Cobre enfrenta dúvidas sobre alta ligada à inteligência artificial
A Trafigura estima que centros de dados acrescentem 350 mil toneladas à demanda neste ano, mas preços altos e estoques concentrados nos EUA elevam as incertezas.
Resumo em 30 segundos
O cobre se aproximou de níveis recordes, impulsionado em parte pela expectativa de expansão da inteligência artificial. Analistas alertam que os centros de dados podem crescer menos que o previsto e que preços elevados já reduzem o consumo em outros setores. A oferta limitada, porém, pode sustentar os valores no longo prazo.
O preço do cobre, que se aproximou de níveis recordes neste ano, enfrenta dúvidas sobre quanto da alta é sustentada pela demanda real e quanto depende das expectativas em torno da inteligência artificial (IA). Executivos e investidores do setor discutiram o risco de que a expansão dos centros de dados fique abaixo do previsto durante a semana da London Metal Exchange (LME), em Londres, na última semana de outubro.
A preocupação é que uma desaceleração do investimento em IA reduza parte do consumo de cobre esperado para os próximos anos. Um grande investidor do setor de metais avaliou que é mais provável que a IA seja uma bolha do que não e alertou para possíveis efeitos sobre os preços. Na avaliação dele, algo pode dar muito errado em algum momento de 2027.
O cobre é usado em cabos e fiações, veículos, eletrônicos e obras de construção por sua capacidade de conduzir eletricidade. A expansão da infraestrutura elétrica e dos centros de dados, assim como a eletrificação de transportes, deve ampliar a procura pelo metal. Ao mesmo tempo, novas minas levam anos para entrar em operação, enquanto jazidas em atividade envelhecem e produzem menos.
Graeme Train, chefe de análise de metais da Trafigura, afirmou que os centros de dados quase não contribuíram para o crescimento da demanda por cobre em 2023. A estimativa da empresa é que acrescentem cerca de 350 mil toneladas neste ano. A demanda mundial anual gira em torno de 28 milhões de toneladas, atendida principalmente pela produção das minas.
A alta dos preços, porém, pode limitar o consumo em outros setores. Segundo Train, os valores elevados já reduziram a demanda de atividades sem relação com a IA, dificultando o crescimento do consumo total. O movimento mostra que uma procura maior por parte da tecnologia não se traduz automaticamente em aumento equivalente da demanda agregada, se outros compradores recuam diante dos custos.
Há também divergência sobre o equilíbrio entre oferta e procura. Alice Fox, analista da Macquarie, disse que os preços estão subindo mais rápido que os indicadores de oferta. A instituição estima que houve excedente global no ano passado e prevê novos excedentes nos próximos anos. Em relatório, a Macquarie apontou ainda o risco de os planos para centros de dados e infraestrutura de IA não se concretizarem na escala atualmente projetada.
Alguns participantes do mercado consideram que o preço já incorpora uma demanda excepcional nos próximos anos. Um investidor sugeriu que o cobre poderia cair até US$ 1.000 por tonelada em relação ao pico registrado no começo do ano, perto de US$ 15 mil. Outros executivos citaram juros elevados, inflação e aumento da dívida pública dos Estados Unidos como riscos para o otimismo dos mercados, que, segundo eles, está fortemente ligado à expectativa de crescimento da IA.
As incertezas também envolvem o comércio internacional. A possibilidade de tarifas dos Estados Unidos sobre o cobre levou empresas a direcionar metal para o país, provocando uma concentração de estoques. Na última semana de outubro, 90% do cobre armazenado na rede de depósitos da LME e da Comex estava nos Estados Unidos, ante cerca de 20% dois anos antes. A Macquarie advertiu que a retirada da ameaça tarifária poderia levar a uma rápida transferência desses estoques para outros destinos e pressionar os preços.
A concentração do metal nos Estados Unidos é parte de um quadro em que decisões de política comercial podem alterar onde o cobre está disponível, sem necessariamente mudar a quantidade produzida. A LME e a Comex são mercados de referência para contratos de metais; seus depósitos registram estoques vinculados à negociação nessas bolsas. A distribuição geográfica desses volumes pode influenciar a oferta percebida em cada região e, por consequência, os preços locais.
A disputa por recursos também mudou as prioridades das mineradoras. Nos últimos dois anos, grandes empresas negociaram possíveis aquisições, mas apenas a fusão planejada entre a Anglo American e a canadense Teck Resources se concretizou. Conselhos e investidores passaram a cobrar expansão da produção de cobre, e companhias com maior exposição ao metal foram favorecidas nos mercados. As ações da BHP e da Freeport-McMoRan subiram entre 25% e 33% neste ano.
Em agosto, a BHP, maior mineradora do mundo, informou que o cobre ultrapassou o minério de ferro como sua principal fonte de lucro pela primeira vez. A diretora financeira da companhia, Vandita Pant, afirmou neste mês que a empresa também mantém compromisso com minério de ferro, carvão metalúrgico e fertilizantes. A mudança de foco reflete o papel estratégico atribuído ao cobre pela tecnologia e pela defesa, setores que dependem de grandes volumes de eletricidade e infraestrutura.
Apesar das dúvidas sobre a procura imediata, executivos do setor esperam que a oferta limitada sustente os preços no longo prazo. Kathleen Quirk, executiva-chefe da Freeport-McMoRan, afirmou que a trajetória não será linear, mas considera positiva a tendência da demanda. Duncan Wanblad, executivo-chefe da Anglo American, disse que a diferença entre oferta e procura tende a manter apoio aos valores atuais enquanto não for eliminada. Para Loic Jonchery, operador sênior de metais da Centalion, o cobre está caro para o mercado de hoje, mas ainda é difícil avaliar se o preço basta para resolver a escassez futura.