Expedição encontra microplásticos em todos os pontos do Tietê
Amostras de 14 locais, incluindo a nascente em Salesópolis, revelaram partículas; pesquisadores defendem reduzir a poluição plástica na origem.
Resumo em 30 segundos
A Expedição Tietê 2025 encontrou microplásticos nos 14 pontos analisados ao longo de mais de 1.100 quilômetros do rio, inclusive na nascente. O texto também aborda partículas em bivalves, fontes de emissão e medidas para conter a poluição. Especialistas avaliam que filtros e ecobarreiras não bastam sem reduzir os resíduos na origem.
Microplásticos foram encontrados em todos os 14 pontos analisados durante a Expedição Tietê 2025, inclusive na nascente do rio, em Salesópolis, no interior de São Paulo. A presença dessas partículas em ambientes aquáticos, alimentos e até no ar reforça que as medidas para removê-las da água não dão conta da dimensão do problema, e especialistas defendem reduzir a poluição plástica na origem.
A expedição percorreu mais de 1.100 quilômetros do rio Tietê e foi realizada pela Fundação SOS Mata Atlântica com quatro universidades. Na nascente, a quantidade encontrada era pequena. Uma hipótese para explicar o resultado é que parte do material tenha chegado pelo ar, mas a origem não foi determinada.
Microplásticos são partículas resultantes, em grande parte, da fragmentação de objetos plásticos maiores. Também há fontes que lançam partículas diretamente no ambiente. Segundo o relatório Breaking the Plastic Wave 2025, pneus e tintas respondem por 38% cada uma dessas emissões; a lavagem de plástico em usinas de reciclagem, por 12%; e a agricultura, por 11%. O total estimado é de 17 milhões de toneladas por ano.
A poluição também pode entrar na cadeia alimentar quando animais ingerem as partículas. Uma análise de bivalves — como mexilhões, ostras e sururus — comprados em regiões costeiras de 14 Estados encontrou microplásticos em 70% das amostras. Em Recife e Fortaleza, foram identificadas até cinco partículas por grama. O estudo foi conduzido na Universidade de São Paulo (USP), a partir de amostras coletadas pela expedição Voz dos Oceanos.
Com base nesse resultado, o professor da USP Alexander Turra calculou que um pastel com 100 gramas de sururu poderia conter uma ingestão de 500 partículas. Heloisa Schurmann, da família responsável pela expedição, afirmou que o problema vai além do lixo visível em praias e dos animais presos em embalagens: as partículas chegam aos ecossistemas e à cadeia alimentar.
A produção global de plástico atingiu 435 milhões de toneladas em 2020 e pode crescer 70% até 2040, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Apenas 9% dos resíduos são reciclados. No Brasil, são colocadas no mercado 10,33 milhões de toneladas de plástico por ano, e 3,44 milhões se tornam resíduos sem coleta ou destinação adequada, de acordo com o Blue Keepers, iniciativa do Pacto Global da ONU.
Ecobarreiras e filtros podem retirar parte do material da água, mas não têm escala suficiente para conter o volume de poluição. Como muitas partículas surgem da fragmentação de plásticos maiores, os pesquisadores defendem reduzir a produção de resíduos e controlar as fontes de emissão. Entre as medidas citadas estão melhorar o tratamento de esgoto, limitar a liberação de fibras de tecidos durante a lavagem e integrar saneamento, uso do solo e gestão de resíduos nas bacias hidrográficas.
Desde este ano, o Decreto 12.688, de outubro de 2025, exige que empresas que vendem produtos em embalagens plásticas recolham e destinem adequadamente o equivalente a 32% do que colocam no mercado. Fabricantes e importadores de embalagens também devem usar pelo menos 22% de resina reciclada nas novas peças; a exigência deve chegar a 40% em 2040. Um obstáculo, segundo especialistas, é que o plástico virgem custa menos e há poucos incentivos fiscais para ampliar o valor do material reciclado.
Na esfera internacional, negociações conduzidas na Organização das Nações Unidas desde 2022 buscam criar um tratado contra a poluição plástica que cubra todo o ciclo de vida do material. Produtores de petróleo defendem que o acordo se concentre no descarte. No Brasil, o Programa Pellet Zero, licenciado pela Associação Brasileira da Indústria Química, audita empresas para evitar a perda de pellets, pequenos grânulos usados na fabricação de plástico.