Data centers ampliam busca por financiamento no mercado de capitais
Debêntures já bancam parte dos investimentos, mas a falta de conexão à rede elétrica pode atrasar projetos e elevar o risco para credores.
Resumo em 30 segundos
A expansão dos data centers no Brasil deve ampliar a procura por recursos no mercado de capitais. O setor já usa debêntures e pode disputar espaço em novas emissões de dívida. A falta de conexão à rede elétrica, porém, pode atrasar projetos, enquanto contratos longos com grandes empresas de tecnologia ajudam a dar previsibilidade às receitas.
A expansão dos data centers no Brasil deve ampliar a procura por financiamento no mercado de capitais, segundo avaliação do Banco ABC Brasil. O setor já recorre a debêntures para bancar investimentos e poderá disputar espaço nas emissões de dívida quando as ofertas se recuperarem, mas enfrenta custos elevados de construção e dificuldades para obter conexão à rede elétrica.
Debêntures são títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Em 2025, esses papéis, somados a outros passivos financeiros e ao patrimônio líquido, correspondiam a 87% da estrutura de financiamento da Elea Digital, 73% da Ascenty e 56% da Scala Data Centers, de acordo com o levantamento do banco.
As receitas das companhias são majoritariamente vinculadas ao dólar, enquanto parte significativa das dívidas é emitida em reais e atrelada ao Certificado de Depósito Interbancário (CDI). As empresas recorrem a derivativos para reduzir os efeitos de oscilações cambiais e de juros. As emissões também costumam oferecer garantias, como ações das companhias, equipamentos e recebíveis de contratos.
Os títulos dessas empresas têm pouca negociação no mercado secundário, o que indica que podem permanecer nas carteiras dos bancos que coordenam as ofertas. O estudo avalia que há espaço para aumentar a participação do crédito doméstico, de bancos de fomento e de estruturas alternativas, como operações em que a empresa vende um imóvel ou outro ativo, continua a usá-lo pagando aluguel e assume a obrigação de recomprá-lo.
A necessidade de recursos cresce junto com os investimentos em infraestrutura digital, impulsionados pela computação em nuvem e pela inteligência artificial. Projeções da Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais (Brasscom), citadas no relatório, indicam que a potência instalada dos data centers no país pode passar de 843 megawatts (MW), em 2025, para 3.144 MW em 2031.
Entre os empreendimentos anunciados estão o Rio AI City, da Elea Digital, no Rio de Janeiro, com investimento estimado em US$ 10 bilhões e capacidade planejada de até 3.200 MW. A Scala prevê investir R$ 32 bilhões em um campus em Barueri, em São Paulo, com capacidade de 600 MW. Esses números se referem a projetos planejados, cuja realização depende de etapas de implantação.
Contratos de longo prazo com grandes empresas de tecnologia, como Microsoft, Google e Amazon, ajudam a dar previsibilidade às receitas. Em geral, os acordos duram mais de dez anos e preveem pagamentos mesmo que o cliente não utilize toda a infraestrutura contratada. Isso reduz o risco de espaços ociosos e pode dar maior segurança aos credores, embora os prazos longos de construção e os investimentos altos também exponham as empresas a atrasos e custos extras.
A oferta de energia é apontada como o principal entrave. Dados da Empresa de Pesquisa Energética citados no estudo mostram que pedidos de acesso à rede de transmissão ligados a data centers somam 26,3 gigawatts (GW), cerca de um quarto do pico de demanda de eletricidade do país. O volume solicitado não significa que todos os projetos sairão do papel: aproximadamente 59% da capacidade analisada em processos recentes pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico foi considerada inviável ou dependente de expansão da transmissão.
A conexão elétrica pode levar mais tempo que a construção. Um data center de 50 MW demora cerca de 18 meses para ser construído, enquanto a aprovação e a implantação da ligação à rede podem exigir de três a quatro anos. Nesse intervalo, a estrutura pode ficar pronta sem condições de operar e gerar receita, elevando o risco para quem financia o projeto.
A falta de capacidade em áreas procuradas, especialmente Barueri, tem levado empresas a considerar cidades do interior paulista, como Campinas, Jundiaí e Sumaré. Projetos de treinamento de modelos de inteligência artificial também podem favorecer regiões com maior disponibilidade de energia renovável, entre elas o Nordeste.
Para entender
- Debêntures
- São títulos de dívida emitidos por empresas para captar recursos. Quem compra o papel empresta dinheiro à companhia, que assume o compromisso de pagar conforme as condições definidas na emissão.
- CDI
- O Certificado de Depósito Interbancário é uma taxa de referência do mercado financeiro brasileiro, usada com frequência para remunerar investimentos e dívidas. Uma obrigação atrelada ao CDI pode variar conforme a taxa de juros.