UICN classifica 96% dos recifes rasos como criticamente ameaçados
A primeira avaliação global da Lista Vermelha de Ecossistemas aponta risco extremamente alto de colapso dos recifes nos próximos 50 anos.
Resumo em 30 segundos
A avaliação da UICN analisou recifes de águas rasas em 127 regiões e classificou 96% como criticamente ameaçados. O aquecimento dos oceanos, ligado às mudanças climáticas, é a principal ameaça. Pesquisadores afirmam que reduzir emissões, pesca excessiva e poluição pode ajudar a proteger os ecossistemas.
A Lista Vermelha de Ecossistemas da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) classificou 96% dos recifes de coral de águas rasas do mundo como criticamente ameaçados. A avaliação, divulgada na quinta-feira (22), aponta risco extremamente alto de colapso nos próximos 50 anos, principalmente devido ao aquecimento dos oceanos causado pelas mudanças climáticas.
O estudo foi a primeira avaliação global da UICN dedicada a esses recifes. Os pesquisadores dividiram os ecossistemas em 127 regiões, considerando sua localização e as espécies características de cada área. Entre os locais classificados como criticamente ameaçados estão a Grande Barreira de Corais, na Austrália, o Triângulo de Coral, no Pacífico ocidental, o Sistema Arrecifal Mesoamericano, no Caribe, e os recifes da Flórida, nos Estados Unidos.
Na classificação da UICN, “colapso” significa a perda quase total ou completa dos corais duros vivos, a ponto de o recife não conseguir mais se manter. Sem o aquecimento adicional projetado em razão das mudanças climáticas, 24% dos ecossistemas avaliados estariam na categoria mais grave, em vez dos atuais 96%.
Os recifes de águas rasas oferecem habitat a cerca de um quarto das espécies oceânicas em alguma fase de sua vida. Centenas de milhões de pessoas também dependem deles para a pesca de subsistência e para a proteção de áreas costeiras contra o impacto das ondas.
O aumento da temperatura do mar pode provocar o branqueamento dos corais. Esses animais vivem em associação com algas microscópicas que fazem fotossíntese e fornecem a maior parte de seus nutrientes. Sob estresse, como calor excessivo, os corais expulsam as algas; se as condições desfavoráveis persistirem, podem ficar sem alimento e morrer.
A avaliação considera a trajetória estimada das mudanças climáticas com base nas emissões globais de gases de efeito estufa, geradas sobretudo pela queima de petróleo, gás e carvão. Mishal Gudka, líder científico do estudo e pesquisador da Universidade de Melbourne, afirmou que ainda há uma oportunidade, embora cada vez menor, para evitar os piores cenários. Reduzir a pesca excessiva e a poluição também pode ajudar os recifes a resistir melhor a outros impactos.
O quarto evento global de branqueamento em massa ocorreu após uma intensa onda de calor oceânico em 2023. Na Flórida, duas espécies importantes para a formação dos recifes — os corais chifre-de-alce e chifre-de-veado — foram consideradas funcionalmente extintas na região. Segundo Gudka, os eventos de branqueamento aumentaram de escala na última década, e os intervalos entre eles estão diminuindo.
Pesquisadores estudam formas de ampliar a resistência dos corais ao calor, como favorecer a reprodução de variedades mais tolerantes a temperaturas elevadas. Também foram propostas intervenções para criar sombra sobre os recifes durante ondas de calor marinho. Gudka afirmou que essas medidas podem ser consideradas, mas que seria difícil levá-las a uma escala capaz de substituir os ecossistemas perdidos.
John Parkinson, pesquisador da Universidade do Sul da Flórida que trabalha com a sobrevivência dos corais em águas mais quentes, disse que os resultados estão de acordo com suas expectativas. Ele ressaltou que há diferentes níveis de tolerância ao calor entre espécies e até entre indivíduos da mesma espécie, mas afirmou que a restauração não será suficiente sem enfrentar as mudanças climáticas e as emissões de gases de efeito estufa.
Para entender
- Lista Vermelha de Ecossistemas
- Sistema da União Internacional para a Conservação da Natureza que avalia o risco de colapso de ecossistemas. A análise considera ameaças e mudanças em sua distribuição, estrutura e funcionamento.