Brasil reúne US$ 310 bilhões em projetos de indústria limpa
Do total mapeado, só a biorrefinaria da Acelen, na Bahia, alcançou decisão final de investimento nos 12 meses analisados pelo rastreador.
Resumo em 30 segundos
O Brasil tem US$ 310,1 bilhões em potencial de investimentos para projetos de indústria limpa e ocupa o quarto lugar no ranking global. Dos 33 projetos listados, apenas a biorrefinaria da Acelen Renováveis chegou à decisão final de investimento nos 12 meses considerados. A planta produzirá combustível sustentável de aviação a partir de macaúba.
O Brasil tem US$ 310,1 bilhões em investimentos potenciais para projetos de indústria limpa, distribuídos em 33 iniciativas, e ocupa a quarta posição no ranking global. Apenas um projeto brasileiro chegou à Decisão Final de Investimento (FID, na sigla em inglês) nos 12 meses considerados pelo levantamento: a biorrefinaria da Acelen Renováveis, em São Francisco do Conde, na Bahia.
O rastreador Global Project Tracker, divulgado nesta quarta-feira pela Mission Possible Partnership (MPP), aponta que o país está atrás de China, Índia e Austrália. O Chile aparece em quinto lugar. O levantamento monitora projetos industriais de escala comercial alinhados à redução profunda de emissões.
A FID é a aprovação definitiva do empreendimento pela empresa e por seus financiadores, com compromisso de recursos para a construção. Atingir essa etapa indica que o projeto deixou para trás fases de estudo, licenciamento e negociação, embora ainda haja trabalho até a entrada em operação.
A biorrefinaria da Acelen tem investimento de US$ 1,5 bilhão na primeira fase industrial e recebeu US$ 540 milhões destinados ao ativo de produção após alcançar a FID, segundo a atualização do rastreador. A planta será construída em Mataripe, no município de São Francisco do Conde, e usará óleo de macaúba, espécie nativa, para produzir combustível sustentável de aviação (SAF), sem competir com culturas destinadas à alimentação.
A Acelen é controlada pela Mubadala Capital, fundo soberano de Abu Dhabi. Além do aporte de US$ 1,5 bilhão para a primeira fase industrial, a empresa prevê investimentos totais de US$ 3 bilhões, incluindo a cadeia agrícola. As informações divulgadas não detalham cronograma de obras nem abertura de vagas; por isso, o anúncio do investimento não permite estimar quando a biorrefinaria começará a contratar.
Do valor potencial mapeado no Brasil, US$ 221,4 bilhões correspondem a infraestrutura de energia renovável, incluindo geração, armazenamento em baterias e expansão de redes. Outros US$ 88,6 bilhões são destinados a unidades de produção industrial. A diferença entre esses componentes ajuda a explicar por que o potencial financeiro total não equivale a investimentos já aprovados para fábricas.
Além da biorrefinaria, o rastreador lista 29 projetos anunciados em diferentes fases: 24 de amônia verde, quatro de metanol limpo e um de SAF. O levantamento também inclui três fábricas tradicionais de alumínio, abastecidas por energia hidrelétrica, que já estão em funcionamento. A MPP ressalta que os projetos em desenvolvimento têm níveis variados de maturidade.
A amônia é usada na fabricação de fertilizantes e pode servir como vetor para o transporte de hidrogênio. Na versão verde, sua produção utiliza energia renovável para reduzir emissões em comparação com processos baseados em combustíveis fósseis. A maior parte dos projetos brasileiros desse tipo mira a exportação, enquanto a parcela voltada ao mercado interno de fertilizantes nitrogenados ainda é menor.
A dependência de importações é um dos fatores que tornam o tema relevante para o país. Segundo a avaliação de Moutinho, executivo da MPP, a América Latina compra do exterior cerca de 90% dos fertilizantes que consome. A produção local com energia renovável poderia reduzir a exposição a oscilações internacionais de preços e a custos de transporte, mas depende de condições que tornem os empreendimentos financiáveis.
Entre os obstáculos apontados por Moutinho estão a disponibilidade de eletricidade limpa a preços competitivos e a infraestrutura para levá-la aos projetos. Ele também citou a concorrência crescente por energia e os efeitos esperados dos Leilões de Reserva de Capacidade (LRCAP) sobre os preços. Na avaliação do executivo, critérios de acesso à transmissão em áreas com capacidade limitada também podem dificultar a conexão de novos empreendimentos.
O marco legal do hidrogênio, a Lei do Combustível do Futuro e a criação do mercado regulado de carbono são instrumentos que podem melhorar a viabilidade dos projetos, segundo Moutinho. Ele destacou ainda créditos tributários do Programa de Desenvolvimento do Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono (PHBC) e incentivos do Rehidro. Para atrair capital, porém, defendeu também mecanismos que garantam compradores e receitas de longo prazo, além de incentivos à oferta.
A Lei do Combustível do Futuro prevê um mandato para o uso de SAF, criando uma obrigação de compra para o setor de aviação. Moutinho considera que regras de demanda desse tipo podem ajudar a dar previsibilidade aos produtores. Para fertilizantes, ele apontou os contratos por diferença (CfDs), previstos no Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert), como uma forma de reduzir a incerteza de receita.
No cenário mundial, 36 instalações industriais limpas alcançaram a FID nos 12 meses cobertos pelo rastreador, somando US$ 50 bilhões em compromissos. A China respondeu por 22 desses projetos, com US$ 45 bilhões. O chamado Cinturão do Sol Industrial, grupo de economias emergentes que inclui o Brasil, reuniu US$ 5,3 bilhões em seis instalações, acima dos US$ 4,8 bilhões destinados a seis projetos em economias desenvolvidas.
Para transformar o potencial brasileiro em unidades efetivamente financiadas, Moutinho apontou a necessidade de ampliar contratos de compra e criar regras estáveis para investidores. Bancos públicos e multilaterais podem ajudar com financiamento de custo menor, mas, segundo ele, esse apoio não resolve sozinho entraves como falta de infraestrutura ou ausência de contratos de venda. A escala das decisões de investimento dependerá, portanto, tanto do capital disponível quanto das condições regulatórias e comerciais para viabilizar cada projeto.