Macron critica Trump e Netanyahu por falas sobre distúrbios na França
O presidente francês afirma que declarações sobre os episódios de sábado exploraram a crise, após protestos contra o custo de vida e em defesa de estudantes.
Resumo em 30 segundos
Emmanuel Macron criticou declarações de Donald Trump e Benjamin Netanyahu sobre os distúrbios ocorridos na França em 17 de outubro. Os episódios aconteceram durante protestos contra a alta do custo de vida e por melhores condições para estudantes. O governo anunciou reforço policial e reuniões para tratar da segurança e das reivindicações sociais.
O presidente da França, Emmanuel Macron, criticou nesta quarta-feira (21) declarações de líderes estrangeiros sobre os distúrbios ocorridos no país no sábado, 17 de outubro. Sem citar nomes, ele acusou políticos em campanha de usar a situação francesa para obter ganhos políticos, em referência a comentários do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.
Durante uma viagem a Doha, no Catar, Macron disse que houve “uma manipulação estrangeira da informação” após os episódios de violência. Segundo ele, isso abriu espaço para declarações “tão inaceitáveis quanto estúpidas”. O presidente afirmou que alguns líderes repetem, com credulidade, conteúdos que circulam na inteligência artificial e “fazem campanha às nossas custas”.
Trump declarou que a França estava sendo “conquistada, saqueada e reduzida a cinzas por migrantes, jihadistas e comunistas”. Netanyahu descreveu o país como um refúgio do “islamismo extremista”. Os dois enfrentam eleições legislativas nas próximas semanas, segundo o relato dos acontecimentos.
Os distúrbios ocorreram em meio a manifestações que reuniram de 550 mil a 800 mil pessoas. Os protestos foram convocados contra a alta do custo de vida e em defesa de melhores condições para estudantes do ensino médio. Imagens de saques e incêndios em prédios públicos circularam internacionalmente, enquanto centenas de lojas foram saqueadas.
As autoridades francesas atribuíram a violência a pequenos grupos de extrema esquerda, aos quais teriam se juntado criminosos oportunistas, incluindo jovens de subúrbios de grandes cidades. Em Paris, 557 pessoas foram detidas. Destas, 300 já haviam comparecido perante um magistrado até a noite de terça-feira; nenhuma delas alegou motivação política, informou a promotora da capital, Laure Beccuau.
O governo anunciou medidas de segurança e também reuniões para discutir as causas e as reivindicações dos protestos. O primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, determinou uma mobilização policial “massiva”. Macron marcou para quinta-feira uma reunião com serviços de inteligência, Lecornu e ministros, a fim de obter um relatório detalhado sobre os acontecimentos.
Na quarta-feira, Lecornu também se reuniu com representantes das principais centrais sindicais. A líder da CGT, Sophie Binet, afirmou que protestos sociais devem receber respostas políticas às reivindicações, e não repressão. O primeiro-ministro espera anunciar medidas sobre as demandas dos estudantes na próxima semana.
O movimento dos coletes amarelos, que abalou o primeiro mandato de Macron em 2018 e 2019, e grupos estudantis convocaram novas manifestações para o próximo sábado. Toques de recolher foram decretados na segunda e na terça-feira à noite para tentar conter a violência.
A crise ocorre num momento de pressão econômica e política sobre o governo, que é minoritário no Parlamento e busca aprovar um ajuste fiscal significativo para 2027. O rendimento dos títulos franceses de dez anos superou 5% pela primeira vez desde 2002, elevando o custo de financiamento do país. O prêmio de risco da dívida também chegou ao maior nível desde 2011, enquanto a agência Moody’s poderia rebaixar a classificação francesa.