Lula e Trump elevam tensão entre Brasil e Estados Unidos
A disputa envolve as acusações de fraude eleitoral feitas por Trump e pode afetar comércio, segurança regional e negociações sobre minerais estratégicos.
Resumo em 30 segundos
As declarações de Donald Trump sobre a eleição brasileira e a possível ida de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos aumentaram a tensão entre os governos de Lula e Trump. O atrito pode repercutir em temas como comércio, cooperação em segurança, relação com a China e acordos sobre terras raras.
A saída do Brasil de Flávio Bolsonaro, candidato derrotado à Presidência, e as declarações de Donald Trump sobre a eleição brasileira colocaram sob pressão a relação entre os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e dos Estados Unidos. A Polícia Federal determinou que Flávio entregasse os passaportes, mas informações divulgadas indicavam que ele já poderia ter deixado o país, possivelmente rumo aos Estados Unidos.
Trump questionou o resultado eleitoral e afirmou a jornalistas, em Washington: “Francamente, pareceu outra eleição fraudada... Parecia tão corrupta, tão terrível”. O presidente norte-americano fez a declaração na segunda-feira. A fala ecoa as acusações de fraude que ele próprio fez após perder a eleição de 2020 para Joe Biden.
Lula classificou como “vergonhosa” a possibilidade de Flávio Bolsonaro deixar o país. Uma fonte do governo brasileiro, que falou sob condição de anonimato, chamou a declaração de Trump de “chororô de perdedor” e disse que ela não merecia resposta. A mesma fonte afirmou que o governo brasileiro busca manter uma relação correta com Washington, mas avalia que o rumo dependerá da postura norte-americana.
Uma fonte diplomática em Washington afirmou que o Departamento de Estado concederá visto a Flávio Bolsonaro e à família dele. A possível concessão ocorre em meio a outros entraves diplomáticos: os Estados Unidos ainda não têm embaixador em Brasília, e a embaixadora brasileira em Washington está oficialmente sem visto.
Lula e Trump já conversaram por telefone e se encontraram pessoalmente. Nas ocasiões, fizeram elogios públicos, mas depois voltaram a defender posições próprias. Para Evan Ellis, especialista do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a insistência dos Estados Unidos em tratar a eleição brasileira como ilegítima poderia ampliar a hostilidade entre os dois presidentes. Ele observa que ambos estarão livres de futuras disputas eleitorais, o que pode influenciar suas decisões.
O atrito também pode afetar temas de interesse econômico. O Brasil fornece aos Estados Unidos matérias-primas, café e carne, produtos que podem ajudar a conter a inflação. Washington também busca aproximação para obter compromissos brasileiros de afastamento da China e acordos sobre terras raras, minerais usados em setores de tecnologia.
A política externa de Lula tem buscado diversificar as relações do Brasil, segundo Larissa Wachholz, especialista do Centro Brasileiro de Relações Internacionais. O governo brasileiro também se posiciona como uma das principais vozes da esquerda latino-americana diante do Escudo das Américas, iniciativa de Trump para a região. Esse contexto pode dificultar a cooperação em segurança, embora haja espaço para compartilhar inteligência e informações financeiras e bancárias, avaliou James Story, ex-diplomata e fundador da Global Frontier Advisors.
Story afirmou que o Brasil pode ficar à margem caso a iniciativa envolva operações militares conjuntas. Ellis, por sua vez, disse que Lula poderia aumentar a pressão sobre Washington em assuntos como cartéis, Cuba, Irã, Israel e tarifas se considerar que Trump deslegitimou sua vitória. A relação entre os países envolve, portanto, tanto a disputa política em torno da eleição quanto comércio, segurança regional e a busca norte-americana por acordos estratégicos.