Investidores buscam títulos dos EUA diante de dúvidas sobre IA
A queda nos rendimentos dos títulos do Tesouro dos EUA ocorre após balanços de gigantes de tecnologia reacenderem dúvidas sobre investimentos em IA.
Resumo em 30 segundos
Investidores reduziram apostas no crescimento dos Estados Unidos e buscaram títulos do Tesouro, levando os rendimentos a mínimas desde setembro. O movimento ocorreu após balanços de grandes empresas de tecnologia renovarem dúvidas sobre o retorno dos investimentos em inteligência artificial, apesar de a economia americana ter crescido acima do esperado no terceiro trimestre.
Investidores passaram a reduzir suas apostas no crescimento econômico dos Estados Unidos e a comprar títulos do Tesouro americano, em meio a dúvidas sobre a sustentabilidade dos investimentos em inteligência artificial (IA). A mudança ocorreu após balanços de grandes empresas de tecnologia e apesar de a economia ter crescido acima das previsões no terceiro trimestre.
O rendimento de um título público americano de dez anos, descontada a inflação, caiu para 2,58% nesta semana, o menor nível desde o início de setembro. Os papéis de cinco e 30 anos também recuaram aos níveis mais baixos desde aquele mês. Quando investidores compram títulos, seus preços tendem a subir e os rendimentos, a cair; o movimento costuma refletir maior procura por proteção ou expectativas de crescimento mais moderadas.
A reversão ocorre depois de meses em que indicadores ligados às perspectivas de crescimento levaram a vendas de títulos. Parte dos operadores pode estar buscando proteção temporária enquanto as ações oscilam. Outros investidores veem uma mudança mais duradoura nas avaliações sobre o ritmo da economia e o retorno dos aportes em IA.
A preocupação aumentou após notícias de Meta, Alphabet, Amazon e Intel. O índice Nasdaq 100 caiu 2% nesta semana e entrou em território de correção, depois de perdas nas semanas anteriores. A Alphabet respondeu por uma parcela expressiva da queda: suas ações recuaram 13% na quinta-feira (29), após a companhia informar que o fluxo de caixa livre ficou negativo pela segunda vez em um trimestre desde sua abertura de capital, em 2004.
As quatro empresas ampliaram os investimentos de capital, enquanto a receita começou a perder ritmo em algumas áreas. A combinação reacendeu dúvidas sobre quanto tempo as companhias continuarão destinando grandes volumes de recursos à infraestrutura e ao desenvolvimento de IA e sobre a capacidade de esses gastos se converterem em receitas suficientes.
Os sinais das empresas contrastaram com o dado divulgado pelo Departamento de Análise Econômica dos Estados Unidos na quinta-feira. A economia americana cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima dos 3,2% esperados por economistas consultados pela Bloomberg. Para Priya Misra, gestora de portfólio da JPMorgan Asset Management, os dados não apontam desaceleração, mas os mercados antecipam o futuro: uma revisão das expectativas sobre IA pode levar a uma revisão das projeções de crescimento.
Bill Campbell, gestor de portfólio da DoubleLine, disse que o mercado vinha contando com crescimento forte sustentado pela IA e com algum alívio no Oriente Médio, mas agora reavalia esse cenário. Vincent Reinhart, economista-chefe da BNY Investments, afirmou que a expansão depende excessivamente dos gastos com tecnologia e que essa concentração não se limita aos Estados Unidos.
A discussão envolve também o risco de superaquecimento. Robert Sockin, economista-chefe para os Estados Unidos da PGIM, disse que a probabilidade de recessão estimada pela gestora havia subido de 10% no início deste ano para 20% há um mês e poderia chegar a 25% diante dos acontecimentos recentes. Ele também afirmou que a possibilidade de crescimento forte no próximo ano aumentou, sinalizando que os riscos podem se ampliar nos dois sentidos.
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, tentou afastar a ideia de que a força econômica americana esteja concentrada em poucos setores. O banco central manteve os juros inalterados nesta semana. Para Jason Granet, diretor de investimentos e chefe de serviços de crédito da BNY, parte da desaceleração pode refletir uma comparação mais difícil: depois de crescer muito no ano passado, empresas de IA precisam superar uma base elevada. Isso, segundo ele, não significa necessariamente que a economia esteja enfraquecendo.
Para entender
- Títulos do Tesouro dos EUA
- São papéis de dívida emitidos pelo governo americano para financiar suas atividades. Investidores que os compram recebem pagamentos conforme as condições do título. Em geral, quando a procura pelos papéis aumenta, seus preços sobem e seus rendimentos caem.