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Quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Brasil pode triplicar pesquisas clínicas com mais centros e equipes

A lei aprovada em 2024 trouxe prazos mais competitivos, mas a expansão da pesquisa clínica depende de centros, profissionais e capacidade regulatória.

Por Redação Plantão Paulista 4 min de leitura
Imagem gerada por IA: Pesquisadores conversam com voluntários em um centro de pesquisa clínica. Imagem gerada por IA
Imagem ilustrativa gerada por IA: Pesquisadores conversam com voluntários em um centro de pesquisa clínica.
Resumo em 30 segundos

O Brasil pode ampliar de duas a três vezes, ou mais, o número de pesquisas clínicas que recebe. A mudança regulatória aprovada em 2024 ajudou a tornar o país mais competitivo, mas o crescimento depende de expandir centros, formar equipes e reforçar a capacidade técnica dos órgãos de análise. O setor também busca atrair empresas de biotecnologia e avançar para estudos em fases iniciais.

O Brasil pode ampliar de duas a três vezes, ou até mais, o número de pesquisas clínicas que recebe, mas precisa expandir centros, formar profissionais e fortalecer a estrutura regulatória para aproveitar essa oportunidade. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira, 27, em São Paulo, por Fernando de Rezende, diretor executivo da Associação Brasileira de Organizações Representativas de Pesquisa Clínica (Abracro), durante o Summit Saúde.

Pesquisa clínica é o estudo realizado com participantes para avaliar intervenções de saúde, como medicamentos, antes de sua eventual aprovação e uso amplo. Os ensaios podem testar segurança e eficácia e são conduzidos em etapas. A participação de pacientes depende de protocolos e avaliação ética; os resultados ajudam a determinar se um tratamento pode avançar no desenvolvimento.

Rezende afirmou que o tamanho da população, a capacidade instalada, a quantidade de profissionais, o mercado farmacêutico e a economia colocam o país em condições de estar entre os dez principais destinos mundiais de estudos. Para alcançar essa posição, porém, será necessário aumentar a capacidade de receber projetos e ampliar a pesquisa para além dos centros hoje concentrados sobretudo no Sul e no Sudeste.

Por muitos anos, o tempo para autorizar estudos reduziu a competitividade brasileira. Pesquisas internacionais costumam recrutar participantes em vários países ao mesmo tempo. Se os centros brasileiros demoravam a iniciar, outros locais podiam avançar no recrutamento, limitando a participação do país ou retirando-o de um projeto.

O Brasil chegou a ser chamado no setor de país de “resgate”, afirmou Rezende: tinha profissionais, centros qualificados e custos competitivos, mas entrava em alguns projetos quando era preciso completar a quantidade prevista de participantes. A mudança regulatória aprovada em 2024 estabeleceu novas regras para pesquisas com seres humanos, alterou o processo de análise ética e definiu prazos mais competitivos, além de ampliar a segurança jurídica.

Os primeiros sinais de crescimento já apareceram. De acordo com dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) citados por Rezende, o número de estudos recebidos em 2025 subiu 11%. A redução dos prazos, contudo, também exige que os órgãos responsáveis tenham pessoal e capacidade técnica para avaliar os protocolos dentro dos períodos estabelecidos.

Luís Fernando Correia, médico e embaixador do Projeto Cura de Apoio à Pesquisa Clínica, disse que cerca de 25% dos estudos liberados no último ano foram aprovados por decurso de prazo. Nesse mecanismo, a autorização ocorre quando termina o período previsto para a análise sem que haja uma decisão. Para Correia, o dado reforça a necessidade de ampliar a base técnica da Anvisa.

O crescimento também depende de investimento nos locais onde os estudos são conduzidos. Um hospital não se torna centro de pesquisa apenas por manifestar interesse: precisa criar estrutura, contratar e treinar equipes, segundo Correia. Rezende relacionou a concentração regional dos estudos à distribuição desigual dos serviços de saúde e afirmou que a expansão da pesquisa está ligada a desafios mais amplos do país.

A diversidade genética da população brasileira pode ser outra vantagem para atrair projetos internacionais. Estudos com participantes de diferentes origens ajudam a avaliar como medicamentos se comportam em grupos populacionais distintos. A característica também desperta interesse de empresas chinesas, que precisam realizar etapas de desenvolvimento fora de seu país, segundo Rezende.

A Abracro tem feito missões à China para apresentar o Brasil como destino de pesquisas. Uma nova missão está prevista para março, em uma iniciativa que conta com a participação da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). O objetivo é aproximar empresas chinesas de centros e profissionais brasileiros.

A disputa por projetos também envolve empresas de biotecnologia, além das grandes farmacêuticas multinacionais. Muitas dessas companhias menores ainda não conduziram estudos no Brasil, e algumas não fizeram pesquisas fora de seus países de origem. Rezende afirmou que, para atrair mais projetos, é preciso conversar com centenas de biotechs, e não apenas com algumas dezenas de grandes empresas.

A chegada de mais estudos pode ampliar as oportunidades de participação de pacientes, inclusive para pessoas com doenças cujas opções de tratamento já se esgotaram. Um ensaio clínico pode oferecer acesso a uma terapia experimental, mas a inclusão depende dos critérios de cada protocolo e não representa garantia de benefício ou de aprovação futura do medicamento.

Além de atrair ensaios, o Brasil enfrenta o desafio de avançar para fases iniciais do desenvolvimento de medicamentos, mais próximas da pesquisa aplicada e da inovação. Rezende comparou o país à China e à Coreia do Sul: no início dos anos 2000, os três tinham presença importante em estudos de fase 3, etapa mais avançada, mas os outros dois ampliaram sua atuação em fases iniciais. Segundo ele, o Brasil não acompanhou esse movimento na mesma velocidade.

Para mudar o quadro, Rezende defendeu fortalecer toda a cadeia de inovação, incluindo caminhos para que descobertas feitas em universidades avancem até a população. A nova legislação é um passo, mas não resolve sozinha a falta de estrutura, profissionais e capacidade regulatória. O setor vê o momento como uma transição para uma participação brasileira mais ampla na pesquisa clínica internacional.

Para entender

Lei 14.874/2024
A lei estabelece regras para pesquisas com seres humanos no Brasil, incluindo aspectos da análise ética e da proteção de participantes. Foi sancionada em 2024 e é a base legal citada na discussão sobre prazos e segurança jurídica dos estudos clínicos.

Fontes: Estadão

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