Desinformação em saúde mantém circulação e expõe pacientes a riscos
Levantamento analisou 764 publicações entre 2017 e junho de 2026; 87,3% eram falsas, e o WhatsApp apareceu em 70,5% das verificações.
Resumo em 30 segundos
Um estudo do Observatório Lupa identificou que 87,3% de 764 publicações sobre saúde verificadas entre 2017 e junho de 2026 eram falsas. Conteúdos enganosos circulam em redes sociais e aplicativos, enquanto ferramentas de inteligência artificial também são usadas para dúvidas médicas. A desinformação pode levar a decisões arriscadas sobre tratamentos e medicamentos, inclusive produtos falsificados vendidos pela internet.
Um levantamento sobre desinformação em saúde identificou que 87,3% de 764 publicações analisadas entre 2017 e junho de 2026 eram falsas. O estudo, realizado pelo Observatório Lupa com apoio da Afya, aponta que conteúdos enganosos continuam circulando após a pandemia de covid-19 e podem influenciar decisões sobre tratamentos, medicamentos e procura por atendimento.
A análise reúne verificações feitas pela Agência Lupa ao longo do período. Durante a pandemia, o volume de conteúdos checados aumentou: em 2020 e 2021, foram 452 publicações virais sobre saúde, cerca de dez vezes mais que nos três anos anteriores. Depois, ganharam espaço alegações falsas sobre dengue, diabetes, câncer e alimentação.
A estratégia mais recorrente foi atribuir informações a uma autoridade médica ou científica inexistente ou inadequada, identificada em 21,59% dos conteúdos. Mensagens alarmistas apareceram em 17,09% dos casos, enquanto 15,74% distorciam estudos e dados. O levantamento também registrou a circulação de vídeos manipulados por inteligência artificial e anúncios de produtos que prometem curas.
O WhatsApp esteve presente em 70,5% das verificações, seguido pelo Facebook, com 25,3%, e pelo Instagram, com 7%. A mesma publicação pode circular em mais de uma plataforma; por isso, os percentuais não precisam somar 100%.
A desinformação pode levar alguém a tomar remédios sem orientação, interromper uma prescrição ou adiar a busca por atendimento. Gustavo Meirelles, vice-presidente Médico e de Relações Institucionais da Afya, afirmou que conteúdos falsos podem interferir nas decisões dos pacientes e comprometer tratamentos. Ele também destacou que a ciência trabalha com evidências, níveis de certeza e atualizações, enquanto mensagens enganosas podem recorrer a uma linguagem simples e emocional.
O uso de inteligência artificial para dúvidas de saúde também aparece no estudo. Pesquisa do Research & Innovation Center, núcleo da Afya em parceria com a Conexa, apontou que 79% dos entrevistados usam a tecnologia no cotidiano. Quase metade, 49%, recorre a ela em situações relacionadas à saúde; entre essas pessoas, 66% procuram esclarecimentos sobre sintomas, doenças ou diagnósticos.
Meirelles alertou que ferramentas genéricas de inteligência artificial podem oferecer respostas convincentes, mas incorretas ou inadequadas ao quadro clínico de cada usuário. A orientação é conversar com profissionais de saúde sobre essas respostas, que podem ser avaliadas considerando sintomas e histórico médico. Sistemas de inteligência artificial não substituem diagnóstico ou acompanhamento profissional.
O problema também alcança a venda de medicamentos pela internet. Redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas de comércio eletrônico são usados para oferecer produtos de origem desconhecida, às vezes com promessas de resultados rápidos. Dados do Pharmaceutical Security Institute indicaram aumento de 27% nos incidentes de falsificação de medicamentos em 2025. Um levantamento da AmCham Brasil, por sua vez, registrou que 30,4% das empresas consultadas mencionaram marketplaces e comércio eletrônico entre os canais de ocorrência de pirataria; o dado abrange produtos além de medicamentos.
As canetas emagrecedoras são um exemplo da dimensão do comércio irregular. Segundo o Anuário da Falsificação, do Conselho Federal de Farmácia, as apreensões de unidades irregulares passaram de 609, em 2024, para mais de 60 mil, em 2025. Produtos falsificados podem não conter o princípio ativo anunciado ou apresentar concentrações inadequadas e substâncias desconhecidas. Mesmo quando o princípio ativo é correto, armazenamento, transporte e conservação inadequados podem comprometer a qualidade e a eficácia.
Medicamentos falsificados podem causar intoxicação, reações adversas e agravamento de doenças. Preços muito abaixo dos habituais, vendedores sem identificação, falta de nota fiscal, lacres violados e divergências em lote ou validade são sinais de alerta. A aparência da embalagem, contudo, não comprova autenticidade; diante de suspeita, a recomendação é consultar um farmacêutico e os canais oficiais de vigilância sanitária.
O levantamento identificou ainda a exploração comercial de informações falsas: das 18 verificações sobre essa prática desde 2017, 14 ocorreram a partir de 2022. Em 17 casos, havia oferta de produtos ou serviços, incluindo supostos tratamentos para diabetes. A divulgação de uma alegação enganosa vinculada à venda pode levar pacientes a gastar dinheiro ou substituir cuidados indicados por alternativas sem comprovação.
A circulação de informação confiável depende também da capacidade de avaliar evidências e distinguir associação de causa e efeito. Essa distinção é importante ao interpretar pesquisas: dois fenômenos podem aparecer relacionados em um estudo sem que um necessariamente provoque o outro. Médicos e jornalistas podem ajudar a contextualizar resultados científicos e esclarecer dúvidas, enquanto pacientes devem discutir com profissionais decisões sobre medicamentos e tratamentos.