Zelensky acusa governo Trump de pressionar Ucrânia a se render
A declaração ocorre em meio à troca de críticas entre os presidentes e à preocupação de Kiev com a redução de alertas e interceptores contra mísseis russos.
Resumo em 30 segundos
Volodymyr Zelensky afirmou que medidas do governo de Donald Trump dão a impressão de pressionar a Ucrânia a capitular. A tensão inclui críticas públicas, divergências sobre ataques a refinarias russas e relatos de falhas em alertas de mísseis. Kiev também enfrenta escassez de interceptores Patriot enquanto a Rússia intensifica ataques.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que o governo de Donald Trump está tomando medidas para pressionar Kiev a se render à Rússia. A declaração foi publicada no domingo, em meio à piora das relações entre os dois líderes e a novos ataques russos contra a capital ucraniana, Kiev.
“ Acredito que medidas foram tomadas para convencer a Ucrânia a capitular”, disse Zelensky. Ele afirmou que não quer acreditar que Washington esteja tentando encerrar a guerra às custas da Ucrânia, mas acrescentou que essa é a impressão que as ações recentes dos Estados Unidos deixam.
A tensão aumentou depois de Trump anunciar, em 9 de outubro, que os Estados Unidos comprariam diesel russo para tentar reduzir os preços dos combustíveis antes das eleições legislativas de meio de mandato. O acordo poderia levar bilhões de dólares à economia da Rússia. Trump também pediu que Kiev interrompesse ataques a refinarias russas, uma das formas usadas pela Ucrânia para atingir a capacidade de guerra de Moscou.
No domingo, o presidente americano criticou Zelensky nas redes sociais, afirmando que ele “não quer acabar com esta guerra e provavelmente nunca quis”. Na semana anterior, Zelensky havia dito que Trump demonstrava afinidade por líderes autocráticos, em referência ao presidente russo, Vladimir Putin. Trump, por sua vez, instou os ucranianos a votarem contra o presidente.
Zelensky também indicou, em entrevista ao programa “Meet the Press”, da NBC, que poderia concorrer novamente à Presidência se uma eleição fosse realizada durante a guerra. Ele havia deixado essa possibilidade em aberto por meses, mas relativizou a perspectiva de uma votação enquanto o conflito continua. A Rússia rejeitou repetidamente um cessar-fogo que permitiria a realização do pleito, e a maioria dos ucranianos se opõe a eleições em tempo de guerra.
A Ucrânia também manifestou preocupação com a redução do apoio americano. Autoridades ucranianas disseram que o acesso das Forças Armadas a uma rede segura de internet por satélite fornecida pelos Estados Unidos foi restringido e reclamaram de falhas no compartilhamento de informações sobre a aproximação de mísseis russos. Esses alertas antecipados são usados para preparar a defesa e avisar a população.
Segundo Kiev, não houve aviso prévio em duas ocasiões na semana passada, nem antes do ataque de domingo à noite. O porta-voz da Força Aérea ucraniana, Yurii Ihnat, confirmou que não recebeu alerta antes do primeiro ataque com mísseis contra a capital, às 23h, no horário local. Antes de uma segunda ofensiva, por volta das 3h de segunda-feira, houve aviso.
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, negou que Washington tenha suspendido o compartilhamento de informações sobre mísseis balísticos. Ele atribuiu a falta de alertas na semana anterior a “um problema de software envolvendo o sistema de alerta antecipado” e disse que não poderia comentar o episódio de domingo.
A Ucrânia informou que a Rússia lançou 16 mísseis balísticos contra Kiev e a região ao redor, além de quase 270 drones. A Força Aérea ucraniana afirmou ter abatido mais de 240 drones, mas não divulgou quantos mísseis foram interceptados. Kiev deixou de publicar esse dado diante da escassez de interceptores, especialmente dos sistemas Patriot, de fabricação americana, considerados a defesa mais confiável do país contra mísseis balísticos russos.
Zelensky disse que os Estados Unidos estão atrasando a entrega de interceptores Patriot. A demanda global por esses equipamentos cresceu, sobretudo no Oriente Médio, e a falta deles reduz a capacidade ucraniana de responder aos ataques. Em Kiev, moradores têm ouvido menos os disparos das defesas aéreas e mais as explosões dos mísseis que atingem seus alvos.
A disputa diplomática ganhou novo elemento na segunda-feira, quando o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, afirmou que Putin, Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, poderiam se encontrar no próximo mês em Shenzhen, na China. A possibilidade ampliou o receio ucraniano de que Washington e Moscou negociem um acordo sem considerar os interesses de Kiev. Zelensky disse que não recebeu aviso prévio dos parceiros antes dos mísseis atingirem a capital no domingo.
Para entender
- Sistema Patriot
- O Patriot é um sistema de defesa aérea de fabricação americana. Ele pode interceptar diferentes ameaças, incluindo mísseis balísticos, e é usado por países para proteger áreas e instalações contra ataques aéreos.