Chuvas de 2026 ampliam a presença de grilos, esperanças e rãs no Rio
Após setembro registrar chuva três vezes acima da média, os animais passaram a ser ouvidos com mais frequência em bairros cariocas e ajudam a controlar pragas.
Resumo em 30 segundos
O período chuvoso de 2026 favoreceu grilos, esperanças e anfíbios em diferentes áreas urbanas do Rio. Especialistas dizem que a umidade e a maior oferta de alimento e abrigo anteciparam a reprodução. Os animais são inofensivos às pessoas e podem ajudar a reduzir pragas como mosquitos, moscas e baratas.
O período excepcionalmente chuvoso de 2026 favoreceu a presença de grilos, esperanças e rãs em diferentes áreas urbanas do Rio de Janeiro. Os animais, que já viviam em pequenos números na cidade ou chegaram de áreas de mata, passaram a ser ouvidos com mais frequência em bairros como Centro, Méier, Tijuca, Laranjeiras e Copacabana.
Biólogos explicam que a umidade e a oferta maior de alimento e abrigo ajudam esses insetos e anfíbios a se reproduzir. A atividade também tem uma função de controle de pragas: grilos e esperanças comem larvas de mosquitos e moscas, enquanto rãs e sapos podem se alimentar de baratas. As espécies citadas são inofensivas às pessoas e não transmitem doenças, segundo os especialistas ouvidos.
Em setembro, o acumulado de chuva no Rio passou de 163,2 milímetros, cerca de três vezes o volume normalmente esperado para o mês, estimado entre 50 e 60 milímetros. Em Laranjeiras, no Jardim Botânico e na Barra, os índices ultrapassaram 230 milímetros; na Rocinha, chegaram a 317 milímetros. Outubro manteve o padrão de precipitação elevada.
A chuva também alterou o período reprodutivo. O coordenador do Laboratório de Polyneoptera do Departamento de Entomologia do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Souza Dias, afirma que a reprodução costuma começar em setembro e avançar pelo verão. Neste ano, porém, já havia muitos animais cantando em agosto, após a ocorrência de chuvas durante o inverno.
As oscilações de temperatura, em um período geralmente quente, também podem manter os animais ativos fora do horário habitual. O som é mais perceptível em canteiros, escadarias, meios-fios, garagens e pontos de ônibus. Entre os locais citados estão as ruas General Glicério e Conde de Bonfim e um ponto da Rua 28 de Setembro, em Vila Isabel.
Os grilos e as esperanças pertencem ao grupo dos polineópteros, nome científico que reúne esses insetos. Eles não produzem voz: o ruído característico surge quando esfregam as asas, e uma estrutura do corpo ajuda a amplificar o som. Os pesquisadores conseguem reconhecer espécies pelos cantos, mas identificar quantos animais vivem na cidade e quais são todas as espécies é mais difícil.
Os grilos costumam ter até três centímetros e fazem abrigos no solo ou em arbustos. Há registros deles também em bueiros e escadarias de edifícios no Centro. As esperanças, geralmente verdes, podem chegar a sete centímetros e tendem a ocupar arbustos e árvores.
A chuva beneficia ainda anfíbios como rãs, sapos e pererecas, que podem viver em praças, canteiros, garagens e vãos de escada. Sergio Potsch, herpetologista e um dos autores do livro “Anfíbios do município do Rio de Janeiro”, explica que muitos ficam escondidos; por isso, é mais comum ouvir seus chamados do que avistá-los.
Algumas rãs chamadas de piadeiras aproveitam a umidade para se reproduzir. Elas constroem ninhos de espuma, nos quais os girinos se desenvolvem, e podem usar até pequenos buracos em canteiros como abrigo. Há 69 espécies de anfíbios na área urbana do município, mas Potsch avalia que o número real pode ser maior.
O coordenador do Laboratório de Entomologia Urbana e Cultural da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Elidiomar Ribeiro da Silva, afirma que a fauna urbana de insetos inclui pelo menos mil espécies, embora a quantidade provavelmente seja superior. Ele diz que espécies ainda não conhecidas no estado já foram encontradas em canteiros, piscinas e até dentro de apartamentos.
Parte dos animais já estava na cidade, muitas vezes escondida em casas, lojas e folhagens; outros vêm das áreas de mata dos morros, sobretudo da Floresta da Tijuca. Um único canteiro pode abrigar centenas de insetos. A presença deles pode reduzir pragas, incluindo baratas e o mosquito Aedes, porque espécies nativas se alimentam de outros insetos.
A atividade sonora também tem relação com a reprodução: nos insetos, são os machos que cantam para atrair as fêmeas. À noite, aves e morcegos podem localizar os animais pelo som, e a minifauna costuma interromper os chamados quando percebe uma ameaça. Os especialistas ressaltam que grilos, esperanças e anfíbios fazem parte da fauna urbana e ajudam a revelar uma vida silvestre que permanece pouco visível na cidade.