Lula e Flávio Bolsonaro trocam acusações e dados no debate da Band
No segundo turno, os candidatos fizeram afirmações sobre economia, segurança e corrupção; checagens apontam declarações corretas, imprecisas e sem contexto.
Resumo em 30 segundos
Lula e Flávio Bolsonaro se enfrentaram em debate da Band neste domingo, antes do segundo turno presidencial. As falas incluíram dados verdadeiros, exageros e alegações que precisavam de contexto. Entre os temas abordados estavam economia, segurança pública, descontos irregulares no INSS, Daniel Vorcaro e a Lei Antifacção.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), candidatos à Presidência no segundo turno, se enfrentaram neste domingo, 18 de outubro, em debate promovido pela Band. Durante o programa, os dois fizeram afirmações sobre economia, segurança, corrupção e políticas públicas que incluem dados corretos, declarações imprecisas e alegações sem contexto.
Lula afirmou que foi o primeiro presidente a conseguir dois graus de investimento para o Brasil. O país recebeu essa classificação, que indica às agências e aos investidores menor risco de inadimplência, pela Fitch Ratings e pela S&P em 2008, durante o segundo mandato do petista. A Moody’s concedeu o selo em 2009.
O presidente também disse que o Brasil crescia 7,5% em seu governo e só voltou a superar 3,5% depois que ele retornou ao cargo. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou 7,5% em 2010, mas cresceu 4,6% em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro. A comparação daquele ano, porém, foi feita sobre 2020, quando a economia havia recuado 3,3%.
Lula atribuiu a seu governo a criação do microempreendedor individual (MEI), instituído em 2008, e mencionou a existência de 17,5 milhões deles no país. O número oficial citado no debate é de 17,56 milhões de MEIs ativos. A figura jurídica permite a formalização de trabalhadores por conta própria como pequenos empresários.
Sobre as contas externas, Lula disse que herdou uma dívida de US$ 30 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI), quitada ao fim de seus dois primeiros mandatos, e que o país terminou aquele período com US$ 270 bilhões em reservas. O Brasil tomou US$ 30,4 bilhões emprestados em 2002, pagou antecipadamente o FMI em 2005 e chegou a US$ 270 bilhões em reservas internacionais em 2010.
O presidente citou ainda R$ 3,5 bilhões devolvidos a aposentados e pensionistas que sofreram descontos irregulares no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). O valor pago era de R$ 3,52 bilhões, destinado a cinco milhões de pessoas. Lula também disse que Flávio havia apresentado 43 versões falsas sobre sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro. A contagem mencionada no debate se referia a um levantamento sobre declarações do senador a respeito do banqueiro, incluindo uma negativa de troca de mensagens que depois foi revista.
Outras falas de Lula foram consideradas exageradas ou precisavam de contexto. Ele disse que Flávio comprou uma casa de R$ 10 milhões; na declaração de candidatura, o senador informou patrimônio de R$ 8,1 milhões, incluindo uma mansão de R$ 6,2 milhões no Lago Sul, em Brasília. O presidente também afirmou que Jair Bolsonaro mentia 11 vezes por dia. Um levantamento registrou 1.682 declarações falsas ou enganosas do ex-presidente em 2020, média superior a quatro por dia.
Lula acertou ao dizer que Flávio foi o único dos 49 deputados estaduais do Rio de Janeiro a votar, em 2009, contra ampliar de 120 para 180 dias a licença-maternidade de servidoras. Também descreveu um míssil inflável levado por manifestantes a um ato pró-Flávio na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo. O objeto trazia a frase “Trump nuke Brazil”, que pede um ataque nuclear dos Estados Unidos ao Brasil.
Flávio afirmou que a Lei Antifacção fará líderes de organizações criminosas cumprirem 80 anos de prisão. A legislação prevê que penas de 20 a 40 anos possam ser dobradas para condenados que comandem facções, mas o limite de cumprimento efetivo de penas privativas de liberdade no Brasil é de 40 anos.
O senador disse que o PT governou o país em 20 dos últimos 24 anos. Considerando os períodos de Lula e Dilma Rousseff, o partido somou 17 anos, quatro meses e 12 dias na Presidência. Dilma deixou o cargo após sofrer impeachment, em 2016.
Flávio também vinculou R$ 30 milhões ao financiamento de um documentário sobre Lula por Vorcaro. A Polícia Federal afirmou que o banqueiro não prestou depoimento com esse relato e que os dados extraídos de seu celular não mencionam patrocínio ao filme. A equipe da produção negou ter recebido recursos de Vorcaro.
Outra alegação do senador atribuiu R$ 7 bilhões a viagens de Lula e da primeira-dama, Rosângela da Silva, a Janja. O total de R$ 7,35 bilhões corresponde a despesas de viagens de cerca de 475 mil pessoas, incluindo servidores, militares e colaboradores, pagas por mais de 34 órgãos federais entre janeiro de 2023 e maio de 2026.
Flávio disse ainda que o irmão de Lula, José Ferreira da Silva, conhecido como Frei Chico, é vice-presidente de um sindicato investigado por descontos indevidos em benefícios do INSS. Ele ocupa o cargo de diretor vice-presidente do Sindnapi, mas não é investigado pela Polícia Federal. A investigação sobre o sindicato faz parte da Operação Sem Desconto, que apura fraudes nos benefícios previdenciários.
No tema da maioridade penal, Flávio afirmou que uma proposta de Lula deixaria traficantes e ladrões de celulares fora da redução. A articulação citada previa reduzir a maioridade para 16 anos em casos de crimes hediondos; a Constituição equipara o tráfico de drogas a esses crimes. Já sobre a afirmação de que Lula recorreu à Justiça para restaurar a saída temporária de presos, não há registro de ação do presidente com esse objetivo. Em 2024, ele vetou parcialmente uma lei que restringiu o benefício, mas o Congresso derrubou o veto.
O senador também afirmou que Lula prometeu ajudar Vorcaro em uma reunião com o banqueiro, Fernando Haddad e Gabriel Galípolo. O encontro ocorreu em dezembro de 2024, fora da agenda oficial. Lula e Galípolo disseram que o presidente orientou que o Banco Central tratasse o caso de forma técnica; não há registro de promessa de socorro ao Banco Master. Flávio citou ainda queda superior a 2% nos juros futuros após o primeiro turno, movimento atribuído à liderança inesperada do senador naquela etapa da eleição.