Rio Grande do Sul seleciona quatro indústrias para edital de H2V
O edital do programa H2V-RS destina R$ 102,5 milhões a projetos de hidrogênio verde, incluindo uma planta da Tramontina prevista para 2027.
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Quatro indústrias gaúchas foram selecionadas em edital de R$ 102,5 milhões do programa H2V-RS. Entre os projetos estão uma planta da Tramontina para abastecer veículos industriais e aquecer fornos e duas unidades da BeGreen para produzir amônia anidra, usada na fabricação de fertilizantes.
O Rio Grande do Sul selecionou quatro indústrias para receber recursos de um edital de R$ 102,5 milhões do Programa de Desenvolvimento da Cadeia Produtiva de Hidrogênio Verde (H2V-RS). A iniciativa busca estimular projetos ligados à produção e ao uso do combustível de baixa emissão e criar um mercado para a tecnologia no Estado.
O hidrogênio verde é produzido por eletrólise da água — processo que separa hidrogênio e oxigênio com eletricidade — quando a energia usada vem exclusivamente de fontes renováveis, como eólica, solar, hidrelétrica ou biomassa. A escolha da fonte é central: hidrogênio produzido com energia de origem fóssil não se enquadra nessa definição.
O programa estadual apoia iniciativas em diferentes áreas, entre elas a mobilidade, a indústria e a produção de fertilizantes. A aposta gaúcha combina a disponibilidade de energia renovável com um parque industrial capaz de produzir e consumir hidrogênio. Uma estimativa da consultoria McKinsey & Company apresentada pela Invest RS calcula que o setor poderia gerar 41 mil empregos e acrescentar cerca de R$ 62 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho até 2040.
Uma das empresas selecionadas é a Tramontina, que está construindo uma planta de hidrogênio na unidade Cutelaria, em Carlos Barbosa, na Serra. O gás será usado para abastecer empilhadeiras e veículos industriais e para aquecer fornos de tratamento térmico. O projeto prevê eletrólise com água da chuva e eletricidade renovável certificada.
A instalação terá capacidade inicial de 1,25 megawatt e poderá produzir até 500 quilos de hidrogênio por dia. Na primeira etapa, a estimativa da empresa é evitar cerca de 100 toneladas de emissões de dióxido de carbono equivalente por ano. Caso o projeto seja ampliado, a redução poderá superar 4 mil toneladas anuais.
O investimento total previsto é de R$ 43 milhões, dos quais R$ 30 milhões vêm do edital estadual. A Tramontina estima iniciar a operação em 2027. O hidrogênio também pode substituir combustíveis fósseis em processos industriais que exigem calor ou matéria-prima, embora a adoção em escala dependa de investimentos e da redução de custos de produção e infraestrutura.
Outra frente é a fabricação de fertilizantes. A BeGreen estrutura dois projetos no norte do Estado para produzir amônia anidra, insumo usado na fabricação de fertilizantes nitrogenados. A empresa planeja uma unidade em Passo Fundo, com capacidade anual de 2 mil toneladas, e outra em Tio Hugo, com o dobro dessa capacidade. Os projetos somam R$ 135 milhões.
O empreendimento de Passo Fundo está mais avançado na emissão de licenças, e a expectativa é que comece em 2027. Os projetos da BeGreen começaram em 2023 e contam com apoio da Universidade de Passo Fundo (UPF). A empresa pretende chegar a dez plantas de fertilizantes baseadas em hidrogênio até 2030.
Para produzir a amônia, o hidrogênio reage com nitrogênio em um processo industrial. Quando o hidrogênio é obtido com energia renovável, a amônia resultante pode ser produzida com menor emissão de carbono. A aplicação interessa ao agronegócio porque o fertilizante nitrogenado é essencial para a produção agrícola e pode ser fabricado mais perto dos consumidores.
O Brasil importa 95% dos fertilizantes nitrogenados que utiliza, enquanto o Rio Grande do Sul importa 100%, segundo os dados apresentados no levantamento. A produção local com hidrogênio de baixa emissão é apontada como uma possibilidade de reduzir a dependência externa e, no futuro, abrir espaço para exportações.
A legislação brasileira também distingue outras categorias. Hidrogênio renovável pode ser produzido a partir de diferentes fontes limpas, incluindo biogás e biomassa; já o hidrogênio de baixo carbono é definido por um limite de emissões de até sete quilos de dióxido de carbono equivalente por quilo produzido. Essas classificações permitem comparar a intensidade de emissões de rotas diferentes.
Apesar do potencial, a tecnologia ainda representa cerca de 1% do mercado global de hidrogênio e exige investimentos em pesquisa, equipamentos e infraestrutura. A produção por eletrólise consome eletricidade e precisa de água, enquanto o transporte e o armazenamento do gás também requerem soluções específicas. Por isso, os projetos do H2V-RS combinam desenvolvimento industrial e testes de aplicações, em uma cadeia que ainda está em expansão.