El Niño ameaça lavouras e pressiona preços dos alimentos
Secas e chuvas intensas já afetam países da América do Sul e da Ásia; o Banco Mundial projeta alta de 18% nos preços dos alimentos entre 2025 e 2027.
Resumo em 30 segundos
O El Niño está associado a secas e chuvas intensas em diferentes regiões, com efeitos sobre lavouras e populações. Na Bolívia, a seca levou à perda de mais de 75 mil cabeças de gado. O Banco Mundial prevê alta de 18% nos preços dos alimentos entre 2025 e 2027, mas os impactos variam conforme o produto e o país.
O fenômeno climático El Niño vem sendo associado a secas na América do Sul e a chuvas intensas no sul da Ásia, com impactos sobre lavouras e populações. Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz decretou estado de emergência no sábado para enfrentar a seca e as inundações relacionadas ao chamado “super El Niño”; o fenômeno também coincide com perdas agrícolas e pressões previstas sobre os preços dos alimentos.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Pacífico equatorial ficam mais quentes do que o habitual. Essa mudança altera os ventos e pode modificar padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões, aumentando o risco de estiagens, enchentes e outros eventos extremos. A intensidade e os efeitos variam de um lugar para outro; o nome “super El Niño” é usado para descrever um episódio especialmente intenso, não uma categoria com consequências iguais em todo o planeta.
Na Bolívia, a seca afeta pouco mais de 78 mil famílias em seis dos nove departamentos do país e levou à perda de mais de 75 mil cabeças de gado, segundo o relatório mais recente do Vice-Ministério da Defesa Civil, divulgado nesta semana. Paz afirmou que a emergência permitirá mobilizar mais recursos financeiros e equipes de resgate para as áreas em situação crítica. “Fizemos um trabalho enorme para preservar o meio ambiente e garantir que os efeitos do super El Niño neste ano sejam os menores possíveis”, declarou.
No Peru, temperaturas elevadas favoreceram incêndios florestais que causaram ao menos 12 mortes. O El Niño também contribuiu para a disseminação da dengue, que deixou outras 81 pessoas mortas no país em 2026. No Chile, o fenômeno esteve associado ao outubro mais chuvoso já registrado em Santiago.
Na Índia, o ciclone Arnab atingiu o sudeste do país na manhã de quarta-feira, com ventos fortes e chuvas torrenciais. O desastre provocou três mortes e obrigou cerca de 100 mil pessoas a deixar suas casas. A tempestade seguiu em direção ao Nepal, onde causou nevascas nas áreas mais altas do Himalaia e chuvas intensas até sábado.
O pesquisador Akshay Deoras, do Centro de Ciências Atmosféricas da Universidade de Reading, no Reino Unido, afirmou que o El Niño pode ter contribuído para intensificar o ciclone. Segundo ele, as temperaturas do mar estavam acima do normal, e uma atmosfera mais quente retém mais umidade, favorecendo precipitações fortes. Ciclones são recorrentes no golfo de Bengala e no norte do oceano Índico, mas a temporada de tempestades está particularmente intensa neste ano.
Os efeitos sobre a agricultura dependem da região e do tipo de cultivo. A redução das chuvas pode limitar o plantio e a produtividade do arroz na Ásia. Milho e feijão, importantes na alimentação do México, da América Central e do sul da África, ficam mais expostos à seca. Sorgo, milheto e trigo também podem sofrer com a falta ou a irregularidade das precipitações.
Café e cacau, culturas voltadas em grande parte à exportação, são sensíveis tanto à falta quanto ao excesso de chuva. A escassez pode reduzir o volume e a qualidade da produção; a umidade excessiva favorece doenças nas plantações. Perdas agrícolas podem diminuir a renda de produtores e afetar as exportações. Nos países que dependem de alimentos importados, a menor oferta também pode elevar os gastos.
O Banco Mundial prevê que os preços dos alimentos subam 18% entre 2025 e 2027. A projeção considera tanto os efeitos esperados do El Niño quanto dificuldades de abastecimento ligadas a guerras. Isso não significa que todos os alimentos terão o mesmo aumento: mudanças na produção e no transporte podem afetar produtos e países de maneiras diferentes.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura acompanha especialmente os alimentos básicos, que fornecem grande parte das calorias consumidas em países vulneráveis. A entidade também monitora cereais como trigo, arroz e milho, cujas oscilações podem elevar os custos nos mercados locais e internacionais. Os dados citados sobre o episódio climático incluem uma estimativa de 484,5 mil mortes desde junho; o Climate Impact Lab, da Universidade de Chicago, projeta outras 373 mil nos seis meses seguintes.