Carolina Arruda relata crises diárias e busca viver com menos dor
A veterinária de Lavras tem entre 20 e 30 episódios de neuralgia do trigêmeo por dia; após mais de cem tratamentos e 11 cirurgias, diz que ainda não obteve alívio suficiente.
Resumo em 30 segundos
Carolina Arruda convive com neuralgia do trigêmeo desde 2013 e relata de 20 a 30 crises diárias. Mesmo após mais de cem tratamentos e 11 cirurgias, a dor limita atividades básicas. Ela também enfrenta espondilite anquilosante e diz que, hoje, sua prioridade é viver com menos limitações.
Carolina Arruda, veterinária de 30 anos que vive em Lavras (MG), segue enfrentando crises diárias de neuralgia do trigêmeo, uma condição que provoca dor intensa no rosto. Diagnosticada em 2013, ela relata ter entre 20 e 30 episódios por dia e afirma que, apesar dos tratamentos, ainda não conseguiu alívio suficiente para retomar atividades básicas. Em 2024, criou uma vaquinha para custear uma eutanásia na Suíça, mas diz que sua prioridade hoje é conseguir viver com menos limitações.
“Não preciso que a dor vá embora, mas que me deixe viver. Eu queria vida e não sobrevida”, afirmou Carolina. A campanha arrecadou R$ 145.785,10, segundo ela. Parte do valor foi usada para pagar tratamentos; atualmente, a veterinária está desempregada e não exerce a profissão por causa da dor.
A neuralgia do trigêmeo afeta o nervo responsável por levar ao cérebro as sensações de toque, temperatura e dor da face. O nervo tem três ramificações, que atendem regiões diferentes do rosto, e a doença pode provocar choques dolorosos. No caso de Carolina, a condição é bilateral, ou seja, atinge os dois lados da face, uma forma rara e difícil de tratar.
Ela descreve a dor como uma sequência de crises que pode ser desencadeada por atividades cotidianas. Escovar os dentes, lavar o cabelo, tomar banho, comer ou entrar em um ambiente com ar-condicionado estão entre as situações que, segundo ela, podem ser difíceis. Carolina também diz que às vezes vomita e precisa de ajuda para realizar tarefas que gostaria de fazer sozinha.
Desde o diagnóstico, passou por mais de cem tratamentos com medicamentos e por 11 cirurgias. A primeira operação ocorreu em 2021. O caso é considerado paliativo desde 2025, e ela depende de ajustes frequentes em uma bomba intratecal implantada no abdômen. O aparelho libera continuamente uma combinação de sufentanil e morfina por uma sonda direcionada à região cerebral; Carolina também pode acionar doses extras quando a dor se intensifica.
A bomba, porém, não tem proporcionado o alívio esperado. “Essa é a última alternativa que tentamos, mas não alivia a dor”, disse. Ela também utiliza neuroestimuladores, com fios posicionados nos dois lados do rosto e na medula. Os aparelhos enviam impulsos elétricos para interferir nos sinais nervosos e reduzir a percepção da dor, mas exigem manutenção e ajustes.
Carolina cita a ziconotida, comercializada como Prialt, como uma possibilidade de reduzir parcialmente a dor crônica. O analgésico é derivado de uma substância encontrada no veneno de um caramujo-cone. Segundo ela, o medicamento não tem registro comercial no Brasil e o acesso é inviável: um frasco custaria de US$ 30 mil a US$ 50 mil, aproximadamente R$ 160 mil a R$ 268 mil, e seria necessário usar uma dose mensal.
A veterinária afirma que o tratamento exigiria morar fora do país e obter autorização para acessar o medicamento. A ziconotida é administrada por via intratecal, isto é, diretamente no líquido que envolve a medula e o sistema nervoso central, por meio de uma bomba. Essa forma de administração requer acompanhamento médico especializado.
A possibilidade de realizar eutanásia na instituição suíça Dignitas continua no horizonte de Carolina, mas ela relata dificuldades para reunir a documentação exigida. Segundo a veterinária, são necessários laudos de psicólogos, psiquiatras, neurologistas e especialistas em dor para demonstrar que a decisão foi tomada de maneira consciente. Ela diz que médicos procurados não quiseram emitir documentos com essa finalidade.
Além da neuralgia, Carolina convive desde 2024 com espondilite anquilosante, uma doença inflamatória crônica que afeta principalmente as articulações da coluna e da região do quadril. A condição reduziu sua mobilidade, e ela usa cadeira de rodas ou bengala conforme a distância e o local. Um tratamento com medicamentos imunobiológicos oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) reduziu, segundo ela, cerca de 70% dos sintomas da espondilite.
A veterinária também relata ter sido alvo de perseguição por um homem que se apresentava como fã e crítico e dizia sentir inveja do acesso dela a opioides. As ligações, mensagens e ofensas em perfis falsos levaram Carolina a registrar ocorrência na Polícia Civil. Foi aberto um inquérito, e há um processo criminal em andamento.
Carolina preside e dirige tecnicamente a Associação de Neuralgia do Trigêmeo do Brasil, criada em julho de 2024. A entidade acompanha quase 400 pacientes e conta com mais de 50 voluntários. Ela diz que o apoio da família é essencial para seguir vivendo e espera conseguir voltar a fazer coisas simples, como comparecer a compromissos, sair com a filha e o marido e ir à praia sem esconder o rosto.