Xi Jinping felicita Lula e China avalia força da direita no Brasil
A imprensa estatal chinesa tratou a vitória como revés para Trump na América Latina, mas analistas destacam o peso da direita no Congresso e nos estados.
Resumo em 30 segundos
Xi Jinping felicitou Lula pela reeleição, após manifestação do porta-voz da chancelaria chinesa. Veículos estatais da China interpretaram o resultado como um revés para a influência dos Estados Unidos na América Latina. Analistas também apontam que a força da direita no Congresso e nos governos estaduais pode levar Pequim a ampliar seus contatos políticos no Brasil.
O presidente da China, Xi Jinping, felicitou Luiz Inácio Lula da Silva pela reeleição nesta terça-feira (27), um dia depois de o porta-voz da chancelaria chinesa, Guo Jiakun, comentar o resultado eleitoral em Pequim. Veículos estatais chineses interpretaram a vitória do petista como um revés para a influência dos Estados Unidos e de Donald Trump na América Latina, enquanto analistas apontaram que a direita brasileira manteve força no Congresso e nos governos estaduais.
Na segunda-feira (26), Guo disse que a China “nota” o resultado anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e felicitou Lula. A manifestação ocorreu quando ainda era madrugada em Brasília. No dia seguinte, Xi completou o gesto de reconhecimento, após o Partido Liberal (PL) reconhecer a derrota e o presidente reeleito completar 81 anos.
A cobertura da imprensa estatal chinesa ressaltou o discurso de vitória de Lula e a resistência à interferência estrangeira. A agência Xinhua destacou a participação popular como fator para a vitória do petista. No Diário do Povo, um diretor-executivo do Centro de Estudos Brasileiros da Academia Chinesa de Ciências Sociais avaliou que a guinada da região à direita foi “contida por enquanto”.
O mesmo comentário reconheceu, porém, que candidatos bolsonaristas conquistaram a maioria dos governos estaduais e formaram a maior bancada nas duas casas do Congresso. Esse cenário deve limitar a margem de ação do novo governo e tornar a relação com a China dependente de interlocutores além do Planalto, segundo uma análise publicada por Li Chen, pesquisador da Universidade de Ciência e Tecnologia do Sudoeste e pós-doutorando na Universidade Federal de Santa Catarina.
Li avalia que Lula começa o quarto mandato politicamente cercado e poderá precisar negociar ministérios e recursos para obter apoio no Congresso. Na visão do pesquisador, essa necessidade pode deslocar o governo para posições mais à direita. Ele também afirma que a influência estrangeira na política brasileira tende a continuar mesmo após a eleição.
A análise cita reportagens sobre a atuação da Rockbridge Network, ligada ao vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance, que teria financiado a candidatura do senador Flávio Bolsonaro. A assessoria de Flávio negou que a campanha tenha recebido dinheiro ou estrutura de fora do país. O financiamento estrangeiro de campanhas é proibido pela legislação eleitoral brasileira.
Para Li, governadores de direita ligados ao agronegócio exportador e a investimentos chineses devem preservar relações com Pequim, mesmo diante de um Congresso hostil ao governo Lula. O pesquisador defende que a China compreenda a divisão política interna do Brasil e estabeleça contatos com novos representantes da direita.
O resultado da eleição interessa a Pequim porque, desde 2023, a aproximação bilateral se concentrou principalmente na relação com o governo federal. Nesse período, Brasil e China elevaram seus laços a uma “comunidade de futuro compartilhado”, e os dois países realizaram visitas de Estado em 2024 e 2025. Como Lula já disse que este será seu último mandato, a avaliação citada aponta que a China terá quatro anos para construir relações com políticos que ganham espaço nos estados e no Congresso.
A disputa também se insere na competição por influência entre Washington e Pequim na América Latina. Para os Estados Unidos, a região integra sua área de interesse estratégico; para a China, o Brasil é um parceiro relevante em comércio e investimentos. A manutenção de canais com diferentes grupos políticos pode ajudar Pequim a preservar a relação bilateral mesmo quando as posições do governo federal e do Congresso não coincidirem.
A força da direita no Legislativo pode influenciar decisões sobre políticas econômicas, acordos e investimentos, embora a política externa seja conduzida pelo governo federal. Governadores também têm papel na atração de empresas e na negociação de projetos locais, o que ajuda a explicar por que a relação com estados e setores exportadores é considerada importante para a estratégia chinesa.
A leitura de Pequim, portanto, combina a comemoração da vitória de Lula com a preocupação sobre a distribuição de poder dentro do Brasil. A administração federal continuará sendo um canal central para a relação entre os países, mas a presença ampliada de parlamentares e governadores de direita pode levar a China a diversificar seus contatos políticos.