Alfabetização aos 10 anos pode elevar PIB do Brasil em 29%
Simulação projeta US$ 8,34 trilhões a mais no produto acumulado até 2050 se 90% das crianças atingirem o nível mínimo de leitura.
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Uma simulação do Instituto de Evidência Educativa estima que alcançar 90% das crianças brasileiras de 10 anos com proficiência mínima em leitura poderia elevar o PIB per capita em 29,3% até 2050. O estudo também projeta ganhos na trajetória escolar e na arrecadação, mas ressalta que os resultados não são previsões nem efeitos comprovados de uma política específica.
Alcançar ao menos 90% das crianças brasileiras com proficiência mínima em leitura aos 10 anos poderia elevar o Produto Interno Bruto (PIB) per capita do país em 29,3% até 2050, segundo simulação do Instituto de Evidência Educativa. O estudo, divulgado nesta quarta-feira (4), estima que o produto econômico acumulado entre 2031 e 2050 seria US$ 8,34 trilhões (R$ 45,5 trilhões) maior do que em um cenário em que a aprendizagem permanecesse no nível atual.
A análise também calcula que o Brasil poderia arrecadar US$ 1,17 trilhão a mais em impostos ao longo dessas duas décadas. Os valores são resultados de uma comparação hipotética entre a manutenção dos níveis atuais de aprendizagem e um cenário em que nove em cada dez crianças de 10 anos atingem o patamar mínimo de leitura.
O indicador de pobreza de aprendizagem, elaborado pelo Banco Mundial e pela Unesco, combina dados de proficiência de crianças que frequentam a escola com estimativas sobre as que estão fora dela. Em 2022, 53,1% das crianças brasileiras de 10 anos alcançavam o nível mínimo em leitura. Na América Latina e no Caribe, a proporção era de 46,7%.
O parâmetro de 90% representa uma meta de universalização, não a expectativa de que todas as crianças atinjam o nível. O estudo considera que mesmo sistemas educacionais com alta capacidade podem deixar uma parcela dos alunos abaixo do mínimo. Para o Brasil, a distância entre a taxa observada no indicador e esse parâmetro é de 36,9 pontos percentuais.
A chamada pobreza de aprendizagem mede a parcela de crianças que não consegue ler e compreender um texto simples na idade esperada. O indicador procura mostrar que estar matriculado não garante, por si só, que o estudante esteja aprendendo. A alfabetização nos primeiros anos é considerada uma base para acompanhar as etapas seguintes da escolarização e ampliar, ao longo da vida, as possibilidades de emprego e renda.
Nas projeções para o Brasil, a melhora da aprendizagem também aparece associada a avanços na trajetória escolar. Mais de 3,3 milhões de crianças adicionais chegariam ao 9º ano sem atraso entre 2031 e 2050, e outras 2,6 milhões alcançariam o ensino médio. O modelo estima ainda que 1,3 milhão de jovens teriam oportunidades de emprego no período.
Para chegar a esses resultados, os pesquisadores adotaram pressupostos sobre a relação entre aprendizagem e permanência na escola. O modelo prevê que cada desvio-padrão adicional nos resultados de aprendizagem reduziria em 40% a probabilidade de abandono ou atraso no ensino fundamental e em 25% a chance de abandono na passagem para o ensino médio. São reduções relativas: em um exemplo do estudo, um risco inicial de 10% no ensino fundamental cairia para 6%.
O aumento da atividade econômica projetado também embasa a estimativa de arrecadação. Para calculá-la, os pesquisadores aplicaram à diferença de produto entre os dois cenários a proporção entre impostos arrecadados e PIB observada em cada país.
O instituto ressalta que os números são uma simulação baseada em associações empíricas e hipóteses de modelagem, não uma previsão nem uma medida causal do efeito de uma política específica. “Essas estimativas correspondem a um cenário hipotético, e não a previsões nem efeitos comprovados de uma política educacional específica”, afirmou Fiorella Santini, analista de dados da organização. Ela disse que o desafio regional não é somente garantir a matrícula, mas assegurar que as crianças aprendam.
No Brasil, a alfabetização na idade adequada também é acompanhada pelo Indicador Criança Alfabetizada, que mede o percentual de estudantes que atingem a nota mínima ao fim do 2º ano do ensino fundamental, etapa cursada em geral por crianças de sete anos. O índice nacional foi de 66% em 2025, acima dos 59,2% registrados no ano anterior e da meta de 64% para estudantes da rede pública.
O Plano Nacional de Educação, aprovado no ano passado, estabelece como objetivo alfabetizar ao menos 80% das crianças até o fim do 2º ano em 2030 e prevê universalizar a alfabetização na idade certa até 2035. A meta do plano usa um marco escolar diferente do indicador internacional, que avalia a proficiência em leitura aos 10 anos.