Abstenção na eleição presidencial de 2026 mobiliza campanhas
Foram 33,5 milhões de ausentes no primeiro turno; Lula e Flávio buscam votos entre quem faltou antes da votação de 25 de outubro.
Resumo em 30 segundos
A abstenção no primeiro turno chegou a 21,08%, o maior índice desde 1998, com 33,5 milhões de eleitores ausentes. Lula tenta atrair principalmente pessoas com mais de 70 anos, enquanto Flávio busca manter mobilizada sua base em estados onde a disputa para governador já terminou. A diferença entre os candidatos foi de 2,2 milhões de votos.
A abstenção chegou a 21,08% no primeiro turno da eleição presidencial de 2026, o maior índice desde 1998, e se tornou um foco das campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) para a votação de domingo, dia 25. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizou 33,5 milhões de eleitores ausentes; as duas campanhas buscam ampliar a presença de seus apoiadores e atrair quem não compareceu.
A disputa chega ao segundo turno com Flávio 2,2 milhões de votos à frente de Lula. Os dados do TSE indicam que jovens de 18 a 29 anos e pessoas com mais de 70 concentraram 16,05 milhões de faltas, ou 48,8% do total, embora representem 31,4% do eleitorado. A abstenção não se distribuiu igualmente pelo país: o comparecimento aumentou no Norte e no Nordeste, enquanto o Sudeste teve 800 mil eleitores a menos nas urnas.
A campanha de Lula mira sobretudo os eleitores acima de 70 anos. Nessa faixa, o voto é facultativo, e 8,46 milhões de pessoas não foram votar no primeiro turno. A taxa de abstenção entre os mais velhos caiu de 58,8% em 2022 para 49,1% nesta eleição, mas ainda é a maior quantidade de ausentes entre os grupos etários citados.
Aliados do presidente avaliam que convencer parte desse público a votar pode reduzir a diferença. Uma pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira mostrou Lula com 47% das intenções de voto entre eleitores acima de 60 anos, contra 39% de Flávio. Em Minas Gerais, na sexta-feira, Lula pediu que apoiadores procurem os ausentes e os convençam a ir às urnas.
“Teve muita gente que não foi votar no dia 4. Pessoas acima de 70 anos, que não precisam mais votar, e quem não foi porque não quis. É importante ter um trabalho de convencer as pessoas a irem votar no dia 25. Vamos de casa em casa para convencer”, afirmou o presidente. Sidônio Palmeira, ministro licenciado da Secretaria de Comunicação Social e estrategista da campanha petista, disse esperar que pessoas ausentes no primeiro turno compareçam à votação final.
A campanha também defende ampliar a divulgação do transporte público gratuito no dia da eleição, previsto em lei. Um ministro de Lula afirmou que a equipe identificou pouca comunicação sobre o benefício. A gratuidade pode facilitar o deslocamento de eleitores, embora as matérias não detalhem como cada município vai oferecer o serviço.
Flávio, por sua vez, tenta evitar a desmobilização de sua base em estados onde as disputas para governador já foram definidas. A preocupação é que a redução do trabalho das campanhas locais diminua a participação de eleitores em lugares onde o senador teve vantagem no primeiro turno, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, afirmou que os aliados estaduais devem manter a mobilização e procurar tanto novos apoiadores quanto eleitores que faltaram.
Em São Paulo, Flávio se reuniu com 37 dos 55 vereadores da capital para pedir atuação nos bairros em que Lula foi mais votado. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) participa da articulação com lideranças locais. No Rio, a tarefa de manter prefeitos e aliados mobilizados foi atribuída ao governador eleito Douglas Ruas (PL), em um estado onde a abstenção atingiu 23,32%, a segunda maior taxa do país, atrás de Mato Grosso do Sul, com 23,87%.
As cinco cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Guarulhos e Campinas somaram 4,3 milhões de ausências, 13% do total nacional. A média de abstenção nesses municípios foi de 24%, acima dos 21,08% registrados no país. Entre os eleitores acima de 70 anos, a taxa média nas cinco cidades chegou a 57,3%, ante 49,1% no conjunto nacional.
Há diferenças entre quem não vota por decisão própria e quem é impedido por circunstâncias, como problemas de saúde ou mudança recente de domicílio. O cientista político Emerson Cervi, professor da Universidade Federal do Paraná, distingue esses casos como abstenção voluntária e involuntária. Segundo ele, os eleitores que optaram por não votar podem ser persuadidos a comparecer, estratégia que pode ter peso numa disputa cuja diferença no primeiro turno foi de 2,2 milhões de votos.
O histórico também aponta risco de aumento das faltas no segundo turno quando a disputa estadual já terminou. A abstenção costuma crescer 1,2 ponto percentual nesses locais, o que corresponderia a 1,74 milhão de ausências adicionais, considerando os 20 estados que já elegeram governador. Esse cenário torna a manutenção das estruturas locais uma preocupação para as campanhas, sobretudo em regiões com grande número de eleitores.