, deram quase 60% dos votos a Ruas e Flávio Bolsonaro. O resultado ajudou o candidato ao governo a superar Paes no estado, apesar de ter ficado atrás do ex-prefeito na capital. Carlos Jordy e Portinho, ambos do PL, também foram eleitos senadores.
A mudança contrasta com a trajetória política da região. Nos anos 1980 e 1990, a Baixada foi uma base do Partido dos Trabalhadores (PT) e da esquerda ligada a Leonel Brizola. Até 2014, Dilma Rousseff recebia votação expressiva ali. Agora, o avanço de candidaturas conservadoras dificulta a expansão de Paes e de forças de esquerda no conjunto do estado.
O cientista político Leandro Consentino relaciona a votação dos bairros ricos a fatores como escolaridade, valores e maior contato com diferentes referências culturais. Segundo ele, eleitores mais cosmopolitas podem se mostrar mais receptivos a posições progressistas. O fenômeno, afirma, não se limita ao Rio: cidades como São Francisco, Los Angeles e Nova York também são descritas como centros de apoio à esquerda nos Estados Unidos.
Consentino avalia que a presença de eleitores de renda alta ao lado da esquerda não é incompatível com a imagem do PT como partido ligado aos mais pobres. Para ele, a esquerda também encontrou apoio histórico entre setores de classe média e alta, especialmente entre pessoas com valores progressistas. Na Baixada e no interior, por outro lado, o peso da religião e de posições conservadoras ajuda a explicar a preferência pela direita.
O cientista político também atribui a perda de espaço da esquerda entre parte da classe média baixa a uma mudança de prioridades. Em sua avaliação, o debate político se deslocou para temas de identidade, enquanto muitos eleitores desse segmento buscam ascensão econômica com menor dependência do Estado. Ele diz que a esquerda precisa compreender tanto as crenças religiosas e sociais quanto as expectativas econômicas desse público.
A votação para o Senado mostrou outra divisão dentro do eleitorado progressista. Monica Benicio, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), viúva de Marielle Franco, terminou em quinto lugar, com menos de 10% dos votos no estado. Ainda assim, teve resultados mais fortes em áreas valorizadas: recebeu quase 23% na região eleitoral do Flamengo e 17% na da Gávea; no Leblon, alcançou 17%, em Copacabana e no Leme, 18%, e em Laranjeiras, 24%. Em algumas áreas do interior, ficou abaixo de 4%.
Consentino vê nesses números um sinal de que parte do eleitorado de maior renda se identifica com pautas identitárias. O espaço futuro desse campo, segundo ele, dependerá da reorganização da esquerda depois de Lula e de quem conduzir o movimento. A escolha, afirmou, será entre uma orientação mais pragmática, com ênfase também em temas trabalhistas, e uma atuação mais concentrada em pautas identitárias.
Para entender
- Baixada Fluminense
- Região metropolitana do estado do Rio de Janeiro, formada por municípios situados no entorno da capital. Entre eles estão Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Belford Roxo e Nilópolis.