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Sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Flávio Bolsonaro promete ampliar irrigação e facilitar captação de água

Estudos no oeste da Bahia registram queda de vazões e nascentes secas em meio à expansão agrícola, enquanto pesquisas apontam pressão da irrigação sobre rios e aquíferos.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Pivôs de irrigação em lavouras no Cerrado ao lado de um leito de rio seco. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Pivôs de irrigação em lavouras no Cerrado ao lado de um leito de rio seco.
Resumo em 30 segundos

O plano de governo de Flávio Bolsonaro prevê ampliar a área irrigada e facilitar autorizações para captar água. Estudos no oeste da Bahia associam a expansão agrícola à redução da vazão de rios e ao desaparecimento de nascentes. Levantamentos também apontam grande volume de outorgas e trechos de cursos d’água secos na região.

O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) promete ampliar a irrigação no país, simplificar a autorização para captar água e criar polos de produção irrigada no Matopiba e no semiárido nordestino. No oeste da Bahia, parte do Matopiba, estudos registram redução de vazões de rios e desaparecimento de nascentes em meio à expansão agrícola e ao aumento da captação de água.

O plano de governo de Flávio afirma que o país utiliza apenas uma fração do potencial de irrigação e propõe ampliar significativamente a área irrigada. A outorga é a autorização oficial para retirar água de rios, lagos ou aquíferos. O candidato também prevê facilitar esse processo, mas não detalha como pretende alterar as regras nem quais limites seriam aplicados às novas captações.

O Matopiba reúne áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Enquanto o semiárido enfrenta chuvas irregulares e altas temperaturas, o Cerrado, onde está o polo agrícola, é área de nascentes de oito das 12 bacias hidrográficas brasileiras. Pesquisas, porém, apontam que a expansão da irrigação, sobretudo para soja, milho e algodão, pressiona os recursos hídricos da região.

Um estudo publicado em 2021 na revista científica Water analisou a bacia do rio Corrente, no oeste baiano. Entre 1986 e 2018, a área irrigada por pivôs centrais passou de 240 hectares para 43,6 mil hectares. Os pivôs são equipamentos que giram em torno de um eixo e distribuem água sobre as lavouras, formando áreas circulares. No mesmo período, a vazão do rio Pratudão, um dos principais cursos d’água da bacia, caiu 38%.

Os autores apontam que a água é captada nos planaltos, onde se concentram grandes plantações, enquanto a escassez aparece nos vales a jusante, isto é, mais abaixo no curso dos rios, onde vivem comunidades tradicionais. O artigo afirma que esses vales enfrentam falta de água mesmo com pouca derrubada de vegetação e considera a atividade agrícola uma possível causa principal da redução das vazões no oeste da Bahia, acima da mudança climática.

Yuri Salmona, diretor-executivo do Instituto Cerrados e coautor do estudo, afirmou que não há espaço para acelerar a emissão de autorizações de captação, especialmente em regiões semiáridas ou sujeitas a secas prolongadas. Para ele, as outorgas para irrigação já são concedidas com facilidade e os critérios estabelecidos não são monitorados depois da autorização.

Outro levantamento, publicado em fevereiro de 2023 no IDS Bulletin, examinou as outorgas emitidas pelo governo da Bahia no oeste do estado entre 2007 e 2022. Foram concedidas 835 autorizações, que permitem retirar 17 bilhões de litros de água por dia das bacias dos rios Grande, Corrente e Carinhanha. Segundo o estudo, esse volume equivale a sete vezes o necessário para abastecer diariamente a população de toda a Bahia.

Dados da Embrapa contabilizados até outubro de 2024 apontam 332,5 mil hectares irrigados por pivôs centrais no oeste baiano, a maior concentração desse tipo no país. A mudança da vegetação nativa para monoculturas também pode reduzir a retenção de água no solo e a recarga dos aquíferos, reservatórios subterrâneos que abastecem nascentes e rios.

Um artigo publicado em 2024 na Nature Communications analisou 17.972 poços no Brasil e concluiu que 55,4% tinham nível de água abaixo da superfície dos rios próximos, condição que indica possibilidade de os cursos d’água perderem água para os aquíferos. Na bacia do São Francisco, onde fica o Matopiba, 61% dos rios examinados apresentaram esse potencial. Os pesquisadores associaram o resultado ao uso intensivo de água subterrânea, principalmente para irrigação.

Em novembro passado, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação para pedir mudanças estruturais na gestão ambiental e hídrica do extremo sudoeste da Bahia. O órgão afirma que o desmatamento e o uso excessivo de água ameaçam o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na divisa com Minas Gerais. Segundo o MPF, a conversão do Cerrado para a agropecuária em larga escala reduziu em até 50% as vazões de rios e veredas do parque. A ação pede a suspensão de novas outorgas e de autorizações para desmate nos arredores da unidade.

O rio Pratudão tem 144 quilômetros e atravessa Jaborandi, na Bahia. Marcos Beltrão, integrante do Movimento Ambientalista Grande Sertão Veredas, diz que acompanhou o desaparecimento da lagoa do Pratudão, que antes mantinha água durante todo o ano e tinha mais de 50 hectares de superfície. Imagens de satélite de outubro de 2016 e de outubro de 2026 mostram a lagoa seca e a expansão de áreas irrigadas nas proximidades.

Em um levantamento realizado em 2023 e 2024 nas sub-bacias dos rios Corrente e Carinhanha, comunidades locais identificaram 3.050 trechos secos, entre córregos, riachos, nascentes e cabeceiras. A soma dos cursos d’água desaparecidos chega a 7.120 quilômetros, segundo o trabalho coordenado pela Comissão Pastoral da Terra. Beltrão afirmou que moradores descendentes de pessoas que fugiram da seca temem ter de deixar a região se outros rios também secarem.

Fontes: Folha de S.Paulo

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