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Sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Vorcaro e Quadrado comemoram decisão do STF sobre cursos de medicina

Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro mostram que ele e Maurício Quadrado acompanharam e celebraram decisão do STF sobre cursos de medicina.

Por Laura Mendes 4 min de leitura
Estudantes de medicina caminham diante de um prédio universitário. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Estudantes de medicina caminham diante de um prédio universitário.
Resumo em 30 segundos

Mensagens extraídas pela Polícia Federal mostram Daniel Vorcaro e Maurício Quadrado comemorando decisão do STF que permitiu ao MEC analisar processos de cursos de medicina. A Ulbra, ligada a um fundo do Banco Master, foi beneficiada por regra que preservou pedidos já em análise. Zanin e Walfrido Mares Guia negaram contato sobre o julgamento.

Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e antigo controlador da Ulbra, e Maurício Quadrado, seu ex-sócio no Banco Master, acompanharam o julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a abertura de cursos de medicina e comemoraram o resultado. Em maio de 2024, a Corte autorizou o Ministério da Educação (MEC) a analisar 265 processos judiciais sobre o tema; a Ulbra estava entre as instituições beneficiadas.

As conversas foram extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular de Vorcaro. Em mensagem enviada na noite de 24 de maio daquele ano, depois do encerramento da votação, Quadrado escreveu: “Acabou a votação das medicinas. Ganhamos (acompanhado de emojis com palmas)”.

O diálogo entre os dois havia começado em fevereiro de 2024, quando o processo estava em análise no plenário virtual do STF. Na ocasião, a votação estava empatada em três a três, e o ministro Alexandre de Moraes havia pedido vista. Quadrado escreveu a Vorcaro que seriam necessários os votos de Cristiano Zanin e Kássio Nunes Marques e mencionou o empresário e ex-ministro Walfrido Mares Guia como possível intermediário para contato com Zanin.

“Daniel, no STF está 3 a 3, o Toffoli empatou. O Moraes pediu vista e parece que ele está do nosso lado. Precisamos do Zanin e Cássio. Eu acredito que o Walfrido ajuda no Zanin. Vc pode ver por favor (sic)”, escreveu Quadrado. Em seguida, acrescentou o nome completo de Mares Guia. Vorcaro respondeu que Kássio e Moraes votariam a favor e que a decisão seria apertada.

Quadrado também afirmou que a Afya, concorrente da Ulbra e contrária à expansão de cursos autorizados por decisões judiciais, estava atuando no caso. “Afya está atuando forte. Informação de dentro do MEC”, disse. A empresa não quis se manifestar.

Zanin e Mares Guia negaram ter conversado sobre o julgamento ou manter relação entre si. O gabinete do ministro afirmou que ele “não possui nenhuma relação com a referida pessoa e jamais teve qualquer conversa com o citado sobre processos em tramitação no Supremo Tribunal Federal”. A nota acrescentou que as próprias mensagens indicam que Vorcaro e sua equipe cogitaram tentar contato, mas não conseguiram fazê-lo. A assessoria de Mares Guia também negou que ele tivesse sido procurado para tratar do tema com o ministro.

O julgamento terminou com oito votos a três a favor da tese do relator, Gilmar Mendes. A decisão estabeleceu que novos cursos de medicina devem ser abertos por meio de chamamentos públicos do MEC, que definem os locais de instalação. Para não interromper processos já em andamento, porém, o STF permitiu que instituições que haviam iniciado a análise de seus pedidos no ministério continuassem buscando autorização. A situação da Ulbra se enquadrava nessa regra.

A universidade tem cerca de mil vagas em medicina, das quais 860 foram abertas por liminares judiciais. Em fevereiro de 2025, o ministro André Mendonça concedeu uma liminar que rejeitou recurso da União contra a abertura de cursos da Ulbra em seis cidades. A instituição havia obtido decisões judiciais após alegar demora do MEC na análise de pedidos de credenciamento.

O interesse do Banco Master na Ulbra começou por volta de 2020, por meio do fundo Calêndula, que comprava créditos de credores da universidade com deságio de cerca de 90%. Em 2023, o fundo se tornou o maior credor da instituição, com cerca de R$ 2 bilhões em créditos pelo valor de face, entre dívidas trabalhistas e debêntures conversíveis em ações.

A estratégia do Master era usar esses créditos para adquirir apenas os cursos de medicina em um leilão, mas a operação não avançou porque o MEC não permite a venda isolada de uma graduação. Vorcaro tentou vender a Ulbra inteira a grupos de ensino, sem encontrar interessados. Em agosto de 2024, Quadrado voltou a dizer a Vorcaro que eles haviam conseguido liminares para todos os cursos de medicina e que realizariam vestibulares.

A expansão judicial dos cursos também tem sido associada a dificuldades de qualidade e de sustentabilidade financeira. Segundo dados do MEC citados nas informações do caso, entre os cursos autorizados por liminares que participaram do Enamed 2025, 70% tiveram avaliação insatisfatória em qualidade acadêmica. O aumento da oferta também levou instituições a enfrentar dificuldades para preencher turmas e a reduzir mensalidades.

A defesa de Vorcaro e a assessoria de Quadrado não se manifestaram. A Ulbra informou que não comentaria o impacto da decisão nem o número de vagas que mantém. Kássio Nunes Marques afirmou, em nota, que nunca trocou mensagens com Vorcaro, não tratou de processos com ele e não autorizou ninguém a falar em seu nome. O STF não havia respondido a questionamento sobre as menções a Alexandre de Moraes.

Quem é quem

Supremo Tribunal Federal
O Supremo Tribunal Federal é a mais alta instância do Poder Judiciário brasileiro. Entre suas atribuições estão julgar ações que envolvem a Constituição e definir interpretações constitucionais que orientam decisões de outros órgãos públicos.
Ulbra
A Ulbra é uma instituição de ensino superior com atuação no Rio Grande do Sul e cursos em diferentes áreas. No caso relatado, seus pedidos para oferecer graduações de medicina foram alcançados por decisões judiciais e por regras de transição definidas pelo STF.
Ministério da Educação
O Ministério da Educação é o órgão do governo federal responsável por políticas e normas nacionais para a educação. No ensino superior, participa dos processos de credenciamento e autorização de cursos, incluindo graduações em medicina.

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