Bank of America perde US$ 18 bilhões após multa de US$ 1,95 bilhão
A penalidade envolve falhas contra lavagem de dinheiro e supostas violações de sanções; as ações do BofA recuaram 4,76%, para US$ 51,39.
Resumo em 30 segundos
O Bank of America perdeu cerca de US$ 18 bilhões em valor de mercado após a divulgação de multas regulatórias de US$ 1,95 bilhão por falhas nos controles contra lavagem de dinheiro e supostas violações de sanções. Reguladores apontaram problemas em sistemas de monitoramento, falta de investigadores e transferências com dados imprecisos de remetentes.
O Bank of America perdeu cerca de US$ 18 bilhões em valor de mercado nesta quarta-feira (14), depois que vieram a público falhas em seus controles contra lavagem de dinheiro e violações de sanções. As ações do banco caíram 4,76%, para US$ 51,39, e a instituição anunciou resultados financeiros afetados por uma penalidade regulatória de US$ 1,95 bilhão, divulgada menos de 15 horas antes do balanço.
A soma das multas é a maior já aplicada ao banco pelo Office of the Comptroller of the Currency (OCC), órgão regulador bancário dos Estados Unidos, e a terceira maior imposta pelo Departamento do Tesouro. O valor reúne penalidades relacionadas aos controles contra crimes financeiros e a um acordo com o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC, na sigla em inglês) sobre supostas violações de sanções contra países como Irã e Rússia.
Após a queda, o valor de mercado do Bank of America ficou em US$ 359,22 bilhões. O desempenho fraco das operações de negociação de ativos também pesou sobre a reação dos investidores: a equipe de trading teve resultados abaixo das estimativas, apesar da volatilidade dos mercados. Uma carteira de títulos de renda fixa voltou a registrar prejuízos contábeis superiores a US$ 100 bilhões.
As falhas de conformidade envolvem sistemas de monitoramento de transações, falta de investigadores para examinar alertas e problemas na identificação de remetentes de transferências. Reguladores haviam cobrado mudanças no sistema de controle do banco; ao rever operações anteriores com limites mais baixos para detectar movimentações suspeitas, a instituição identificou que quase 8.900 relatórios adicionais poderiam ter sido emitidos.
Um dos sistemas sob crítica é o Event Processor, criado pelo banco em 2010 para acompanhar transações e sinalizar operações potencialmente suspeitas. Segundo os reguladores, o limite usado para gerar alertas era alto demais. O objetivo de sistemas desse tipo é identificar atividades que possam exigir investigação e eventual comunicação às autoridades, mas os alertas precisam ser analisados por equipes de compliance.
A capacidade de investigação também foi apontada como insuficiente. O acúmulo de casos chegou a quase 200 mil, e o OCC afirmou que o banco precisou incorporar milhares de investigadores para lidar com o aumento das transações que exigiam análise. Em um período de quase três anos encerrado em outubro de 2024, o BofA processou 33 mil transferências com informações imprecisas sobre os remetentes, o que, segundo o órgão, poderia dificultar a identificação de quem enviou os recursos.
A Rede de Execução de Crimes Financeiros (FinCEN), ligada ao Tesouro, também questionou a relação do banco com três clientes do setor de veículos recuperados de sinistros. Um deles operava um marketplace que conectava vendedores dos Estados Unidos a compradores nacionais e internacionais; outro era uma companhia de capital aberto no mesmo ramo; e o terceiro exportava veículos e mantinha relações comerciais com os dois primeiros.
Funcionários de compliance levantaram preocupações sobre esses clientes. Em uma apresentação a executivos, a equipe afirmou que um deles havia motivado mais de 125 investigações relacionadas a lavagem de dinheiro, cerca de 90% ligadas a fraudes, e recomendou o encerramento da relação. O gerente responsável pelas contas argumentou que o cliente era grande e valioso, com receita anual de US$ 6 milhões. Até 2025, ele ainda processava pagamentos de terceiros no banco.
“À medida que esses problemas surgiam, o Bank of America priorizou suas receitas e minimizou o impacto sobre os recursos necessários para a conformidade”, afirmou o Departamento do Tesouro em comunicado. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse que as medidas mostram que mesmo as maiores instituições financeiras não estão acima da lei.
Em teleconferência com analistas, o presidente-executivo Brian Moynihan disse que o banco está trabalhando para corrigir as falhas e que pretende tratar o episódio como um ajuste. O BofA afirmou ter investido bilhões de dólares em tecnologia e designado milhares de funcionários para combater crimes financeiros. “O foco da administração é resolver essa situação”, declarou Moynihan.
A reação ocorre em um momento de pressão sobre as ações do banco, que já registravam o pior desempenho entre as seis maiores instituições financeiras dos Estados Unidos nos cinco anos anteriores. A queda de quarta-feira também reduziu a confiança dos investidores na gestão de Moynihan, que lidera o BofA há quase duas décadas. Na semana passada, a American Express foi multada em US$ 350 milhões por falhas na detecção e comunicação de casos de lavagem de dinheiro.
Para entender
- OCC
- O Office of the Comptroller of the Currency é uma agência federal dos Estados Unidos que supervisiona bancos nacionais e associações federais de poupança. Entre suas atribuições estão fiscalizar a segurança e a solidez das instituições sob sua supervisão e exigir medidas corretivas quando identifica problemas.
- OFAC
- O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros é uma divisão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos responsável por administrar e aplicar programas de sanções econômicas e comerciais. Esses programas podem restringir transações com países, entidades e pessoas designados.
- FinCEN
- A Rede de Execução de Crimes Financeiros é uma unidade do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos que recebe e analisa informações financeiras para combater lavagem de dinheiro e outros crimes. Instituições financeiras têm obrigações de monitoramento e comunicação de atividades suspeitas.