Juros futuros DI para 2035 sobem após reeleição de Lula
Nos primeiros minutos de negociação na segunda-feira, a taxa do contrato DI para janeiro de 2035 avançou de 12,65% para 15,37%.
Resumo em 30 segundos
Após a reeleição de Lula, os juros futuros DI para janeiro de 2035 subiram 2,72 pontos percentuais nos primeiros minutos de negociação. A alta refletiu preocupações com as contas públicas e a dívida. Especialistas recomendam cautela e destacam que títulos longos podem oscilar mais, sobretudo se forem vendidos antes do vencimento.
Os juros futuros de longo prazo subiram fortemente na segunda-feira, 26, após Luiz Inácio Lula da Silva ser reeleito presidente da República. Nos primeiros minutos de negociação, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2035 passou de 12,65%, nível de fechamento da sexta-feira, 23, para 15,37%, alta de 2,72 pontos percentuais. O movimento refletiu a preocupação de investidores com a trajetória das contas públicas e da dívida do país.
A dívida pública é estimada em 86% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2027. A reação nos contratos de DI — taxas negociadas no mercado que indicam quanto os investidores esperam receber para emprestar dinheiro em diferentes prazos — mostra a revisão das expectativas para juros, inflação e risco fiscal. A alta dos contratos longos pode encarecer o crédito e reduzir o valor de títulos prefixados ou atrelados à inflação que já estão nas carteiras.
Para quem investe em renda fixa, a orientação mais cautelosa é manter uma parcela relevante em aplicações de curto prazo, ligadas à Selic ou ao Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), enquanto o governo não apresentar os próximos passos para lidar com as contas públicas. O sócio-fundador da WFlow Invest, Paulo Saad, recomendou esperar por mais clareza antes de tomar decisões motivadas pela reação inicial do mercado.
O diretor de gestão da Aware Investments, Gabriel Redivo, afirmou que a estratégia deve respeitar o perfil de risco de cada investidor. Entre as alternativas discutidas por especialistas está deixar pelo menos metade da carteira em ativos com liquidez, que permitem resgates mais rápidos, e limitar a exposição a títulos longos ligados à inflação. Uma participação de até 20% nesses papéis pode ser considerada, mas depende dos objetivos e da tolerância a oscilações.
Títulos do Tesouro IPCA+ pagam uma taxa definida na compra, acrescida da variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), medida oficial de inflação. Se as taxas de mercado sobem depois da compra, o preço do título pode cair antes do vencimento; se caem, o preço tende a subir. Essa oscilação é chamada de marcação a mercado e afeta principalmente os papéis de prazos mais longos.
A analista de renda fixa da Empiricus Laís Costa avalia que títulos de 20 ou 30 anos com retorno real próximo de 7% podem ser atraentes para quem consegue manter o investimento até o vencimento. A taxa real é o rendimento acima da inflação. A estratégia, porém, envolve o risco de perdas no caminho caso o investidor precise vender o papel antes do prazo ou os juros continuem avançando.
A diferença de comportamento entre vencimentos apareceu nos títulos do Tesouro na segunda-feira posterior ao primeiro turno. O Tesouro IPCA+ 2050 havia subido 18% naquele pregão, quando Flávio Bolsonaro saiu na frente, e devolveu a valorização após a vitória de Lula. No Tesouro IPCA+ 2029, a variação foi menor, de 1,4%. Quem precisa do dinheiro antes do vencimento pode ter de vender por um preço inferior ao que esperava; quem mantém o título até o prazo recebe as condições contratadas, corrigidas pela inflação.
O cenário futuro dependerá, em parte, da política fiscal do governo. Se forem apresentadas medidas para estabilizar a dívida e metas consideradas críveis, o prêmio de risco exigido pelos investidores poderá diminuir, abrindo espaço para queda dos juros. Se houver aumento persistente de gastos sem uma fonte sustentável de financiamento, a pressão sobre inflação e câmbio pode manter as taxas elevadas por mais tempo.
A cotação do dólar abriu a segunda-feira com valorização superior a 12%, a R$ 5,60. A perspectiva de saída de capital estrangeiro, especialmente em dezembro, foi apontada como outro fator que pode pressionar o real. A desaceleração da atividade também pesa nas expectativas: dados de outubro do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) levaram economistas a reduzir projeções para o crescimento do terceiro trimestre.
Com juros mais altos por mais tempo, Costa considera que aplicações pós-fixadas, atreladas à Selic ou ao CDI, podem ser mais adequadas para quem não quer assumir grandes oscilações. A analista estima que o mercado pode retirar parte da expectativa de cortes na taxa básica e vê a Selic em 13,5% por um período prolongado. Saad, por sua vez, afirma que prazos maiores podem favorecer o investidor quando a taxa contratada supera as expectativas futuras, desde que o dinheiro não seja necessário antes.
Os especialistas também demonstraram cautela com títulos de dívida de empresas diante da desaceleração econômica e do risco de inadimplência. Para reduzir a exposição, investidores podem optar por fundos de índice com carteiras de crédito diversificadas, embora esses produtos também envolvam riscos. CDBs, letras de crédito imobiliário e do agronegócio e poupança contam com cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), limitada a R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição e a R$ 1 milhão a cada quatro anos, nos casos previstos pelo fundo.
O estrategista macroeconômico da Genial, Roberto Mota, defendeu uma postura de menor risco até que o quadro fique mais claro, independentemente das taxas oferecidas. A escolha entre liquidez, títulos longos e crédito privado depende do horizonte de investimento: papéis de prazo maior podem render mais quando mantidos até o vencimento, mas tendem a oscilar mais com mudanças nas expectativas de juros.