Projetos de minerais críticos somam R$ 39,4 bilhões no Brasil
Autazes, de potássio, e Caldeira, de terras-raras, estão entre os empreendimentos; empresas esperam que o marco legal estimule aportes, mas apontam entraves.
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Os dez principais projetos brasileiros ligados a minerais críticos somam R$ 39,4 bilhões em investimentos e estão em diferentes fases. Autazes, no Amazonas, prevê produzir cloreto de potássio, enquanto Caldeira, em Minas Gerais, mira terras-raras. O marco legal prevê incentivos e garantias, mas sua implementação depende de regulamentação; financiamento e falta de profissionais especializados seguem como desafios.
Os dez principais projetos brasileiros ligados a minerais críticos somam R$ 39,4 bilhões em investimentos, em diferentes fases, da implantação à produção. Entre eles estão o projeto de potássio em Autazes, no Amazonas, e o de terras-raras Caldeira, em Caldas, Minas Gerais. A expectativa do setor é que o marco legal aprovado no mês passado estimule novos aportes, mas financiamento e falta de mão de obra especializada ainda são apontados como obstáculos.
A política nacional define como críticos os minerais necessários à economia cuja oferta seja insuficiente ou instável, por causa da baixa produção interna ou da dependência elevada de importações. Também entram nessa categoria recursos cujas reservas estão concentradas em poucos fornecedores ou em regiões sujeitas a riscos geopolíticos, sobretudo quando a escassez pode afetar a transição energética, a segurança alimentar ou a soberania nacional e tecnológica.
A classificação abrange insumos para fertilizantes e terras-raras, grupo de elementos usados em eletrônicos, baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. O marco também trata dos minerais estratégicos, definidos pela relevância de suas reservas para a balança comercial, o desenvolvimento tecnológico e regional. O minério de ferro é citado como exemplo dessa categoria.
O projeto Autazes, da Potássio do Brasil, prevê investimento de R$ 12,4 bilhões e produção anual de 2,4 milhões de toneladas de cloreto de potássio, matéria-prima utilizada em fertilizantes. O empreendimento está na fase de requerimento de lavra na Agência Nacional de Mineração. Embora seja um grande produtor agrícola, o Brasil importa matérias-primas usadas na fabricação de adubos.
Outro dos principais projetos é o Caldeira, da Meteoric Resources, em Caldas (MG), voltado à produção de carbonato misto de terras-raras. A australiana Lynas Rare Earths comprou 100% da Meteoric por cerca de R$ 3,5 bilhões, na primeira operação realizada após a aprovação do marco legal. A Lynas é a única produtora comercial de óxidos separados de terras-raras leves e pesadas fora da China e avalia investir no refino no Brasil.
A empresa afirmou que analisa alternativas para financiar o desenvolvimento do Caldeira. Entre as possibilidades citadas estão recursos estratégicos no país, financiamento de projeto, o caixa disponível da Lynas e a geração de caixa de suas operações atuais.
O marco prevê créditos fiscais, garantias para empréstimos e incentivos ao processamento industrial no Brasil. Também cria o Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM), que poderá receber até R$ 2 bilhões da União para reduzir o risco percebido por bancos e outros financiadores. A implementação dos benefícios, porém, depende de regulamentação.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tenta ampliar as opções de financiamento. Além das linhas de crédito tradicionais, mantém, com a Vale, um fundo de investimento em participações para projetos de minerais críticos, que começa a fazer aportes. Em uma chamada pública realizada com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), foram selecionados 56 planos de negócio; as conversas estão mais avançadas com 12 empresas.
José Luis Gordon, diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, afirmou que a instituição busca apoiar projetos que processem os minerais, e não apenas sua extração. Segundo ele, todos os projetos financiados pelo banco envolvem algum tipo de beneficiamento. A estratégia, disse, está relacionada à política Nova Indústria Brasil e à prioridade dada à transição energética.
A Petrobras também conversa com o BNDES, mantém linhas de pesquisa e procura oportunidades de investimento ligadas a minerais e baterias. A estatal inscreveu projetos próprios e em parceria no Leilão de Reserva de Capacidade via Armazenamento de Energia, previsto para dezembro.
Entre as empresas de menor porte apoiadas está a Viridis, que recebeu aprovação de R$ 77,5 milhões para um centro de pesquisa e processamento de terras-raras inaugurado em maio deste ano. A unidade deverá produzir carbonato misto em escala piloto. A companhia também desenvolve o projeto Colossus, em Poços de Caldas (MG), com investimento previsto de R$ 2,3 bilhões e atualmente em implantação.
A Viridis aguarda licença de instalação para o Colossus e pretende começar a produção no segundo semestre de 2028. A empresa planeja vender cerca de 70% da produção à Solvay, que pretende processar parte do material em sua unidade de La Rochelle, na França. O restante ficará disponível para outras oportunidades, incluindo a separação de lantânio no Brasil, segundo o diretor-executivo da Viridis, Klaus Petersen. O elemento pode ser usado em baterias, vidros especiais e processos da indústria do petróleo.
O acesso a capital também preocupa a Ore Minerals, dona do projeto Rio Negro, no Paraná, voltado a terras-raras. A empresa estima investir cerca de US$ 100 milhões ao longo de seis anos, em três etapas, e prevê iniciar a produção-piloto em 2028. Seu CEO, João Gustavo Morais, afirmou que ainda é cedo para medir o efeito dos incentivos e que a regulamentação da lei precisa avançar. Para ele, o fundo garantidor pode ajudar a ampliar o financiamento no país, hoje concentrado em fontes externas.
O presidente do Instituto Brasileiro de Mineração, Pablo Cesário, defende que gastos com pesquisa possam ser abatidos de impostos, como ocorre em mecanismos tributários usados no Canadá e na Austrália. Anderson Gomes, presidente do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, aponta a formação de profissionais especializados como outro desafio e considera a regulamentação o próximo passo central. A falta de mão de obra qualificada e de financiamento pode atrasar a expansão de uma cadeia que busca transformar mais minerais dentro do país.
Para entender
- Minerais críticos
- São recursos considerados essenciais para a economia cuja oferta pode ser insuficiente ou instável, por baixa produção interna, dependência de importações ou concentração das reservas. Sua disponibilidade pode afetar áreas como energia, segurança alimentar e tecnologia.
- Terras-raras
- Grupo de elementos químicos usados em aplicações como eletrônicos, baterias, turbinas eólicas e equipamentos de defesa. Apesar do nome, esses elementos não são necessariamente raros na crosta terrestre; sua extração e separação podem ser complexas.