Pero Vaz de Caminha escreve carta ao rei sobre a terra do Brasil
Datada de 1º de maio de 1500, a carta descreve a terra e os povos indígenas, mas também revela os limites de um relato escrito sob o olhar português.
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Escrita durante a expedição de Pedro Álvares Cabral, a carta de Pero Vaz de Caminha foi enviada ao rei Dom Manuel I e publicada pela primeira vez em 1817. O documento tornou-se referência sobre a chegada dos portugueses, mas não representa o início da história dos povos que já viviam no território.
A carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500 para o rei de Portugal, é um dos documentos mais conhecidos sobre a chegada dos portugueses ao território que hoje é o Brasil. O texto descreve a terra e seus habitantes e, séculos depois, tornou-se referência central para narrativas sobre a fundação do país — embora pesquisadores ressaltem que a história da região não começou com a chegada europeia.
Caminha era escrivão da frota de Pedro Álvares Cabral e registrou o que viu durante a expedição. Datada de 1º de maio de 1500, a carta foi dirigida a Dom Manuel I, então rei de Portugal. No trecho mais lembrado, o escrivão comenta a nudez dos indígenas, que estavam “sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas”.
O documento funciona como um relato da viagem e da terra encontrada, além de apresentar observações sobre os povos indígenas. Por isso, é frequentemente descrito como um marco da escrita sobre o Brasil. O historiador Paulo Roberto Pereira o definiu como a “certidão de nascimento do Brasil” e destacou o cuidado do texto com os detalhes. A expressão, porém, não significa que a história do território tenha começado em 1500.
A pesquisadora de literatura epistolar Elizama Almeida afirma que a carta também ajudou a estabelecer uma narrativa de fundação centrada na chegada dos portugueses. Segundo ela, o relato atribui à escrita um papel de legitimação e domínio, enquanto deixa de fora costumes e histórias indígenas que já existiam antes da expedição. A leitura do documento, portanto, permite observar tanto o olhar de Caminha quanto os limites desse registro.
A carta foi enviada a Portugal e permaneceu guardada por séculos. De acordo com o relato histórico, a tipografia era controlada pelo governo naquele período. A primeira transcrição publicada foi feita por Manuel Aires de Casal, em 1817. O original, composto por sete folhas de papel manuscritas e 27 páginas de texto, está no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa.
A correspondência de Caminha integra uma tradição de cartas que tiveram influência na história política brasileira. Em setembro de 1822, quando Dom Pedro estava em São Paulo, Maria Leopoldina assumiu temporariamente a regência no Rio de Janeiro e participou das decisões que antecederam a Independência. Em carta atribuída a ela, a futura imperatriz alertou o marido sobre a crise com Portugal e escreveu: “O pomo está maduro, colhei-o já”.
José Bonifácio também enviou uma carta a Dom Pedro, defendendo reação às exigências portuguesas. Um mensageiro levou o documento até o regente, que o recebeu em 7 de setembro de 1822, às margens do Ipiranga. A correspondência contribuiu para convencê-lo de que a separação era inevitável, antes do anúncio associado à frase “Independência ou morte”.
Séculos depois, outras mensagens escritas tiveram repercussão política. A Carta-Testamento de Getúlio Vargas foi divulgada após o suicídio do presidente, em 24 de agosto de 1954, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. A frase “Saio da vida para entrar na História” ficou associada ao documento, que contribuiu para transformar Vargas em símbolo de uma causa popular em meio à pressão para que deixasse o poder.
Em 1961, Jânio Quadros comunicou ao Congresso sua renúncia, após sete meses na Presidência. Na carta, apresentou-se como alvo de adversários e afirmou que “forças terríveis levantam-se contra mim”. A saída abriu uma crise em torno da posse do vice João Goulart, contestada por setores militares, e levou à Campanha da Legalidade, liderada por Leonel Brizola. A solução foi a adoção do parlamentarismo, que limitou os poderes de Goulart.
Cartas também foram usadas como instrumentos de contestação e de disputa política. Em 1977, Goffredo da Silva Telles Jr. leu a Carta aos Brasileiros no pátio da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, diante de duas mil pessoas. O documento criticava a ditadura e defendia a democracia. Em 2002, Luiz Inácio Lula da Silva divulgou a Carta ao povo brasileiro, com compromissos voltados a tranquilizar setores empresariais e defender uma conciliação nacional.
A tradição inclui ainda cartas falsas que influenciaram disputas eleitorais. Em 1921, textos atribuídos a Artur Bernardes ofenderam o marechal Hermes da Fonseca; a falsificação foi comprovada e quase custou a eleição ao candidato à Presidência. Em 1955, a chamada Carta Brandi, também forjada, sugeria uma articulação sindicalista e foi divulgada para prejudicar João Goulart, candidato a vice-presidente. Investigações provaram que o documento era uma farsa.
Para o presidente da Biblioteca Nacional, Marco Lucchesi, cartas aproximaram diferentes regiões e grupos do país e produziram registros de ideias e expectativas. O gênero, usado para comunicar decisões, defender projetos e contestar governos, também permite que leitores posteriores revisitem como cada época interpretou o Brasil.