Autoridades investigam incêndios criminosos na Amazônia
A Polícia Civil do Amazonas abriu 120 procedimentos, enquanto governo e Abin apuram relatos de combustível lançado na floresta e de ameaças de novos focos.
Resumo em 30 segundos
O governo federal e autoridades do Amazonas investigam possíveis incêndios criminosos, mas ainda não confirmaram os responsáveis nem uma ação coordenada. A Polícia Civil abriu 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência. Desde setembro, foram registrados 20.203 focos de queimadas na Amazônia, e a fumaça elevou a poluição do ar em Manaus.
O governo federal e autoridades do Amazonas investigam uma possível série de incêndios criminosos na Amazônia, após relatos de combustível lançado na floresta e de ameaças de que áreas voltariam a ser queimadas. Em coletiva nesta quarta-feira, 14 de outubro, o ministro do Meio Ambiente, João Capobianco, afirmou que há suspeita de ação deliberada e organizada; a Polícia Civil do Amazonas abriu 120 procedimentos para apurar possíveis responsáveis.
Capobianco disse que identificar e levar à Justiça quem provocou os incêndios é uma prioridade, além de controlar as chamas e reduzir a fumaça que afeta cidades como Manaus e Porto Velho. Segundo ele, a possibilidade de atuação coordenada está sob investigação, mas ainda não há confirmação sobre os autores ou as motivações.
“Existe uma suspeita de ação organizada”, afirmou o ministro. Ele disse que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) participa da apuração para verificar se há semelhanças com episódios anteriores, como o chamado Dia do Fogo, no Pará, em 2019, e incêndios simultâneos registrados em São Paulo em 2024. Capobianco ressaltou que, neste momento, a hipótese não pode ser tratada como comprovada.
Entre os episódios relatados nos últimos dias, equipes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encontraram garrafas com combustível sendo jogadas em áreas florestais próximas a estradas. Os relatos indicam que o material teria sido lançado de caminhonetes. Bombeiros também disseram ter ouvido de pessoas que não adiantaria apagar as chamas porque os locais seriam incendiados novamente.
A Polícia Civil do Amazonas abriu 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência (TCOs), registros usados em casos considerados de menor potencial ofensivo, incluindo infrações ambientais. O procedimento permite ouvir o suspeito e encaminhar o caso para análise, sem que isso signifique, por si só, prisão ou condenação. O secretário estadual de Segurança Pública, coronel Anézio Paiva, afirmou que, se a investigação identificar uma organização criminosa, poderá haver prisão em flagrante.
Para localizar focos e reunir informações, as equipes usam drones com sensores térmicos durante o dia, uma aeronave Águia equipada com tecnologia semelhante à noite e agentes em terra. Paiva informou ainda que mais de 100 denúncias anônimas recebidas pelo telefone 181 foram verificadas. O decreto estadual que proíbe o uso do fogo serve de base para os procedimentos, segundo o secretário.
Desde setembro, foram registrados 20.203 focos de queimadas na Amazônia, conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O Pará concentra 48% deles e o Amazonas, 26%. O presidente do Ibama, Jair Schmitt, afirmou que cerca de 75% das áreas com incêndios ficam em um raio de até 150 quilômetros de Manaus e disse que o trabalho de combate seguirá até a extinção das chamas.
Os dados de área queimada no Amazonas também mostram alta em relação às médias históricas. Em setembro, foram 291.060 hectares, ante uma média de 209.651 hectares — aumento de 38,8%. Em outubro, a área já atingiu 220,7 mil hectares, 249% acima da média histórica do mês inteiro, de 63,2 mil hectares.
O período mais intenso de incêndios no Amazonas e no Pará costuma ocorrer em agosto, mas o quadro crítico começou em setembro e continuou em outubro. Capobianco relacionou o atraso ao El Niño, fenômeno que altera os padrões de chuva e temperatura. Pesquisadores também apontam que a menor quantidade de queimadas nos dois anos anteriores deixou folhas secas e outros materiais disponíveis para alimentar o fogo.
A fumaça que encobriu Manaus nas últimas semanas foi transportada por correntes de ar vindas do leste, incluindo áreas do Pará, segundo simulações do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ). A análise considera trajetórias de massas de ar entre 10 e 15 de outubro e, combinada com os registros de incêndios, indica regiões que podem ter contribuído para a fumaça. A coordenadora do laboratório, Renata Libonati, ressaltou que as trajetórias, isoladamente, não permitem determinar com precisão a origem da fuligem.
A fumaça elevou a concentração de partículas finas PM2.5 em Manaus. Na quinta-feira, 8 de outubro, a Defesa Civil municipal registrou 200 microgramas por metro cúbico às 22h; o Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental da Universidade do Estado do Amazonas mediu 344,5 microgramas por metro cúbico às 2h de sexta-feira, 9 de outubro. A Organização Mundial da Saúde recomenda que a média em 24 horas não ultrapasse 15 microgramas por metro cúbico.
Para entender
- Termo Circunstanciado de Ocorrência
- Registro usado para apurar infrações consideradas de menor potencial ofensivo. O TCO documenta o caso e permite encaminhá-lo para análise; sua abertura, por si só, não significa prisão nem condenação.
- Dia do Fogo
- Nome dado a uma série de incêndios registrados em 2019 no Pará. O episódio é citado como referência na investigação sobre a possibilidade de ações coordenadas, hipótese que ainda não foi confirmada neste caso.
- PM2.5
- Partículas finas suspensas no ar, com diâmetro de até 2,5 micrômetros. Por serem pequenas, podem penetrar profundamente no sistema respiratório; a fumaça de queimadas é uma fonte desse tipo de poluente.