Comércio entre Brasil e Argentina segue apesar de tensão política
As exportações brasileiras ao país vizinho caíram 18% de janeiro a setembro, mas especialistas esperam continuidade das trocas e dos investimentos.
Resumo em 30 segundos
O Brasil exportou US$ 11,5 bilhões para a Argentina entre janeiro e setembro, 18% menos que no mesmo período de 2025. As importações de produtos argentinos somaram US$ 9,95 bilhões. Especialistas avaliam que o comércio e os investimentos devem continuar, embora as divergências entre Lula e Milei possam dificultar decisões no Mercosul.
As exportações do Brasil para a Argentina somaram US$ 11,5 bilhões entre janeiro e setembro deste ano, uma queda de 18% em relação ao mesmo período do ano passado, quando chegaram a US$ 14,2 bilhões. Apesar do recuo e das divergências entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Javier Milei, especialistas avaliam que o comércio bilateral e os investimentos devem seguir, embora o distanciamento possa dificultar negociações no Mercosul.
No sentido inverso, as importações brasileiras de produtos argentinos alcançaram US$ 9,95 bilhões no período, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O valor representa alta de 4,4% em relação aos nove primeiros meses do ano passado, mas queda de 4,7% na comparação anual informada para o fluxo comercial.
Em 2025, as exportações brasileiras à Argentina cresceram 31,4%, após terem recuado em 2024, e totalizaram US$ 18,1 bilhões. Naquele ano, o país foi o terceiro principal destino das vendas brasileiras ao exterior, atrás de China e Estados Unidos, e recebeu 5,2% do total exportado pelo Brasil.
Fabio Giambiagi, pesquisador associado do FGV Ibre, afirma que as trocas comerciais continuaram normalmente durante o terceiro mandato de Lula, apesar das tensões diplomáticas, e prevê a continuidade desse quadro. Para a professora de economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) Natalie Verndi, a Argentina tem importância estratégica para a indústria brasileira e para cadeias produtivas.
O comércio entre Brasil e Argentina envolve a circulação de bens e serviços entre os dois países. A proximidade geográfica e a integração regional também conectam essas trocas ao Mercosul, bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, cujas decisões dependem de consenso entre os integrantes.
As diferenças entre Lula e Milei incluem o papel do Estado na economia, a integração regional e a relação com os Estados Unidos, segundo Tamya Rebelo, professora de relações internacionais da ESPM. Ela avalia que essas divergências dificultam a criação de uma agenda política comum. O presidente argentino já chamou Lula de “corrupto” e “ladrão” em entrevista a um canal de televisão argentino; Lula, por sua vez, usou a expressão “aquela coisa” para se referir a Milei em uma convenção do PSB.
A tensão voltou ao debate após a vitória de Lula em 25 de outubro. Na semana seguinte, Milei afirmou que não parabenizaria o brasileiro pelo resultado. Rebelo considera que os atritos devem continuar durante o novo mandato, mas o conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais José Alfredo Graça Lima diz que o comércio sustenta os vínculos entre os países mesmo quando há divergências políticas. “Os governos passam, mas os Estados permanecem e o que realmente interessa para as sociedades e as nações, em geral, é a troca”, afirmou.
As diferenças podem ter efeitos sobre o Mercosul. Giambiagi aponta que o desconforto entre os presidentes pode dificultar avanços em políticas comuns ou em novos acordos do bloco, que exige consenso. Milei faltou a duas reuniões presenciais: uma realizada no Paraguai em 2024 e outra em julho. Nas ocasiões em que participou, defendeu maior flexibilidade e autonomia para que os integrantes negociem com parceiros de fora do bloco.
Lula, segundo Rebelo, atribui ao Mercosul uma função política de integração regional e de ampliação da capacidade de negociação internacional. A divergência sobre o papel do bloco pode, assim, afetar o ritmo de decisões entre os países, ainda que as relações comerciais continuem em funcionamento.