Famílias brasileiras chegam à eleição com emprego e renda em alta
Endividamento e inadimplência também estão elevados, enquanto desemprego e renda atingiram marcas recordes; o contraste torna incerto o efeito da economia no voto.
Resumo em 30 segundos
Às vésperas do primeiro turno, o Brasil registra desemprego de 5,3% e renda média mensal de R$ 3.777, ambos recordes para o período. Ao mesmo tempo, 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, e a inadimplência segue elevada. Os indicadores divergentes são explorados pelas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.
Às vésperas do primeiro turno das eleições presidenciais, marcado para este domingo (4), o Brasil combina desemprego em baixa e renda recorde com endividamento elevado e dificuldade de quitar contas. O contraste econômico tem sido usado nas campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL), que aparecem como favoritos nas pesquisas de intenção de voto.
Lula tem destacado os indicadores positivos do mercado de trabalho, enquanto Flávio Bolsonaro chama atenção para as dívidas e o custo de vida. Para economistas, os sinais divergentes tornam incerto o efeito da economia sobre a disputa eleitoral.
A pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostra que 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, o maior percentual desde o início da série histórica, em 2010. O indicador inclui compromissos como cartão de crédito, cheque especial, carnês e empréstimos. Em agosto de 2022, ano da eleição presidencial anterior, a proporção era de 79%.
Entre as famílias com contas em atraso, a fatia chegou a 29,9% em agosto. O recorde da série foi registrado em setembro e outubro do ano passado, quando 30,5% estavam inadimplentes. Em agosto de 2022, eram 29,6%. Já 12,5% das famílias disseram não ter condições de pagar dívidas vencidas, acima dos 10,8% registrados quatro anos antes. O maior índice foi de 13,2%, em outubro de 2025.
Fabio Bentes, economista-chefe da CNC, atribui parte da pressão ao aperto monetário, ou seja, à manutenção de juros elevados para conter a inflação. A taxa básica de juros, a Selic, está em 13,75% ao ano. Segundo ele, parte das famílias enfrenta dificuldades para reorganizar o orçamento por causa de dívidas acumuladas anteriormente, e não apenas por novos gastos de consumo.
Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho registra resultados favoráveis. A taxa de desemprego ficou em 5,3% nos três meses encerrados em agosto, o menor nível para esse período desde o início da série do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2012. O país tinha 103,5 milhões de pessoas com 14 anos ou mais ocupadas, em trabalhos formais ou informais, também um recorde.
A renda média mensal da população ocupada alcançou R$ 3.777 no trimestre encerrado em agosto, o maior valor já registrado para o período. Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, avalia que a queda do desemprego e sinais recentes de alívio da inflação favorecem o governo na busca pela reeleição. Ele ressalta, porém, que a inadimplência pode pesar sobre a avaliação dos eleitores.
Um artigo publicado pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas aponta que o crédito continua crescendo, mas em um contexto de orçamentos pressionados e maior uso de modalidades mais caras. Os pesquisadores Pedro Avelino, Flávio Ataliba Barreto e João Mário Santos de França afirmam que endividamento, comprometimento da renda e inadimplência bancária estão em níveis recordes ou próximos deles, com impacto particularmente intenso entre famílias de menor renda.
A técnica em enfermagem Luana Dutra Gomes, de 37 anos, relata que já enfrentava dificuldades para pagar um empréstimo ligado ao salário quando foi vítima de um golpe digital, no ano passado. Segundo ela, outras duas operações de crédito foram feitas fraudulentamente em seu nome. Gomes afirma que tenta resolver o caso na Justiça e que vendeu pertences, faz trabalhos eventuais e recebe doações de alimentos para se manter.
Bentes diz que a combinação de emprego e ganhos de consumo pode favorecer a reeleição de um governante, mas avalia que os indicadores de dívida tornam o quadro menos claro. Para ele, a presença simultânea de resultados positivos no trabalho e dificuldades financeiras ajuda a explicar por que a disputa pelo governo federal está acirrada.
Para entender
- Endividamento das famílias
- O indicador considera compromissos financeiros a vencer, como cartão de crédito, cheque especial, carnês e empréstimos. Ter dívidas não significa necessariamente estar inadimplente: essa condição se refere a contas cujo pagamento está atrasado.