Polícia Civil de SC apreende R$ 8,8 milhões em criptomoedas
A Operação ClickFix investiga invasões a sistemas públicos e desvios de instituições financeiras; a Justiça também bloqueou contas em até R$ 93 milhões.
Resumo em 30 segundos
A Polícia Civil de Santa Catarina apreendeu R$ 8,78 milhões em criptoativos de três carteiras de autocustódia durante a Operação ClickFix. A investigação apura invasões a sistemas públicos e fraudes contra instituições financeiras. A Justiça bloqueou contas até R$ 93 milhões, valor ligado a movimentações suspeitas, não necessariamente ao total desviado. Até 14 de outubro, não havia denúncia apresentada.
A Polícia Civil de Santa Catarina apreendeu R$ 8.781.864 em criptomoedas durante a Operação ClickFix, deflagrada em setembro para investigar invasões a sistemas públicos e desvios de dinheiro de instituições financeiras. A ação cumpriu 17 mandados de busca e apreensão e dois de prisão, além de levar ao sequestro de imóveis e à apreensão de veículos de luxo.
O valor em criptoativos, equivalente a cerca de US$ 1,7 milhão, estava dividido em três carteiras digitais de autocustódia, nas quais o próprio usuário controla as chaves de acesso, sem depender de uma corretora. A polícia considera a apreensão a maior já feita por polícias civis brasileiras envolvendo esse tipo de carteira.
Os investigadores conseguiram acessar os recursos depois de encontrar, nas casas dos suspeitos, frases-semente — sequências de palavras usadas para restaurar o acesso a carteiras digitais. Uma das anotações tinha 24 palavras, mas duas estavam riscadas. Mesmo assim, a polícia recuperou a sequência necessária para alcançar os ativos e transferi-los para a custódia estatal, com apoio da empresa de análise de blockchain Chainalysis.
A Justiça também determinou o bloqueio de contas bancárias até o limite de R$ 93 milhões. Esse montante corresponde a movimentações consideradas suspeitas e não representa necessariamente o total que teria sido desviado. A investigação ainda apura a dimensão das fraudes e a possível participação de outras pessoas.
Segundo o delegado Luiz Felipe Rosado, responsável pela operação, o esquema funcionou por cerca de nove meses a um ano e envolvia investigados na faixa dos 25 aos 30 anos, com integrantes em São Paulo e no Rio Grande do Sul. Parte deles teria se conhecido pela internet; outros tinham vínculos familiares.
A investigação aponta que o golpe operava em duas etapas. Primeiro, os suspeitos tentavam invadir computadores e contas de e-mail de servidores públicos, sobretudo de órgãos policiais, do Ministério Público e de tribunais. A técnica ClickFix, que deu nome à operação, usa falsos alertas de erro em sites ou navegadores para convencer a vítima a executar comandos no próprio computador.
Ao seguir as instruções, a pessoa instala sem saber um programa malicioso, que pode permitir aos invasores acessar informações e controlar o dispositivo. De acordo com Rosado, o objetivo não era necessariamente roubar dinheiro dos servidores, mas usar as credenciais obtidas para avançar até instituições financeiras.
Na segunda etapa, os investigados enviavam falsas intimações em nome de órgãos públicos a funcionários dessas empresas. As mensagens incluíam links que permitiam acesso remoto aos computadores. A partir daí, o grupo procurava identificar sistemas disponíveis e localizar empregados com permissões para consultar contas ou autorizar transferências.
Entre as empresas atingidas havia instituições de pagamento e companhias de infraestrutura do mercado financeiro, inclusive prestadoras de Banking as a Service (BaaS). Nesse modelo, uma empresa oferece tecnologia e serviços financeiros para que outras companhias possam disponibilizar produtos bancários. Rosado não identificou as instituições, citando o sigilo da investigação, que segue em andamento.
Os criminosos também usavam servidores hospedados fora do Brasil para guardar informações e se comunicar. Com autorização judicial, a polícia acessou um desses ambientes e reconstruiu parte do funcionamento do esquema. A apuração indicou que a maior parte dos valores obtidos era convertida em criptoativos, principalmente stablecoins, moedas digitais projetadas para manter valor próximo ao de outro ativo, geralmente o dólar.
Depois, os recursos eram espalhados por diferentes carteiras e movimentados em redes blockchain. Em alguns casos, os suspeitos trocavam uma criptomoeda por outra para tentar dificultar o rastreamento. Ainda assim, transações registradas em blockchains públicas podem ser acompanhadas por ferramentas de análise; a identificação dos responsáveis depende também do cruzamento desses registros com outros elementos da investigação.
A polícia encontrou ainda indícios de lavagem de dinheiro por meio da compra de imóveis e de atividades comerciais. Segundo Rosado, os investigados mantinham uma loja de vinhos que teria sido usada para movimentar parte dos recursos. Os imóveis ligados ao grupo foram sequestrados por decisão judicial.
Até 14 de outubro, o Ministério Público havia pedido diligências complementares e ainda não tinha apresentado denúncia contra os investigados. A investigação, portanto, continuava aberta, sem que a apreensão e os bloqueios representassem uma condenação dos suspeitos.
Para entender
- ClickFix
- Técnica de engenharia social que usa falsos avisos de erro em sites ou navegadores para convencer a vítima a executar comandos no próprio computador. Esses comandos podem instalar um programa malicioso e dar acesso ao dispositivo a invasores.
- Carteira de autocustódia
- Carteira digital em que o próprio usuário controla as chaves que permitem acessar e movimentar os criptoativos, sem depender de uma corretora. Uma frase-semente é uma sequência de palavras usada para restaurar esse acesso.
- Stablecoin
- Criptoativo projetado para manter valor próximo ao de outro ativo, como o dólar. A paridade pretendida não elimina riscos, mas pode reduzir a exposição às oscilações de preço comuns em outras criptomoedas.