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Terça-feira, 20 de outubro de 2026

Sanae Takaichi relata rotina de três horas e reacende debate no Japão

Durante uma sessão sobre o orçamento, a primeira-ministra disse que tarefas pessoais e domésticas dificultam encontrar tempo para refletir sobre os rumos do país.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Política japonesa fala em uma tribuna no Parlamento, com outros parlamentares ao fundo. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Política japonesa fala em uma tribuna no Parlamento, com outros parlamentares ao fundo.
Resumo em 30 segundos

Sanae Takaichi disse que dedica pelo menos três horas por dia a maquiagem, banho, preparo de refeições e outras tarefas. A fala gerou debate sobre a divisão do trabalho doméstico e as cobranças de aparência e comportamento dirigidas às mulheres no Japão. Ela também relatou dificuldades para organizar a agenda oficial.

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, disse nesta semana, durante uma audiência sobre o orçamento no Parlamento, que gasta pelo menos três horas por dia com maquiagem, banho, preparo de refeições e outras tarefas. A declaração abriu um debate no país sobre as exigências impostas às mulheres, tanto no trabalho quanto em casa, e sobre a forma como a líder lida com essas expectativas.

Takaichi afirmou que sua rotina torna difícil encontrar tempo para refletir com calma sobre os rumos do Japão. “Encontrar tempo para me sentar e me concentrar com a mente realmente tranquila é um desafio”, disse aos parlamentares. Ela acrescentou que, em comparação com um primeiro-ministro homem, talvez passe três ou quatro horas a mais nessas atividades.

A fala foi feita em resposta a uma pergunta sobre um relatório que aponta o tempo dedicado pelos primeiros-ministros japoneses a procedimentos legislativos. Elaborado pelo centro de estudos NXJI Research, o documento estima que os líderes podem passar até sete horas por dia respondendo a parlamentares. Também calcula que o primeiro-ministro comparece a sessões do Parlamento cerca de 72 dias por ano, em média, ante 50 dias no Reino Unido e 13 na Alemanha.

Além das tarefas domésticas, Takaichi relatou dificuldades para organizar a própria agenda oficial. Segundo ela, seus assessores, todos homens, ainda não se adaptaram à rotina de uma primeira-ministra e não costumam reservar tempo para que ela se maquie antes de aparições na televisão. A observação provocou risos na sessão.

A discussão dividiu políticos e comentaristas. A senadora oposicionista Yoshiko Kira afirmou que a primeira-ministra reforça normas de gênero e prejudica a luta por mais direitos para as mulheres. “Considero profundamente perturbador que a primeira-ministra fale como se essas expectativas específicas em relação à aparência e ao comportamento fossem simplesmente ‘a ordem natural das coisas’ —como se fossem premissas imutáveis e fundamentais, que não podem ser questionadas”, declarou.

A escritora conservadora Kotoe Hashimoto, por outro lado, defendeu a fala de Takaichi em uma publicação na rede social X. “Estão dizendo que ela deveria comparecer à Dieta sem maquiagem?”, escreveu, usando o nome do Parlamento japonês. A primeira-ministra é a primeira mulher a ocupar o cargo no Japão.

No debate aparece o conceito de *midashinami*, conjunto de expectativas sobre apresentação e comportamento em público. As normas podem incluir maquiagem moderada e uso de salto alto, além de restrições a saias curtas e blusas decotadas. Embora homens também enfrentem padrões de aparência, mulheres costumam ser mais cobradas. Escolas japonesas inspecionam cabelo, unhas e comprimento das saias, enquanto empresas podem estabelecer regras rígidas de vestuário.

A cobrança se soma à divisão desigual do trabalho doméstico. Algumas estimativas apontam que as mulheres no Japão fazem mais de três quartos dessas tarefas. O cenário é agravado por jornadas longas: pesquisas recentes citadas no país indicam que muitos trabalhadores são pressionados a cumprir até 22 horas extras por mês.

Takaichi tem falado sobre atividades domésticas em outras ocasiões. Ela já mencionou cuidar do marido doente, cozinhar e limpar a residência. Em julho, comentou que passou um feriado prolongado passando roupas, costurando saias que estavam se desfazendo e reforçando botões de paletós. Também disse que dorme de “zero a três horas” por noite e se descreve como viciada em trabalho.

A residência oficial da primeira-ministra não conta com cozinheiro, segundo relato de seu marido, Taku Yamamoto, ex-parlamentar. Em entrevista publicada neste ano pela revista mensal Bungeishunju, ele disse que uma pessoa vai ao local uma vez por semana para fazer a limpeza. Como a entrada é rigorosamente controlada, contou, ele pede pizza e precisa obter o nome do entregador para que o pedido passe pela segurança. No Japão, apenas cerca de 2% dos lares contratam profissionais de limpeza, segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria.

Takaichi prometeu “trabalhar, trabalhar, trabalhar, trabalhar e trabalhar” ao ser eleita no ano passado e usa com frequência a rotina exaustiva para projetar uma imagem de proximidade com a população. Seus comentários sobre o sono, feitos em julho, também alimentaram discussões sobre equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.

A primeira-ministra é conservadora e apoia a manutenção da linhagem exclusivamente masculina da família imperial japonesa. Também se opõe a alterar uma lei antiga que obriga casais a adotar o mesmo sobrenome. A líder já foi alvo de comentários sexistas sobre roupas, cabelo e maquiagem, em um contexto de forte escrutínio da aparência feminina no país.

Para entender

Midashinami
Termo japonês associado a expectativas de apresentação e comportamento considerados adequados em público. Pode envolver regras de vestuário e aparência, como maquiagem e uso de salto alto. Essas cobranças podem variar conforme o ambiente, mas mulheres costumam estar sujeitas a maior escrutínio.

Fontes: Folha de S.Paulo

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