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Quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Estudo associa anticorpos no sangue à resposta à vacina da Covid

Pesquisa acompanhou 4.089 pessoas e encontrou três tipos de anticorpos ligados a uma resposta mais intensa, mas não recomenda testes para orientar a vacinação.

Por Redação Plantão Paulista 3 min de leitura
Imagem gerada por IA: Pesquisador analisa uma amostra de sangue em laboratório. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Pesquisador analisa uma amostra de sangue em laboratório.
Resumo em 30 segundos

Um estudo da Universidade Estadual do Arizona associou anticorpos já presentes no sangue a respostas mais intensas à vacina contra a Covid-19. Os sinais foram ligados a anticorpos contra três microrganismos comuns, mas não provam proteção contra o coronavírus nem causa e efeito. Os achados ainda não justificam exames para orientar a vacinação.

Um estudo da Universidade Estadual do Arizona, nos Estados Unidos, identificou uma associação entre anticorpos já presentes no sangue e a intensidade da resposta à vacina contra a Covid-19. Publicado em agosto na revista Cell Press Blue, o trabalho sugere que esses anticorpos podem servir como sinais da capacidade de reação do sistema imunológico, mas não comprovou que eles causem uma resposta mais forte.

Os pesquisadores acompanharam 4.089 pessoas por até 18 meses e analisaram 8.687 amostras de sangue. O grupo incluía 2.445 participantes saudáveis e 1.644 pessoas com condições ou tratamentos relacionados à imunossupressão, entre elas HIV, câncer, doenças autoimunes, doença inflamatória intestinal e transplantes de órgãos.

A equipe mediu anticorpos contra 185 antígenos — moléculas que o sistema imunológico reconhece — de vírus, bactérias e alvos associados a doenças autoimunes. Em seguida, comparou esses dados com os níveis de anticorpos contra uma região da proteína spike do coronavírus, produzidos após a vacinação inicial e a dose de reforço.

Três tipos de anticorpos se destacaram por sua associação com uma resposta mais intensa à vacina: os dirigidos à bactéria Staphylococcus aureus, ao vírus sincicial respiratório (VSR) e ao respirovírus humano 3, também chamado de vírus parainfluenza humano tipo 3. Esses microrganismos circulam com frequência, e muitos adultos já tiveram contato com eles.

A presença desses anticorpos, porém, não significa que as infecções por esses agentes protejam contra o coronavírus ou que os anticorpos aumentem a eficácia da vacina. Os autores os chamaram de “anticorpos sentinela”: possíveis indicadores de como o organismo reagiu a exposições anteriores. A relação observada é estatística e não demonstra causa e efeito.

O pediatra Alfredo Gilio, coordenador da Clínica de Imunização do Einstein Hospital Israelita, avaliou que a falta de anticorpos contra um microrganismo comum pode, em alguns casos, indicar que o sistema imunológico não respondeu como esperado. Ele descreveu esse perfil como uma espécie de fotografia da capacidade de defesa do organismo. A interpretação, contudo, não permite prever com certeza a resposta de uma pessoa à vacina.

A diferença entre os grupos foi expressiva. Depois do esquema inicial, 71,6% dos transplantados tiveram resposta fraca, em comparação com 6,2% dos participantes saudáveis. Após o reforço, 95% das pessoas saudáveis alcançaram a faixa de resposta alta; entre os transplantados, 37,9% ainda apresentaram resposta fraca ou ausente.

Os pesquisadores também empregaram modelos de inteligência artificial para avaliar o conjunto de anticorpos. Um dos modelos distinguiu participantes saudáveis com respostas altas ou baixas com mais de 75% de acerto. O desempenho foi diferente entre os grupos e menor entre transplantados e pessoas com doenças autoimunes.

A resposta às vacinas também varia por idade, condições de saúde e características genéticas. Com o envelhecimento, ocorre a imunossenescência, processo de perda gradual de eficiência do sistema imunológico; crianças pequenas, por sua vez, ainda têm as defesas em desenvolvimento. Desnutrição, doenças crônicas e tratamentos como quimioterapia, corticoides em doses elevadas e medicamentos usados após transplantes também podem reduzir a resposta.

O estudo mediu anticorpos, que fazem parte da chamada imunidade humoral. A proteção também envolve a imunidade celular, formada pela ação de células de defesa, que não foi avaliada nessa pesquisa e exige exames mais complexos. Por isso, a quantidade de anticorpos, sozinha, não representa toda a proteção contra uma doença.

O achado ainda não serve para recomendar exames de anticorpos antes ou depois de cada vacinação. Gilio afirmou que a possibilidade de usar esses marcadores para orientar estratégias individualizadas precisa ser confirmada por outros estudos. Atualmente, as recomendações de vacinação já podem variar conforme a idade e as condições de saúde, e pessoas imunossuprimidas podem precisar de doses adicionais ou intervalos específicos.

Para entender

Anticorpos sentinela
Nome dado pelos pesquisadores a anticorpos que podem funcionar como indicadores de exposições anteriores e da resposta do sistema imunológico. A associação observada no estudo não demonstra que esses anticorpos causem uma resposta mais forte à vacina.
Imunidade humoral e celular
A imunidade humoral envolve anticorpos presentes nos fluidos do corpo. A imunidade celular depende da atuação de células de defesa. A pesquisa avaliou anticorpos, mas não mediu a resposta celular, que também participa da proteção contra doenças.

Fontes: Folha de S.Paulo

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