Dólar cai mais de 4% e volta a R$ 5 após eleição
O Ibovespa supera 208 mil pontos após o primeiro turno, em reação à vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula e à expectativa de ajuste fiscal.
Resumo em 30 segundos
O dólar recuou mais de 4% e voltou ao patamar de R$ 5, enquanto o Ibovespa avançou mais de 8% e superou 208 mil pontos. A reação veio após Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno à frente de Lula. Investidores avaliam que uma possível vitória do senador pode favorecer o ajuste fiscal, mas ainda faltam propostas detalhadas e há incertezas sobre as prioridades de um eventual governo.
O dólar caiu mais de 4% e voltou a R$ 5 nesta segunda-feira, 5 de outubro, enquanto a Bolsa brasileira subiu mais de 8%, em reação do mercado financeiro ao resultado do primeiro turno da eleição presidencial. A disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será decidida no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Flávio terminou a primeira etapa com 47,03% dos votos, ante 45,16% de Lula. A alta dos ativos refletiu a avaliação de investidores de que a vantagem do senador e o avanço de candidatos de direita no Congresso e em governos estaduais poderiam favorecer uma agenda de ajuste das contas públicas.
O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, superou os 208 mil pontos durante a sessão. No câmbio, a queda levou a moeda americana de volta ao patamar de R$ 5. A cotação varia ao longo do pregão e o dado divulgado sobre a movimentação desta segunda-feira é uma queda superior a 4%, não necessariamente o valor de fechamento.
O analista político Erich Decat avaliou que o rali indica que parte do mercado já considera Flávio favorito para vencer o segundo turno. “Pelo rali de hoje, já estão considerando Flávio como vitorioso”, afirmou. Para ele, o resultado eleitoral e o desempenho da direita em diferentes disputas sustentam, por ora, essa leitura.
A expectativa de uma gestão mais comprometida com o ajuste fiscal ajudou a impulsionar a reação, mas as propostas econômicas de Flávio ainda não foram detalhadas. Decat disse que houve conversas entre integrantes da equipe do senador e representantes do mercado financeiro, nas quais foram apresentados objetivos gerais, sem explicações precisas sobre as medidas para alcançá-los.
A política fiscal reúne decisões sobre receitas, despesas e endividamento do governo. O ajuste fiscal busca melhorar o equilíbrio das contas públicas, por exemplo, por meio de mudanças em gastos ou arrecadação. Investidores acompanham esse tema porque a trajetória das contas influencia a confiança na capacidade do governo de honrar compromissos e pode afetar juros, câmbio e decisões de investimento.
Segundo Decat, a reação dos mercados poderá depender de três etapas: a confirmação do resultado no segundo turno, a escolha da equipe econômica de um eventual governo Flávio e a apresentação de propostas fiscais. Ele também alertou que uma mudança na percepção dos investidores pode provocar correções nos preços, caso as medidas esperadas não apareçam ou as prioridades do governo sejam outras.
Entre as incertezas está a possibilidade de que o novo governo priorize a anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro e a pessoas condenadas pelos atos de 8 de janeiro de 2023, além de iniciativas para buscar o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Flávio ganhou popularidade defendendo essas pautas, segundo a avaliação do analista.
Decat afirmou que uma disputa entre Executivo e Judiciário poderia reduzir o espaço para negociações econômicas no Congresso. “Dificilmente, dentro de uma crise entre poderes, haverá espaço para debate sobre fiscal”, disse. Na avaliação dele, o risco institucional ainda não está incorporado plenamente nos preços dos ativos, porque o mercado aguarda mais clareza sobre o resultado eleitoral e os planos de um possível novo governo.
O analista também apontou que o atual arcabouço fiscal se encerra em dezembro e que não há, no cenário descrito por ele, uma definição para o controle de gastos no ano seguinte. O arcabouço fiscal é o conjunto de regras que orienta a evolução das despesas públicas e busca limitar o crescimento dos gastos. Sem uma discussão sobre o tema no início do próximo ano, afirmou, os investidores poderiam rever o otimismo e pressionar por decisões.
A reação pode ter etapas distintas para investidores estrangeiros. Decat disse que, inicialmente, eles podem tentar aproveitar o ambiente mais favorável à direita e a expectativa de uma agenda fiscalista. Uma eventual crise institucional, porém, poderia aumentar a preocupação desses investidores, que acompanham a estabilidade das instituições ao decidir onde aplicar recursos.
A disputa eleitoral ainda está aberta e a vantagem de Flávio no primeiro turno não define o resultado final. Até a votação de 25 de outubro, as expectativas sobre a eleição, a composição do Congresso e as propostas econômicas dos candidatos podem continuar influenciando o dólar, a Bolsa e os juros.
Para entender
- Ajuste fiscal
- Conjunto de medidas para melhorar o equilíbrio das contas públicas, por meio de mudanças nas despesas, nas receitas ou em ambas. A avaliação sobre a trajetória fiscal pode influenciar a confiança de investidores, os juros e o câmbio.
- Ibovespa
- Principal índice da Bolsa de Valores brasileira. Ele reúne ações de empresas negociadas na B3 e serve como referência para acompanhar o desempenho do mercado acionário no país.