Feito Pipa disputa vaga no Oscar 2027 com história no sertão
Escolhido para representar o Brasil, o longa aguarda a lista de pré-indicados, prevista para 16 de dezembro; a seleção não garante indicação ao Oscar.
Resumo em 30 segundos
Dirigido por Allan Deberton, “Feito Pipa” foi escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional. O longa acompanha Gugu, um menino criado pela avó no sertão cearense, e as tensões familiares que surgem quando ela adoece. A lista de pré-indicados deve sair em 16 de dezembro.
O longa brasileiro “Feito Pipa”, dirigido por Allan Deberton, foi escolhido em setembro pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país na disputa por uma indicação ao Oscar de melhor filme internacional. A produção, que estreou no Festival de Berlim em fevereiro e venceu dois prêmios no evento, aguarda a lista de pré-indicados, prevista para ser divulgada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos em 16 de dezembro.
A escolha não significa que o filme já esteja indicado ao Oscar. Ela o coloca na disputa por uma vaga entre os pré-selecionados; a decisão de quais produções avançam cabe à academia norte-americana. A categoria de melhor filme internacional reúne longas de fora dos Estados Unidos apresentados por seus países, e a indicação depende das etapas de seleção da premiação.
A história se passa no sertão cearense e acompanha Gugu, interpretado por Yuri Gomes, um menino que gosta de jogar futebol, mas também dança, se maquia e pinta as unhas. Ele mora com a avó, Dilma, vivida por Teca Pereira, com quem tem uma relação afetuosa. Quando a idosa adoece e começa a perder a memória, o garoto passa a mentir para continuar perto dela.
Lázaro Ramos interpreta Batista, pai de Gugu. Depois da morte da mãe do menino, Batista se casou novamente e teve uma filha. Ele repreende os gostos do filho que associa ao universo feminino e mantém distância dele, embora tente se aproximar. A doença de Dilma altera a rotina do garoto e intensifica o conflito entre pai e filho.
O filme também incorpora um conflito territorial que afeta a pequena cidade de Quixadá. As lembranças fragmentadas de Dilma dão pistas sobre essa disputa, enquanto a trama acompanha as relações entre Gugu, a avó, o pai e os amigos. A canção “Time After Time”, de Cyndi Lauper, aparece no vínculo entre avó e neto, como expressão da relação que resiste às mudanças e às dificuldades.
Deberton afirmou que quis abordar grandes questões sem concentrar a narrativa no sofrimento. “O pai quer se aproximar, mas tem dificuldade de absorver o filho devido ao seu universo exterior. Queríamos trazer grandes discussões, mas sem sofrimento e pesar. Há filmes que já fazem isso”, disse o diretor. A produção dedica mais espaço à convivência de Gugu com a avó e os amigos do que à rejeição paterna.
A escolha de um menino que desafia expectativas de gênero coloca a infância LGBTQIA+ no centro da história. O filme trata da reação do pai aos interesses do filho e da dificuldade de aceitar uma criança que não corresponde às ideias que ele associa à masculinidade. A relação entre gerações também é central: Dilma oferece ao neto afeto e liberdade, enquanto Batista enfrenta os limites de sua própria compreensão.
“Feito Pipa” teve sua primeira exibição no Brasil no Festival de Gramado, em agosto, onde Yuri Gomes e Teca Pereira receberam atenção do público. Gomes, bailarino baiano, fez sua estreia como ator no longa. Pereira, de 74 anos, tem trajetória no teatro, no cinema e na televisão; entre seus trabalhos recentes estão a série “Segunda Chamada” e o remake de “Vale Tudo”.
Pereira afirmou que as oportunidades para artistas negros cresceram na última década. “Temos papéis relevantes, que não são subalternos como antes”, declarou. A observação acompanha a trajetória de uma atriz que começou como bailarina aos 25 anos e, a partir dos anos 1980, participou de filmes e novelas.
Antes de “Feito Pipa”, Deberton dirigiu “Pacarrete”, lançado em 2020, sobre uma bailarina que enfrenta a indiferença dos moradores de Russas, no Ceará, e “O Melhor Amigo”, um musical gay. O diretor afirmou que cresceu no interior sem acesso a uma sala de cinema e que conheceu obras mais autorais quando começou a trabalhar com cinema.
A disputa pelo Oscar envolve também a capacidade de cada produção de alcançar votantes e público internacional. “Feito Pipa” é um filme independente, e a campanha de divulgação de uma produção nessa categoria pode exigir recursos. A escolha brasileira, portanto, abre caminho para a disputa, mas não garante que o longa chegue à lista de indicados.