PNUD alerta que alta de preços pode levar 130 milhões à pobreza
A projeção depende da continuidade da alta de energia e alimentos; juros elevados e efeitos do El Niño também ampliam a pressão sobre países em desenvolvimento.
Resumo em 30 segundos
O PNUD estima que quase 130 milhões de pessoas podem cair na pobreza neste ano se continuarem subindo os preços de energia e alimentos. O risco é maior no sul e no leste da Ásia e na África subsaariana. Juros altos, dívidas e possíveis impactos do El Niño reduzem a capacidade dos países de reagir.
O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) alertou que quase 130 milhões de pessoas podem cair na pobreza neste ano se persistirem as altas nos preços de energia e alimentos. O diretor da agência, Alexander de Croo, atribuiu o risco à combinação de choques econômicos, juros elevados e possíveis impactos de um El Niño intenso, em declaração durante reuniões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial em Bangcoc, nesta semana.
A pressão sobre os preços da energia aumentou após a guerra entre Estados Unidos e Irã, iniciada em fevereiro, e as retaliações de Teerã contra aliados de Washington na região do Golfo. Os ataques afetaram o fornecimento de petróleo e gás e contribuíram para a disparada das cotações internacionais do petróleo.
O PNUD estima que o risco de aumento da pobreza é maior no sul e no leste da Ásia e na África subsaariana. A projeção de quase 130 milhões de pessoas se refere à possibilidade de empobrecimento caso os preços da energia e dos alimentos continuem subindo; não é uma contagem de pessoas que já passaram à pobreza.
De Croo afirmou que países em desenvolvimento têm dificuldade para responder a novas crises porque ainda enfrentam consequências de episódios anteriores, como a pandemia e as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio. “Cambaleamos de uma crise para outra, e o que os países precisam é de um pouco de espaço e um pouco de tempo, além de acesso a financiamento”, disse.
O diretor comparou a diferença de capacidade entre os países a casas com níveis distintos de proteção. “Alguns países têm uma casa bem protegida, com dinheiro no banco. Outros países têm uma casa sem telhado e não têm dinheiro no banco”, afirmou. Em outra declaração, resumiu o desafio: “Você precisa consertar o telhado quando, ao mesmo tempo, sua casa está pegando fogo”.
O endividamento também reduz a margem dos governos para reagir. De acordo com o PNUD, países em desenvolvimento destinam, em média, 9,5% das receitas públicas ao pagamento de juros, a maior proporção em 25 anos e mais de três vezes a observada entre os países de renda mais alta. De Croo disse que esse custo dificulta a formulação de políticas e o acesso ao capital necessário para enfrentar choques econômicos.
A alta dos rendimentos dos títulos nas economias avançadas, associada às expectativas de inflação e ao crescimento da dívida, pode pressionar ainda mais as taxas de juros. Para países que precisam tomar empréstimos, juros mais altos encarecem o financiamento e podem limitar recursos destinados a serviços públicos, proteção social e investimentos.
O PNUD também apontou o El Niño como uma ameaça adicional. O fenômeno climático pode intensificar secas, inundações e outros eventos extremos, com efeitos previstos para atingir o pico no início de 2027. De Croo defendeu que o capital privado ajude a reduzir as consequências mais graves das mudanças climáticas.
O diretor afirmou que pretende usar as reuniões em Bangcoc para defender investimentos de economias avançadas e instituições multilaterais em crescimento, resiliência e geração de empregos nos países em desenvolvimento. Ele também disse que os cortes recentes na ajuda internacional afetam esses países.