Espanha tem protestos em 50 cidades contra crise de moradia
Os atos ocorreram após o Congresso rejeitar dois decretos habitacionais do governo de Pedro Sánchez; em Madri, estimativas de público variaram de 70 mil a 500 mil.
Resumo em 30 segundos
Dezenas de milhares de pessoas protestaram em mais de 50 cidades espanholas contra a crise de moradia e a alta dos aluguéis. A mobilização ganhou força após o Congresso rejeitar dois decretos do governo de Pedro Sánchez. Em Madri, autoridades estimaram 70 mil participantes, enquanto os organizadores falaram em cerca de 500 mil.
Dezenas de milhares de pessoas protestaram neste sábado em mais de 50 cidades da Espanha contra a crise de moradia, um dia depois de o Congresso rejeitar dois decretos emergenciais do governo de Pedro Sánchez. Em Madri, a delegação do governo estimou 70 mil participantes; os organizadores calcularam cerca de 500 mil. As manifestações cobraram medidas para conter os aluguéis e ampliar a proteção de inquilinos.
A mobilização ganhou força após o caso de Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos retirada de seu apartamento no centro de Madri, onde viveu por sete décadas. A empresa proprietária do imóvel havia tentado elevar em 275% o aluguel, segundo relatos publicados sobre o caso. Depois da repercussão, as partes chegaram a um acordo para que Abascal retorne ao apartamento pagando um valor menor.
Na capital, os atos tiveram como referência a Puerta del Sol, onde ativistas mantinham um acampamento havia uma semana. Os protestos também ocorreram em cidades como Barcelona, Valência, Sevilha, Málaga e Bilbao. Em Valência, houve confrontos perto do Palau de les Arts Reina Sofía, durante um encontro do setor imobiliário; manifestantes removeram barreiras e atiraram objetos, e a polícia respondeu com balas de borracha, segundo relatos divulgados pela imprensa espanhola.
A derrota parlamentar ocorreu na sexta-feira, quando deputados rejeitaram duas propostas apresentadas pelo Executivo. A primeira, derrubada por 178 votos a 172, previa suspender despejos de inquilinos vulneráveis até 2030, estender por dois anos contratos com vencimento antes de 2028 e elevar impostos sobre apartamentos destinados ao turismo, além de impor restrições à compra de imóveis residenciais por fundos de investimento.
O segundo decreto, rejeitado por 184 votos a 166, previa a renovação automática de contratos de aluguel. As medidas precisavam do apoio de partidos menores, pois a coalizão do Partido Socialista (PSOE), de Sánchez, e do aliado Sumar não tem maioria no Parlamento. O Partido Popular (PP), o Vox e o Junts se posicionaram contra as iniciativas.
A votação aumentou a pressão política sobre o primeiro-ministro. A possibilidade de antecipar as eleições gerais, previstas originalmente para 2027, voltou ao debate, mas Sánchez ainda não havia anunciado uma decisão neste sábado. A Constituição espanhola permite que o presidente do governo proponha a dissolução antecipada do Parlamento e a convocação de eleições.
O impasse legislativo ocorre em meio a uma diferença crescente entre a oferta e a procura por moradias. O Banco da Espanha estima um déficit de cerca de 750 mil residências, e alertou que o número pode superar um milhão nos próximos dois anos se não houver medidas. O país constrói atualmente cerca de 90 mil unidades por ano, enquanto a formação líquida de novos lares chega a 250 mil anuais, segundo especialistas citados no debate sobre o setor.
A crise atual contrasta com o período entre 1997 e 2008, quando a Espanha construiu cerca de cinco milhões de casas e apartamentos, aproximadamente o dobro da demanda de mercado da época. O crédito barato financiava tanto as obras quanto a compra de imóveis. A crise financeira internacional e o estouro da bolha imobiliária interromperam o financiamento e reduziram drasticamente a construção, deixando o setor com menos empresas e capacidade para retomar a produção rapidamente.
A pressão da demanda também aumentou com o crescimento da população, impulsionado pela imigração, enquanto parte dos imóveis é destinada a aluguéis turísticos ou de temporada, em vez de moradia permanente. Em 2025, a Espanha recebeu 96,8 milhões de visitantes estrangeiros, alta de 3,2% em relação ao ano anterior. Especialistas apontam que a conversão de imóveis para estadias curtas reduz a oferta disponível para famílias, sobretudo em cidades e regiões turísticas.
Os custos dificultam tanto a compra quanto o aluguel. Desde 2015, os preços das moradias à venda ou para alugar subiram 80%, enquanto os salários aumentaram 30%, segundo o Instituto Nacional de Estatística da Espanha. Em 2024, uma em cada quatro famílias dizia enfrentar dificuldades para conseguir ou manter uma moradia. Entre os espanhóis de 26 a 34 anos, 47,3% continuavam morando com os pais; o custo da habitação foi apontado como o principal motivo.
A crise também aparece nas estatísticas de despejo. O Conselho Geral do Poder Judiciário registrou 39.096 em 2021 e 24.520 em 2025, embora os números incluam também imóveis comerciais e estacionamentos, não apenas residências. Economistas afirmam que a redução não significa necessariamente melhora para todos: pessoas com menor renda podem ficar sem acesso ao aluguel, enquanto imóveis inteiros são cada vez mais divididos para locação por quartos.