Tribunais do crime do PCC podem estar ligados a 20 mortes em SP
Os corpos foram encontrados em pouco mais de um mês e meio na Grande São Paulo; a Polícia Civil diz não haver elementos que liguem os casos.
Resumo em 30 segundos
Vinte corpos foram encontrados amarrados e cobertos em locais públicos da Região Metropolitana de São Paulo. Investigadores consideram a possibilidade de participação de tribunais do crime ligados ao PCC, mas a Polícia Civil afirma que não há elementos que conectem os homicídios. Três pessoas foram presas em apurações de quatro casos.
Em pouco mais de um mês e meio, 20 corpos foram encontrados amarrados e envoltos em sacos ou cobertores em ruas, córregos, terrenos e até numa ciclovia da Região Metropolitana de São Paulo. A principal hipótese entre investigadores é que parte das mortes tenha sido cometida por tribunais do crime ligados ao Primeiro Comando da Capital (PCC), mas a Polícia Civil afirma que não há, até agora, elementos que conectem os casos ou indiquem uma autoria comum.
Entre as vítimas estão Filipe de Carvalho Cabral, de 34 anos; Rafael Zimbarg Francez, de 25; e Lucas Reali de Paula, de 31. Os três desapareceram em circunstâncias diferentes e foram localizados mortos na capital paulista. Um levantamento identificou 14 das 20 vítimas; ao menos oito tinham antecedentes criminais, e duas haviam deixado a prisão pouco antes de morrer.
A Polícia Civil descartou a hipótese de um serial killer, que circulou nas redes sociais, e também não confirmou a versão de que as mortes seriam obra de um grupo de extermínio formado por policiais. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), três pessoas foram presas e outras dez identificadas em investigações sobre quatro dos 20 homicídios.
A SSP informou que os casos são apurados pelo Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), na capital, e por unidades responsáveis na Região Metropolitana. A pasta descreveu as ocorrências como mortes seguidas do transporte e abandono dos corpos em espaços públicos. As vítimas, segundo a secretaria, tinham ligação com crimes como tráfico e roubo.
O uso de sacos, tecidos ou outros materiais para cobrir os corpos, por si só, não prova que os homicídios estejam relacionados, afirmou a SSP. A Polícia Civil investiga as circunstâncias, a motivação e a autoria de cada morte.
Tribunais do crime são julgamentos clandestinos promovidos por facções para punir pessoas acusadas de desrespeitar suas regras. No modelo atribuído ao PCC, a sessão pode simular um processo, com acusação e defesa, e a punição varia conforme a gravidade atribuída à infração, podendo chegar à morte. Em geral, os corpos são enterrados em locais afastados; deixá-los em espaços públicos é menos comum.
O promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, avalia que características das mortes recentes são compatíveis com execuções do PCC. Para ele, alguns casos podem envolver integrantes que traíram a facção ou negociavam com grupos rivais. “Nesses casos, eles desovam os cadáveres em local público para mandar recado. Não é um recado para a polícia e nem para a população, mas sim para o mundo do crime”, afirmou.
Gakiya citou como precedente o caso de Cláudio Marcos de Almeida, conhecido como Django. O traficante, que tinha 50 anos, foi enforcado em um tribunal do crime depois de trair a facção, segundo o promotor, e teve o corpo deixado sob o viaduto da Vila Matilde, na Zona Leste de São Paulo.
A família de Filipe afirma que ele havia retomado os estudos, o trabalho e a frequência à igreja após passar 15 anos preso. Sua mãe, Selma Silva de Carvalho, de 60 anos, contou que o filho voltou a consumir álcool e drogas e mudou de comportamento cerca de um mês antes de desaparecer. Também circulou no bairro um boato de que ele teria abusado sexualmente de uma mulher, mas a mãe disse não saber por que o filho foi morto.
“Foi por causa de quê que mataram meu filho? Por que a pessoa não veio falar comigo? Se ele estivesse devendo alguma coisa, podiam vir falar comigo... Eu queria saber a culpa do Filipe”, disse Selma. A acusação que teria circulado na comunidade não foi apresentada como fato confirmado.
Lucas era dependente químico desde a adolescência, segundo a irmã Andrea Xavier de Paula, de 46 anos. Ele havia sido preso duas vezes por violência doméstica, a última em junho deste ano, após ser acusado de agredir a namorada. Enquanto Lucas estava preso, a família recebeu um telefonema dizendo que ele teria estuprado a mulher e que iria “pagar no caixão”. Andrea afirmou que parentes não foram chamados para conversar sobre o caso.
Rafael trabalhava como motorista de aplicativo e desapareceu depois de aceitar uma corrida para Paraisópolis. O sinal do celular foi interrompido dentro da comunidade, e ele acabou encontrado no porta-malas do próprio carro, com hematomas e ferimentos por disparos. A mãe, Liliane Maria Zimbarg, de 60 anos, relatou que, dias antes, ele tivera um desentendimento com uma passageira e chamou a Polícia Militar. Investigadores também consideraram a hipótese de que o crime estivesse ligado a dívidas de drogas com traficantes da região.
“Eu só sinto que ele foi injustiçado e punido por não saber respeitar as regras”, disse Liliane. A SSP, porém, mantém que não há elementos que apontem uma autoria comum para os casos, e as investigações seguem em andamento.