Lula vence Flávio e mantém Brasil como contraponto na América Latina
A vitória no segundo turno garante ao petista um quarto mandato; analistas esperam continuidade de uma política externa pragmática, apesar das tensões com Washington.
Resumo em 30 segundos
Lula venceu Flávio Bolsonaro e garantiu um quarto mandato, contrariando a guinada à direita observada em países da região. A política externa brasileira deve manter o pragmatismo, mas o governo pode enfrentar dificuldades com Washington e obstáculos para avançar em organismos multilaterais.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial realizado neste domingo (25), no Brasil. Com o resultado, Lula garantiu um quarto mandato e se manteve como um dos poucos líderes de esquerda na América Latina, em uma região onde avançaram governos conservadores alinhados ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A vitória brasileira interrompeu a sequência de triunfos da direita que marcou eleições recentes em países latino-americanos. Neste ano, Abelardo de la Espriella venceu na Colômbia e Keiko Fujimori no Peru, consolidando uma tendência descrita como “onda azul”. Na América do Sul, além do Brasil, governos de esquerda também permanecem no Uruguai, na Guiana e na Venezuela, esta última sob tutela dos Estados Unidos.
O resultado deve manter o Brasil como contraponto político aos planos de Washington para a região, mas não necessariamente provocará mudanças imediatas na relação com os países vizinhos. O cientista político Tullo Vigevani, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), afirmou que a política externa brasileira tende a seguir pragmática e a evitar tensões. Segundo ele, a expectativa é que Lula mantenha a linha adotada durante seu terceiro mandato.
A relação do presidente brasileiro com governos de direita varia de acordo com seus interlocutores. Lula teve encontros com o chileno José Antonio Kast e mantém diálogo com o paraguaio Santiago Peña. Após uma reunião com o presidente do Chile, Kast afirmou que cada líder busca o melhor para seu povo, independentemente de diferenças ideológicas. Peña declarou admiração pela experiência de Lula durante a Cúpula do Mercosul, em junho.
Com outros líderes conservadores, o cenário é mais difícil. De la Espriella, presidente eleito da Colômbia, apoiou Flávio Bolsonaro durante a campanha e defendeu a derrota da esquerda. O presidente argentino Javier Milei, que já havia feito críticas a Lula, chamou-o de “lixo socialista” no lançamento da candidatura do senador, em São Paulo, no fim de julho. A crise entre os dois países levou, semanas depois, a um rebaixamento inédito das relações bilaterais.
Os governos de direita da região também mantêm relações próximas com Trump. Em setembro, durante um encontro com aliados em Nova York, o presidente americano afirmou que os candidatos que apoiou venceram nove disputas e disse que faria tudo o que estivesse ao seu alcance para apoiá-los. A vitória de Lula, portanto, contraria a tendência celebrada por Trump, embora os próximos passos da política externa dependam também da relação entre Brasília e Washington.
Desde 2023, Lula tem defendido a atuação de organismos multilaterais, formados por países que cooperam em temas comuns. Uma das primeiras medidas de seu governo foi o retorno do Brasil à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). O país também participou de todas as cúpulas do Mercosul, bloco econômico integrado por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Bolívia.
A atuação nesses espaços pode enfrentar obstáculos maiores. Divergências entre governos têm dificultado acordos sobre temas como igualdade de gênero e raça. Na declaração final do encontro do G20 no Rio de Janeiro, a Argentina se opôs inicialmente a trechos sobre igualdade de gênero e empoderamento de mulheres e meninas. Vigevani também avalia que organismos como a Organização dos Estados Americanos (OEA) perderam força política.
O Brasil deve continuar fora do Escudo das Américas, aliança de 15 países criada pelo governo Trump. O grupo afirma que pretende combater o narcotráfico e a interferência estrangeira na região, em referência a adversários dos Estados Unidos, como Rússia e China. Para Vigevani, a principal dificuldade do governo Lula pode estar nas relações com Washington, e não com os países vizinhos; as eleições legislativas americanas de novembro, chamadas de eleições de meio de mandato, podem influenciar esse quadro.