Eleitores ampliam mobilização nas ruas e nas redes no 2º turno
Atos presenciais e ações digitais ganharam força entre apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto os dois grupos intensificam a disputa.
Resumo em 30 segundos
A mobilização de apoiadores de Lula e Flávio Bolsonaro cresceu no segundo turno, com mais atos de rua, grupos de WhatsApp e ações coordenadas nas redes. Dados da consultoria BITES mostram que Lula superou o adversário em novos seguidores e interações nas plataformas analisadas. Jovens e grupos de fãs também passaram a participar da campanha.
A mobilização de eleitores nas ruas e nas redes sociais cresceu no segundo turno da eleição presidencial, depois de uma campanha marcada por desânimo e baixa participação antes da votação de 4 de outubro. O resultado, que colocou Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), levou apoiadores dos dois candidatos a intensificar atos, conversas e ações digitais.
O especialista tributário Douglas Tajiri, de 30 anos, diz que acreditava na reeleição de Lula e, por isso, pouco falou de política com amigos e não compartilhou conteúdos eleitorais. A vantagem de Flávio no primeiro turno e o desempenho de candidatos de direita ao Congresso o fizeram rever a postura e participar de atividades da campanha petista.
Tajiri foi a dois atos da esquerda e entrou no canal de WhatsApp “Exército do Lula”, criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). O grupo reunia 9,7 milhões de seguidores neste sábado e propõe ações coordenadas, como compartilhar vídeos, impulsionar hashtags e divulgar publicações em horários combinados. Segundo Tajiri, a organização simultânea amplia o alcance das iniciativas.
A mobilização também ganhou força entre jovens, estudantes e grupos de fãs de artistas, chamados de fandoms. Cila Schulman, CEO do Ideia, afirma que essas iniciativas surgiram de forma orgânica e depois foram incorporadas à campanha de Lula, ao lado da atuação digital de Janones e de artistas. Entre os atos citados está uma manifestação de fandoms na Avenida Paulista, em 11 de outubro.
A campanha de Flávio manteve eventos de rua e, no segundo turno, contou com maior participação de lideranças locais, especialmente em São Paulo. Entre elas estava o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), reeleito no primeiro turno. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), descrito como uma liderança da direita nas redes, também conduziu grandes atos.
O estudante de Direito Carlos Eduardo Rollo, de 18 anos, começou a campanha distante da disputa. Ele votou no ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e dizia não se sentir representado pelos dois candidatos que avançaram ao segundo turno. Depois de avaliar temas econômicos, decidiu apoiar Flávio: participou de três atos e ajudou a convocar colegas para dois deles.
Rollo também passou a atuar em seis grupos de WhatsApp com estudantes do Mackenzie e de outras universidades, onde compartilha notícias sobre política e economia. Ele afirma que tomou a iniciativa ao perceber que alguns jovens com posições próximas às suas não conseguiam responder a questões sobre o governo. A experiência anterior do estudante em uma manifestação havia sido aos sete anos, quando acompanhou o pai em um ato pelo impeachment de Dilma Rousseff.
Os dados da consultoria BITES indicam que a mudança de ritmo também apareceu nas redes. No primeiro turno, entre 16 de agosto e 4 de outubro, Flávio ganhou 2,4 milhões de seguidores, contra 1,4 milhão de Lula. O petista, porém, teve 83,8 milhões de interações, ante 73,5 milhões do adversário. Interações incluem ações como curtidas, comentários e compartilhamentos.
No segundo turno, Lula superou Flávio nos dois indicadores medidos pela consultoria nas plataformas X, Facebook, Instagram, YouTube e TikTok. O presidente ganhou 5,8 milhões de seguidores, enquanto o senador somou 3,3 milhões. Lula registrou ainda 201,2 milhões de interações, mais de três vezes as 60,4 milhões atribuídas a Flávio.
Manoel Fernandes, diretor-executivo da BITES, avalia que a campanha de Lula passou a dar mais importância à comunicação digital depois do primeiro turno. Segundo ele, a aproximação do presidente com deputados influenciadores ajudou a impulsionar a mudança, embora Janones tenha sido um dos aliados mais ativos nas redes.
A disputa apertada também elevou a preocupação dos dois grupos com a possibilidade de vitória do adversário, segundo Sérgio Denicoli, CEO da AP Exata e cientista de dados. Dados da consultoria mostram que, no segundo turno, temas como costumes, religião, emprego, saúde, educação e economia ganharam espaço nas discussões sobre os candidatos. Já assuntos como o Supremo Tribunal Federal, o governo dos Estados Unidos e o caso Banco Master perderam presença nas menções analisadas.
Denicoli afirma que a campanha passou a discutir com mais frequência o que cada candidato poderia fazer no governo. Para ele, a intensificação da participação política pode deixar os eleitores mais dispostos a se organizar e a se manifestar também após a eleição. A mobilização, tanto presencial quanto digital, passou a reunir pessoas que no primeiro turno ficaram à margem da campanha por confiança no resultado, descrença ou falta de identificação com os candidatos.
Para entender
- Fandoms
- São comunidades de fãs que se organizam em torno de artistas, obras ou outras figuras públicas. Além de acompanhar e divulgar o trabalho de quem admiram, integrantes podem coordenar ações coletivas, inclusive em redes sociais e eventos presenciais.