Flávio Bolsonaro propõe criar Ministério da Prosperidade
A pasta reuniria assistência social, qualificação profissional e microcrédito, mas a campanha ainda não detalhou como funcionaria a estrutura.
Resumo em 30 segundos
Flávio Bolsonaro propôs criar um Ministério da Prosperidade caso vença o segundo turno contra Lula. A ideia reuniria políticas de assistência social, qualificação profissional e microcrédito e assumiria programas hoje vinculados ao MDS. O nome provocou debate sobre referências religiosas, coaching e a responsabilização individual pela pobreza.
Flávio Bolsonaro (PL) propôs criar um Ministério da Prosperidade caso vença Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno. A ideia, anunciada em 9 de outubro, cinco dias após o primeiro turno, prevê reunir políticas de assistência social, qualificação profissional e microcrédito, mas ainda não teve seu funcionamento detalhado.
A proposta não aparece no plano de governo registrado pelo candidato no Tribunal Superior Eleitoral. Em nota, a campanha afirmou que pretende “integrar proteção social e mobilidade social” e articular o Bolsa Família com formação profissional, incentivo ao empreendedorismo e acesso a crédito, para ampliar oportunidades de emprego e geração de renda.
A pasta assumiria a gestão dos programas de transferência de renda hoje vinculados ao Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS). A campanha disse que o objetivo é proteger quem precisa e ampliar as possibilidades de autonomia financeira e construção de patrimônio.
O nome escolhido também trouxe para o debate a Teologia da Prosperidade, corrente religiosa que associa a fé à conquista de saúde, sucesso e abundância material ainda nesta vida. A proposta, porém, não declara inspiração religiosa. A palavra “prosperidade” é usada por setores evangélicos e também aparece em discursos que relacionam empreendedorismo, esforço individual e realização pessoal.
O pastor batista Yago Martins afirmou que aproximar assistência social, qualificação e crédito é uma possibilidade defensável. Sua preocupação, disse, está na forma de apresentar a ideia: para ele, a prosperidade pode ser tratada como uma “palavra mágica” capaz de resolver problemas estruturais por meio de uma mudança de mentalidade. Martins ressaltou que fatores familiares, educacionais, institucionais e sociais também influenciam a pobreza.
A economista Deborah Bizarria, presbiteriana, descreveu prosperidade como um “léxico comum crente” e avaliou que o termo pode funcionar como aceno aos evangélicos. Na leitura dela, a escolha também substitui “desenvolvimento social”, expressão que pode soar associada à esquerda para o público de Flávio.
A discussão envolve ainda a relação entre a linguagem religiosa e o coaching. A chamada Teologia Coaching combina elementos da Teologia da Prosperidade com expressões como “alta performance” e “mentalidade vencedora”. Nesse repertório, a fé é apresentada como parte da busca por objetivos individuais, e o êxito material pode ser associado à capacidade de mudar a própria atitude.
Martins criticou essa abordagem por, em sua avaliação, deslocar o centro da pregação cristã para a realização de sonhos pessoais. Ele também disse que a lógica pode levar a interpretar o fracasso como responsabilidade exclusiva do indivíduo, deixando em segundo plano a complexidade das causas da pobreza.
O teólogo e pastor batista Ranieri Costa também relacionou esse vocabulário à proposta. Para ele, o discurso de que a riqueza depende de mudar a mentalidade e aumentar o desempenho representa uma atualização da Teologia da Prosperidade. Costa afirmou que essa linguagem migrou do meio religioso para o político e advertiu que, nessa lógica, quem não alcança a prosperidade prometida pode ser responsabilizado pelo próprio resultado.
O ex-candidato Renan Santos, do partido Missão, criticou a proposta por considerar que a criação de uma nova estrutura foi apresentada sem explicações suficientes sobre seu funcionamento e sem políticas públicas concretas. Ele associou a ideia ao empresário e influenciador Pablo Marçal, citado como possível ministro em um eventual governo Flávio. Marçal combina linguagem de coaching, empreendedorismo e espiritualidade.
A organização das pastas sociais já mudou em governos recentes. Em 2019, Jair Bolsonaro fundiu o MDS com as áreas de Esporte e Cultura para criar o Ministério da Cidadania. Em 2023, Lula recriou a pasta social. A proposta de Flávio implicaria, portanto, uma nova reorganização das políticas de transferência de renda, além da integração anunciada com qualificação profissional e crédito.
Para entender
- Teologia da Prosperidade
- Corrente religiosa que associa a fé à conquista de saúde, sucesso e abundância material ainda nesta vida. A ideia de prosperidade também aparece em discursos sobre empreendedorismo e esforço individual, embora o uso do termo não indique, por si só, uma inspiração religiosa.
- Teologia Coaching
- Expressão usada para descrever uma abordagem que combina elementos da Teologia da Prosperidade com vocabulário de coaching, como alta performance e mentalidade vencedora. Nesse repertório, a fé pode ser apresentada como parte da busca por objetivos e realizações individuais.