Pesquisadores da Radboud criam técnica para reconstruir clitóris
Aplicada em 18 pacientes com câncer de vulva, a cirurgia preservou a possibilidade de orgasmo clitoriano para 16 mulheres do estudo.
Resumo em 30 segundos
Pesquisadores do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, desenvolveram uma técnica de reconstrução do clitóris após cirurgia para câncer de vulva. Em estudo com 18 mulheres, 16 relataram orgasmo clitoriano após o procedimento. Os resultados são preliminares, e a indicação depende do tamanho do tumor e do tecido que pode ser preservado.
Pesquisadores do Centro Médico da Universidade Radboud, na Holanda, desenvolveram uma técnica para reconstruir o clitóris de mulheres operadas de câncer de vulva. O método, descrito em estudo publicado na revista científica Gynecologic Oncology, foi aplicado em 18 pacientes e busca preservar a sensibilidade e a possibilidade de orgasmo após a retirada do tumor.
A equipe inclui a ginecologista oncologista Mieke ten Eikelder e o cirurgião plástico Tim Nijhuis. Segundo os autores, até então a região operada costumava ser fechada com pele, cobrindo o clitóris remanescente, sem uma reconstrução voltada à função sexual. A remoção parcial ou total do órgão pode afetar a sensibilidade, a imagem corporal e a vida psicossexual das pacientes.
O procedimento combina a retirada do tumor com margem de segurança e a mobilização da parte preservada do clitóris. O cirurgião libera o ligamento que o fixa ao osso do púbis para reposicionar o tecido sem danificar os nervos e vasos ao redor. Em seguida, a ponta é recoberta com mucosa retirada da parte interna da bochecha, e a pele é refeita para formar uma cobertura semelhante ao prepúcio.
A operação acrescenta cerca de 15 minutos ao procedimento oncológico. Enquanto o ginecologista opera a vulva, o cirurgião plástico retira o enxerto da boca. A equipe inicialmente usava pele da própria vulva, mas adotou a mucosa da bochecha após algumas pacientes relatarem menor sensibilidade com o enxerto de pele.
No grupo estudado, cuja idade mediana era de 58 anos, 16 das 18 mulheres disseram ter conseguido alcançar orgasmo clitoriano depois da cirurgia. Isso ocorreu em tempo mediano de três meses e meio, com variação de um a 12 meses. As duas pacientes que não relataram orgasmo haviam recebido enxerto de pele. Duas mulheres tiveram complicações relacionadas à reconstrução, e não houve recidiva local do câncer durante o acompanhamento, que durou de seis a 84 meses.
Ten Eikelder afirmou que a sensibilidade pode aumentar demais ou ficar reduzida no início da recuperação, mas que, em geral, melhora após um ano. Os resultados, no entanto, são preliminares: o estudo acompanhou poucas pacientes em um único centro, não comparou a técnica com outro procedimento e se baseou nos relatos das próprias mulheres. O tamanho do tumor e a quantidade de tecido que pode ser preservada também limitam quais pacientes podem fazer a reconstrução.
Alexandre Piassi Passos, diretor da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, afirmou que a técnica pode ser adotada no Brasil com recursos já disponíveis na cirurgia reconstrutiva. Ele defende que a implementação comece em centros especializados, com treinamento e atuação conjunta de cirurgiões oncológicos e plásticos. Passos também observou que a reconstrução genital masculina após câncer é estudada há décadas e que a cirurgia feminina merece atenção equivalente.
O câncer de vulva representa cerca de 5% dos tumores ginecológicos no mundo. A doença é mais associada a mulheres com mais de 60 anos, mas o estudo aponta aumento da incidência e diagnósticos em idades menores. No Brasil, médicos têm relacionado parte do crescimento de casos entre jovens ao papilomavírus humano (HPV). Estima-se que 1.500 a 2.000 mulheres recebam o diagnóstico no país por ano; na Holanda, são cerca de 450.
O clitóris tem aproximadamente 10 centímetros, embora apenas a glande, sua extremidade, seja visível. A maior parte do órgão fica sob a pele, próxima a nervos e vasos que precisam ser preservados. A reconstrução utiliza o método Foldès, criado para mulheres submetidas à mutilação genital, e adapta princípios da cirurgia reconstrutiva para tratar também a função sexual após o câncer.