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Terça-feira, 6 de outubro de 2026

Galleri chega ao Brasil como exame de sangue para mais de 50 cânceres

Disponível na rede privada por R$ 6.990, o teste exige solicitação médica e não substitui exames de rastreamento nem confirma, sozinho, um diagnóstico.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Tubo de amostra de sangue em um laboratório clínico moderno. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Tubo de amostra de sangue em um laboratório clínico moderno.
Resumo em 30 segundos

O exame Galleri, desenvolvido pela empresa norte-americana Grail, passou a ser oferecido no Brasil pela Genesis Genomics, parceria do Einstein com o Grupo Fleury. A coleta é feita em unidades das duas redes, mas a análise ocorre nos Estados Unidos. O teste procura sinais moleculares associados a mais de 50 tipos de câncer, mas um resultado precisa ser investigado e não substitui exames de rotina.

O Galleri, exame de sangue que procura sinais moleculares associados a mais de 50 tipos de câncer, começou a ser oferecido no Brasil pela rede privada. Desenvolvido pela empresa norte-americana Grail, o teste é comercializado pela Genesis Genomics, uma joint venture do Einstein Hospital Israelita com o Grupo Fleury, por R$ 6.990 e mediante solicitação médica.

A coleta é feita em unidades do Einstein ou do Fleury, mas a amostra segue para os Estados Unidos, onde é analisada pela Grail. O resultado costuma ficar pronto em cerca de um mês. O exame não tem cobertura dos planos de saúde; para quem ainda não tem pedido médico, a Genesis oferece teleconsulta, na qual um profissional pode avaliar se há indicação.

O teste é voltado principalmente a pessoas com 50 anos ou mais que não apresentam sintomas sugestivos de câncer. Médicos também podem considerar o exame para pessoas com histórico familiar ou outros fatores de risco. Gestantes e pacientes em tratamento ativo contra o câncer não devem realizá-lo.

O Galleri é uma biópsia líquida: em vez de retirar uma amostra do tumor, procura no sangue fragmentos de DNA que possam ter sido liberados por células cancerígenas. A análise identifica padrões de metilação, alterações químicas no DNA que ajudam a distinguir material associado a tumores daquele liberado por células normais. Se encontra um sinal suspeito, o sistema também estima o órgão ou tecido de origem para orientar a investigação.

A proposta é ampliar as possibilidades de rastreamento, sobretudo para tumores sem exames de rotina específicos, como os de pâncreas, fígado e ovário. Ainda assim, o Galleri não confirma um diagnóstico e não substitui métodos já recomendados, como mamografia, colonoscopia e papanicolau. A colonoscopia, por exemplo, pode identificar e permitir a retirada de pólipos intestinais, lesões que podem evoluir para câncer colorretal.

Um resultado positivo significa que o teste encontrou um sinal que precisa ser investigado, não que a pessoa necessariamente tenha câncer. A etapa seguinte pode incluir exames de imagem e, se houver uma lesão suspeita, biópsia para confirmar ou descartar a doença. Para um sinal que indique possível origem no pâncreas, podem ser necessários exames de imagem, endoscopia ou colangiorressonância.

Já um resultado negativo não exclui completamente a presença de câncer. A capacidade de detecção varia conforme o tipo e o estágio do tumor, em parte porque alguns liberam mais DNA na circulação do que outros. O oncologista Fernando Moura, gerente médico do Centro de Multiômica do Einstein, afirmou que os exames de rastreamento já recomendados devem continuar mesmo após um resultado negativo. “Por esta razão, todos os testes de rastreamento já recomendados —a exemplo do câncer de colo de útero, colorretal, de mama, de próstata e de pulmão para quem fuma— não devem ser abandonados em hipótese alguma”.

Os estudos clínicos realizados até agora apontam resultados diferentes conforme o estágio da doença. No PATHFINDER 2, que acompanhou 35.878 pessoas nos Estados Unidos e no Canadá por 12 meses, a sensibilidade foi de 21,4% para tumores em estágio 1 e de 63,2% para os em estágio 4. Sensibilidade é a capacidade de um teste de identificar quem tem a doença. O estudo também registrou especificidade de 99,6%, medida que indica a frequência com que o exame apresenta resultado negativo entre pessoas sem câncer.

No mesmo estudo, o teste apontou corretamente a provável origem do tumor em 91,3% dos casos em que houve sinal. Uma análise divulgada sobre o PATHFINDER 2 também calculou sensibilidade de 39,3% para os mais de 50 tipos de câncer avaliados, considerando os tumores identificados durante o acompanhamento. Os números mostram que o desempenho não é uniforme e que um resultado negativo não deve ser interpretado como garantia de ausência da doença.

Outro estudo, o NHS-Galleri, acompanhou 142.250 pessoas de 50 a 77 anos no Reino Unido. A pesquisa não encontrou redução estatisticamente significativa na ocorrência de cânceres diagnosticados nos estágios 3 e 4, objetivo principal do estudo. Houve, porém, redução de 14% nos tumores em estágio 4 e aumento da identificação de cânceres nos estágios 1 e 2. Os dados ainda não demonstram se a detecção pelo Galleri reduz mortes ou prolonga a sobrevida; esse benefício exige acompanhamento por mais tempo.

O PATHFINDER, um estudo anterior com 6.662 pessoas de 50 anos ou mais sem sintomas, registrou resultado positivo em cerca de 1,4% dos participantes. Entre essas pessoas, 38% tiveram câncer confirmado posteriormente, e o teste indicou corretamente a provável origem em 85% dos casos. Os resultados reforçam que um sinal positivo demanda investigação clínica e pode não corresponder a um diagnóstico de câncer.

O Einstein criou um protocolo de acompanhamento para quem fizer o exame. Antes da coleta, os pacientes recebem orientação sobre o significado dos resultados e assinam um termo de consentimento; depois, há previsão de retorno médico para discutir o laudo e definir os próximos passos. O hospital também pretende acompanhar os pacientes para reunir dados sobre o desempenho do teste na população brasileira, já que as principais evidências disponíveis vêm de estudos realizados em outros países.

Para entender

Biópsia líquida
Exame que busca no sangue sinais relacionados a tumores, como fragmentos de DNA liberados por células cancerígenas. Diferentemente de uma biópsia convencional, não depende de retirar diretamente uma amostra do tumor. O resultado pode orientar a investigação, mas não confirma sozinho a presença de câncer.
Metilação do DNA
Processo químico que modifica o DNA sem alterar sua sequência. Os padrões de metilação variam entre tipos de células e podem ajudar a identificar sinais associados a tumores e a estimar o tecido de origem.

Fontes: Folha de S.Paulo, Estadão

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